[layerslider id=”3″]

A Gênese é uma das cinco obras básicas da Codificação do Espiritismo. É um livro que, conhecido e estudado, proporciona uma oportunidade excepcional de imersão em grandes temas de interesse universal, abordados de forma lógica, racional e reveladora. Divide-se em três partes: na primeira parte, analisa a origem do planeta Terra, de forma coerente, fugindo às interpretações misteriosas e mágicas sobre a criação do mundo; na segunda, aborda a questão dos milagres, explicando a natureza dos fluidos e os fatos extraordinários contidos no Evangelho; na terceira enfoca as predições do Evangelho, os sinais dos tempos e a geração nova, que marcará um novo tempo no mundo com a prática da justiça, da paz e da fraternidade. Os assuntos apresentados nos dezoito capítulos desta obra têm como base a imutabilidade das grandiosas leis divinas.
Print Friendly, PDF & Email

CAPÍTULO XIII – CARACTERES DOS MILAGRES

1.– Em sua acepção etimológica, o termo milagre (de mirari, admirar) (a) significa admirável, coisa extraordinária, surpreendente. A academia definiu esta palavra: Um ato do poder divino contrário às leis conhecidas da natureza.

Em sua acepção usual, este termo perdeu, como tantos outros, seu significado primitivo. Em geral que seja, ela é restrita a uma ordem particular de fatos. No pensamento das massas, um milagre implica na ideia de um feito extra natural; no senso litúrgico, é uma derrogação das leis da natureza, pela qual Deus manifesta seu poder. Tal é, com efeito, sua acepção vulgar, tornando-se o sentido próprio, e é apenas por comparação e por metáfora que se aplica às circunstâncias ordinárias da vida.

Um dos caracteres do milagre propriamente dito, é ser inexplicável, da mesma forma que se completa por fora das leis naturais; e é tal a ideia que se o aplica, que se um fato miraculoso venha a encontrar explicação, diz-se então que não é mais um milagre, por mais surpreendente que o seja.

Um outro aspecto do milagre é o de ser insólito, isolado e excepcional; a partir do momento em que um fenômeno se reproduz, seja espontaneamente, seja por um ato da vontade, é porque ele está submisso a uma lei, e desde então, que esta lei seja conhecida ou não, não pode ser mais um milagre.

2. – A Ciência realiza todos os dias milagres aos olhos dos ignorantes. Que um homem realmente morto seja retornado à vida por uma intervenção divina, é de fato um verdadeiro milagre, porque é um fato contrário às leis da natureza. Mas se este homem apenas tem a aparência da morte, se há ainda nele uma réstia de vitalidade latente, é que a ciência ou uma ação magnética torne a reanimá-lo, para as pessoas esclarecidas, é um fenômeno natural, mas, aos olhos do vulgar ignorante, o fato passará por milagroso. Que ao meio de certas experiências um físico lance um escaravelho elétrico e faça cair um raio sobre uma árvore, este novo fenômeno será olhado como provido de um poder diabólico; mas Josué parando o movimento do Sol, ou de preferência, da Terra, admitindo-se o feito, eis aí o verdadeiro milagre, porque não existe nenhum magnetizador dotado de um bastante grande poder para operar um tal prodígio.

Os séculos da ignorância foram fecundos em milagres, porque tudo o que a causa era desconhecida passava por milagroso. Na medida em que a Ciência revelou novas leis, o círculo de maravilhas de restringiu; contudo, como não havia explorado todo o campo da natureza, restava ainda uma deveras larga parte ao maravilhoso.

3. – O maravilhoso, excluído do domínio da materialidade pela Ciência, entrincheirou-se no da espiritualidade, que tem sido seu último refúgio. O Espiritismo, demonstrando que o elemento espiritual é uma das forças vivas da natureza, força incessantemente operante justamente com a força material, faz voltar os fenômenos que saíram do círculo dos efeitos naturais, porque, como os demais, eles são correlatos a leis. Se o maravilhoso está expulso da espiritualidade, não há mais razão de ser. E é então somente que se poderá dizer que o tempo dos milagres passou. (1)

4. – O Espiritismo vem, pois, a seu turno, fazer o que cada Ciência fez com sua chegada: revelar novas leis e explicar, em decorrência, os fenômenos que são a mola destas leis.

Estes fenômenos, é verdade, prendem-se à existência dos Espíritos e à sua intervenção no mundo material; ora, pois, diga-se que é sobrenatural. Mas, então, torna-se preciso provar que os Espíritos e suas manifestações são contrárias às leis da natureza; que não o é nem pode ser aí uma de suas leis.

O Espírito é apenas uma alma que sobreviveu ao corpo; é o ser principal já que não morre, ao passo que o corpo é apenas um acessório que se destrói. Sua existência é, pois também todo natural depois que pendente da encarnação; é submissa às leis que regem o princípio espiritual, como o corpo é submisso às que regem o princípio material; porém, como estes dois princípios possuem uma afinidade necessária que reagem incessantemente entre si, e que de sua ação simultânea resultam o movimento e a harmonia do conjunto, em seguida, que a espiritualidade e a materialidade são duas partes e um mesmo todo, também natural, uma que outra, e que a primeira não é uma exceção, uma anomalia na ordem das coisas.

5. – De acordo com sua encarnação, o Espírito se manifesta sobre a matéria por intermédio de seu corpo fluídico (b) ou perispírito; ele vem a ser o mesmo fora da encarnação. Como Espírito, e, na medida da sua capacidade, faz o que faria como criatura humana, apenas, como não mais possui seu corpo carnal por instrumento, ele se serve desde que necessário, de órgãos materiais de um encarnado que vêm a ser o que se chama de médium. Ele faz como aquele que, não podendo escrever por si mesmo, empunha a mão de um secretário, ou que não sabendo uma língua, serve-se de um intérprete. Um secretário, um intérprete são os médiuns de um encarnado, como o intermediário é o secretário ou o intérprete de um Espírito.

6 – O meio no qual atuam os Espíritos e as maneiras de execução não sendo mais as mesmas das do estado encarnatório, os efeitos são distintos. Estes efeitos parecem apenas sobrenaturais porque são produzidos com ajuda de agentes que não são aqueles dos quais nos servimos; mas desde o instante em que estes agentes estejam na natureza, e que os fatos de manifestações ocorrem em virtude de certas leis, não há nada de sobrenatural nem de maravilhoso. Antes de conhecer as propriedades da eletricidade, os fenômenos elétricos passavam por prodigiosos aos olhos de certas pessoas; desde que a causa ficou conhecida, o surpreendente desapareceu. Acontece o mesmo com os fenômenos espíritas, que não saem mais da ordem das leis naturais do que os fenômenos elétricos, acústicos, luminosos e outros que têm tido origem de um vulgo de crenças supersticiosas.

7. – Portanto, dir-se-vos-á, admitis que um Espírito possa envolver uma mesa e a manter no espaço sem ponto de apoio; não seria uma derrogação da lei de gravidade? – Sim, à lei conhecida; mas conheceis todas as leis? Antes de se ter experimentado a força de ascensão de certos gases, quem diria que uma pesada máquina portando vários homens pudesse triunfar sobre a força gravitacional? Aos olhos do vulgo, isto não deveria parecer maravilhoso, diabólico? Aquele que há um século transmitir um despacho telegráfico a quinhentos léguas, e receber a resposta em poucos minutos, teria passado por louco; se o tivesse feito, teria acreditado que possuía o diabo às suas ordens, porque, então, só o diabo estaria capacitado de ir tão depressa; conforme atualmente a coisa é não apenas reconhecida como possível, mas mostra-se totalmente natural. Por que, pois um fluido desconhecido não teria a propriedade, nas circunstâncias apresentadas, de contrabalançar o peso do balão? É, de fato, o que tem lugar no caso do qual se cogita. (Livro dos Médiuns, cap. IV).

8. – Os fenômenos espíritas, estando na natureza, produzem-se a todos os tempos; mais precisamente porque seus estudos não se podiam fazer pelos meios materiais dos quais dispõem a ciência vulgar, eles se situaram por mais tempo do que outros no domínio do sobrenatural, de onde o Espiritismo os fez sair atualmente.

O sobrenatural, baseado sobre aparências inexplicáveis, deixa um livre curso à imaginação que, vagando pelo desconhecido, produz, então, as crenças supersticiosas. Uma explicação racional fundamentada sobre as leis da natureza, reconduzindo o homem sobre o terreno da realidade, coloca um ponto de parada aos desvios da imaginação e destrói as superstições. Longe de ampliar o domínio do sobrenatural, o Espiritismo o restringe até os seus últimos limites e lhe despoja de seu último refúgio. Se faz crer à possibilidade de certos fatos, ele impede de crer em muitos outros, porque demonstra no círculo da espiritualidade, como a ciência no círculo da materialidade, o que é possível e o que não o é. Contudo, como não tem a pretensão de possuir a última palavra sobre todas as coisas, mesmo sobre aquelas que sejam da sua competência, não se coloca jamais em regulador absoluto do possível, e faz a parte dos conhecimentos que reserva o porvir.

9. – Os fenômenos espiríticos consistem nos diferentes modos de manifestação da alma ou Espírito, quer durante a encarnação, quer no condição de erraticidade. É por suas manifestações que a alma revela, sua existência, sua sobrevivência e sua individualidade; julga-se a por seus efeitos; a causa sendo natural, o efeito o é igualmente. São estes efeitos que fazem o objeto especial das pesquisas e do estudo do Espiritismo, a fim de chegar ao conhecimento tão completo quanto possível da natureza e dos atributos da alma, como das leis que regem o princípio espiritual.

10. – Pelos que denegam a existência do princípio espiritual independente e, por conseguinte, a da alma individual e sobrevivente, toda a natureza estaria na matéria tangível; todos os fenômenos que se prendem à Espiritualidade são, a seus olhos, sobrenaturais, por consequência, quiméricos; não admitindo a causa, não podem admitir o efeito; e quando os efeitos são patentes, eles os atribuem à imaginação, à ilusão, à alucinação e se recusam de se aprofundar neles; daí, entre eles, uma opinião preconcebida que os tornam impróprios para julgar sadiamente o Espiritismo, porque parte do princípio da negação de tudo o que não seja material.

11. – Do que o Espiritismo admite, os efeitos que sejam a consequência da existência da alma, não resulta que aceite todos os efeitos qualificados de maravilhosos e que pretenda justificá-los e crer neles; que se faça o campeão de todos os visionários, de todas as utopias, de todas as excentricidades sistemáticas, de todas as lendas miraculosas: seria preciso ter bem pouco o conhecimento para pensar assim. Seus adversários, crendo lhe opor um argumento sem réplica, quando após ter feito eruditas buscas sobre os convulsionários de Saint-Médard, os protestantes dos montes Cévennes, ou os religiosos de Loudun, eles chegaram a descobrir aí fatos patentes de fraude que ninguém contesta; mas estas histórias seriam elas o evangelho do Espiritismo? Seus partidários, teriam eles negado que o charlatanismo havia especulado certos fatos a seu proveito; que a imaginação o tenha criado; que o fanatismo o tenha exagerado bastante? Não é mais solidário extravagâncias que se possam cometer em seu nome, que a verdadeira ciência não fica com abusos da ignorância, nem a verdadeira religião dos excessos do fanatismo. Muitos críticos julgam o Espiritismo apenas sobre os contos de fada e as lendas populares que o são as ficções; tanto valeria julgar a história sobre os romanos históricos ou as tragédias.

12. – Os fenômenos espíritas são os mais frequentemente espontâneos, e se produzem sem qualquer ideia preconcebida entre as pessoas que aí sonham tão pouco quanto possível; em certas circunstâncias, é que podem ser provocados pelos agentes designados sob o nome de médiuns: no primeiro caso, o médium é inconsciente relativamente ao que se produz por seu intermédio; no segundo ele atua com conhecimento de causa; eis a distinção entre médiuns conscientes e médiuns inconscientes. Estes últimos são os mais numerosos e se encontram frequentemente entre os incrédulos os mais obstinados que fazem assim do Espiritismo sem o saber e sem o querer. Os fenômenos espontâneos têm, por si próprios, uma importância capital, porque não se pode suspeitar da boa fé dos que os obtenham. O é aqui como no sonambulismo, que, entre certos indivíduos, é natural e involuntário, e entre outros, provocados pela ação magnética (2).

Mas que estes fenômenos sejam ou não o resultado de um ato da vontade, a causa primeira é exatamente a mesma e não se encarta em nenhuma das leis naturais. Os médiuns não produzem pois absolutamente nada de sobrenatural; por consequência, eles não fazem nenhum milagre; as curas instantâneas, elas próprias, não são mais miraculosas do que os outros efeitos, porque são devidas à ação de um agente fluídico fazendo o ofício de agente terapêutico do que as propriedades não são menos naturais por terem sido desconhecidas até nossos dias. O epíteto de taumaturgos, dados a certos médiuns pela crítica ignorante dos princípios do Espiritismo, é, pois, de repente, impróprio. A qualificação de milagre dado, por comparação, a esta sorte de fenômenos, só pode induzir em erro sobre seu verdadeiro caráter.

13. – A intervenção de inteligências ocultas nos fenômenos espíritas não mostra este mais miraculoso do que todos os outros fenômenos que são devidos a agentes invisíveis, porque estes seres ocultos que povoam os espaços são uma das potências da natureza poder cuja ação é incessante sobre o mundo material tão quanto sobre o mundo moral.

O Espiritismo, esclarecendo-nos sobre este poder, dá-nos a chave de uma multidão de coisas inexplicadas e inexplicáveis por qualquer outro meio e que poderiam, em tempos recuados, passar por prodígios; ele revela, igualmente, que o magnetismo, uma lei, senão desconhecida, dita no mínimo, mal contida; ou por melhor dizer, conhecendo-se os efeitos, porque eles o são produzidos a todo tempo, porém, sem se conhecer a lei e é a ignorância desta lei que engendrou a superstição. Esta lei conhecida, o maravilhoso dissipa-se e os fenômenos entram na ordem das coisas naturais. Eis porque os Espíritos não fazem mais milagres fazendo girar uma mesa ou escreverem os falecidos, como a medicina em fazendo reviver um moribundo, ou o físico fazendo cair um raio. Aquele que pretendesse, com ajuda desta ciência, fazer milagres, seria ou um ignorante da coisa, ou um fabricante de patetas.

14. – Uma vez que o Espiritismo repudia toda pretensão às coisas miraculosas, com sua franqueza, há milagres na acepção usual da palavra?

Digamos primeiramente que entre os fatos reputados miraculosos que se passam antes do advento do Espiritismo, e que se passam ainda em nossos dias, a maior parte, senão tudo encontra explicação nas leis recentes que veio revelar; estes fatos voltam pois, ainda que com outro nome, na ordem dos fenômenos espíritas, e como tal, nada têm de sobrenatural. Fica bem entendido que não se cogita aqui de fatos autênticos e não destes que, sob o nome de milagre, são o produto de um indigno malabarismo com vista  de explorar a credulidade; não mais do que certos fatos lendários que possam ter tido, na origem, um fundo de verdade, mas eu a superstição amplificou ao absurdo. É sobre estes fatos que o Espiritismo vem lançar a luz, em dando os meios de fazer a parte do erro e da verdade.

15. – Quanto aos milagres propriamente ditos, nada sendo impossível a Deus, pode-se fazê-los sem dúvida; fê-los? Em outros termos: derrogam-se as leis que se estabeleceram? Não cabe ao homem prejulgar os atos da Divindade e as subordinar à fraqueza de seu entendimento; entretanto, temos por critério de nosso julgamento, a atenção das coisas divinas, os atributos próprios de Deus. Ao soberano poder junta a soberana sabedoria do que é preciso concluir que não se faz nada de inútil.

Por que, pois, faria milagres? Por atestar Seu poder, dir-se-ia; mas o poder de Deus não se manifesta de uma maneira bem senão impressionante juntamente grandiosa das obras da criação, pela sabedoria previdente que preside a suas partes mais ínfimas bem como as maiores, e por harmonia das leis que regem o Universo, que, por algumas pequenas e pueris derrogações que sabem imitar todos os fabricantes de desvios? Que se diria de um sábio mecanicista que, para provar sua habilidade, desequilibrasse o relógio que tivesse construído, obra prima da ciência, a fim de mostrar que pode desfazer o que fez? Seu saber não resultaria ao contrário da regularidade da precisão do movimento?

A questão dos milagres propriamente dita não é, pois o meio do Espiritismo? Mas, apoiando-se sobre o raciocínio: que Deus não faz nada de inútil, emite esta opinião que: os milagres não sendo necessários à glorificação de Deus, nada no Universo de afasta das leis gerais. Si é fato que não compreendemos, é que nos falta ainda os conhecimentos necessários.

16. – Admitindo-se que Deus possa, por razões que não podemos apreciar, derrogar acidentalmente as leis que estabeleceu, estas leis não seria mais imutáveis; mas, ao menos, é racional pensar que só a ele cabe o poder; não saberia senão admitir sem Lhe denegar todo poder, que seja dado ao Espírito do mal desfazer a obra de Deus , fazendo, por seu lado prodígios a seduzir, mesmo, os eleitos, o que implicaria na ideia de um poder igual  ao Seu, é, portanto, o que se ensina. Se Satã tem o poder de interromper o curso das leis naturais que são obra divina, sem a permissão de Deus, ele será mais poderoso eu Deus: pois Deus não tem o todo-poderio; se Deus lhe delega esta influência, como se o pretende, para induzir mais facilmente os homens ao mal, Deus não teria a soberana bondade. Em um e outro caso, é a negação de um dos atributos sem os quais Deus não seria Deus.

Também a Igreja distingue os bons milagres que vêm de Deus, malvados milagres que procedem de Satã; mas, como fazer a diferença? Que um milagre seja oficial ou não, isto não seria menos uma derrogação das leis que emanam de Deus apenas; se um indivíduo é curado, a dizer-se, miraculosamente, que o seja por feitura de Deus ou de Satã, ele não estaria menos curado. É preciso ter bastante pobre ideia da inteligência humana para esperar que semelhantes doutrinas pudessem ser aceitas em nossos dias.

A possibilidade de certos feitos reputados miraculosos sendo reconhecidos, é preciso concluir que, qualquer que seja a fonte à qual se os atribua, são efeitos naturais, pois, Espíritos ou encarnados podem usar, como de todo, como de sua própria inteligência e de seus conhecimentos científicos, para o bem ou para o mal, conforme sua bondade ou sua perversidade. Um ser perverso, colocando a proveito seu saber, pode, pois, fazer coisas que passam por prodígios aos olhos dos ignorantes; mas quando estes efeitos têm por resultado um bem qualquer, seria ilógico atribuir-lhe uma origem diabólica.

17. – Mas, dir-se-á, a religião se apoia sobre fatos que não são nem explicados nem explicáveis. Não explicados, pode ser, inexplicáveis, é uma outra questão. Sabem-se as descobertas e os conhecimentos que nos reserva o porvir?  Sem falar em milagres da criação , o maior de todos, sem contradita, e que entrou atualmente  no domínio da lei universal, não se vê já, sob o império do magnetismo, do sonambulismo, do Espiritismo reproduzir-se os enlevos, as visões, as aparições, a visão à distância, as curas instantâneas, as suspensões, as comunicações orais e outras com seres do mundo invisível, fenômenos conhecidos de tempos imemoriais, considerados outrora como maravilhosos, e provados atualmente como pertencentes à ordem das coisas naturais, após a lei constitutiva dos seres? Os livros sacros estão plenos de fatos deste gênero classificado de sobrenaturais; mas, como se encontram, análogos e mais maravilhosos ainda  em todas as religiões pagãs da antiguidade, se a verdade de uma religião dependesse  do número e da natureza desses fatos, não se sabe mais o que carregar.

18. – Pretender que o sobrenatural seja o fundamento necessário de toda religião, que seja a chave do arco do edifício cristão, é defender uma tese perigosa; si se fizer repousarem as verdades do cristianismo sobre a base única do maravilhoso, é dar-lhe um apoio frágil de onde as pedras se separam cada dia. Esta tese, da qual eminentes teólogos se tornaram os defensores, conduz direto a esta conclusão que, em um tempo dado, na haverá mais religião possível, até mesmo a religião cristã, se o que é olhado como sobrenatural é demonstrado como natural; porque se terá inutilmente amontoado os argumentos, não se chegará a manter a crença senão de um fato miraculoso, quando está provado que não o é; ora, a prova que um fato não é uma exceção nas leis naturais, é quando ele pode ser explicado por estas mesmas leis e que, podendo se reproduzir por intermédio de um indivíduo qualquer, cessa de ser o privilégio dos santos. Não é o sobrenatural que é necessário às religiões, porém o princípio espiritual, que se confunde a torto e a direito com o maravilhoso e sem o que não há religião possível.

O Espiritismo considera a religião cristã num ponto mais elevado; dá-lhe uma base mais sólida que os milagres, estas são as leis imutáveis de Deus, que regem o princípio espiritual bem como o princípio material; esta base desafia o tempo e a ciência, porque o tempo e a ciência virão sancioná-la.

Deus não o é menos digno, de nossa admiração, de nosso reconhecimento, de nosso respeito, por não ter derrogado suas leis, grandes, sobretudo, por sua imutabilidade. Não é necessário o sobrenatural para render a Deus o culto que lhe seja devido; a natureza, não é ela assaz imponente por si própria, que seja preciso ainda ajuntar algo para provar o poder supremo? A religião encontrará igualmente menos incrédulos, quanto será, por todos os pontos, sancionada pela razão. O cristianismo nada tem que perder com esta sanção; ao contrário ela só pode ganhar com isso. Se alguma coisa tem podido lhe obstar na opinião de certas pessoas, é precisamente o abuso do maravilhoso e do sobrenatural.

19. – Si se tomar o termo milagre na sua acepção etimológica, no sentido de coisa admirável, teremos sem cessar milagres sob nossos olhos; nós os aspiramos no ar e nós os pisamos sob nossos pés, porque tudo é milagre na natureza.

Quer-se dar ao povo, aos ignorantes. Aos pobres de espírito uma ideia do poder de Deus? É necessário mostrar-lhe na sabedoria infinita que preside a tudo, no admirável organismo de tudo o que vive, na frutificação das plantas, na apropriação de todas partes de cada ser a suas necessidades, conforme o meio onde é chamado a viver; é necessário mostrar-lhe a ação de Deus no pé de planta, na flor que se desabrocha, no Sol que vivifica tudo; é preciso lhe mostrar sua bondade em sua solicitude por todas as criaturas, tão ínfimas quanto sejam, sua providência na razão de ser de cada coisa, do que nada é inútil, no bem que aparece sempre de um mal aparente e momentâneo. Faça-os compreender sobretudo que o mal real é a obra do homem e não a de Deus; não procure apavorá-los pelo quadro das chamas eternas nas quais terminam por não crer e que lhes faz duvidar da bondade de Deus; mas encoraje-os pela certeza de poderem se remir um dia e reparar o mal que tenham podido fazer; mostre-lhes as descobertas da ciência como a revelação das leis divinas e não como obra de Satã; ensina-lhes, enfim, a ler no livro da natureza sem cessar aberto ante eles; neste livro inexaurível onde a sabedoria e a bondade do Criador estão inscritas a cada página: então, eles compreenderão que um Ser tão grande, ocupando-se de tudo, velando a tudo, prevendo tudo, deva ser soberanamente poderoso. O trabalhador o verá traçando seu rego, e o infortunado o abençoará em suas aflições, porque se dirá: Se sou infeliz é por minha culpa. Então, os homens serão realmente religiosos, racionalmente religiosos, sobretudo, bem melhores que se esforçando em fazê-los crer em pedras que suam o sangue ou em estátuas que piscam olhos e vertem lágrimas.


NOTAS

(1) O termo elemento não está posto aqui no sentido de corpo simples, elementar, de moléculas primitivas, mas, no de parte constituinte de um todo. Neste sentido, pode-se dizer que o elemento espiritual tem uma parte ativa na economia do Universo, como se diz que o elemento civil e o elemento militar figuram na cifra de uma população; que o elemento religioso entra na educação; que na Argélia é preciso ter compto do elemento árabe, etc.

(2) Livro dos Médiuns, cap. V. – Revista Espírita; exemplares: dezembro 1865, pág. 370; – agosto 1865, pág. 231.

NOTAS DO TRADUTOR

(a) No latim, além do verbo miro, as… ari citado por Kardec, também encontramos o conceito de miraculum, i definido por Lívio como sendo “cousa maravilhosa e ainda o termo miracula,ǽ que, para vários autores define a mulher deforme.

(b) Na época de Kardec tudo o que transcendia à matéria era conhecido como fluido; atualmente, depois das experiências suecas, a tendência é admitir-se que o perispírito seja um campo considerado paranormal e dito psicossoma pelos russos. Também conhecido como life’s field.

Print Friendly, PDF & Email