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A Gênese é uma das cinco obras básicas da Codificação do Espiritismo. É um livro que, conhecido e estudado, proporciona uma oportunidade excepcional de imersão em grandes temas de interesse universal, abordados de forma lógica, racional e reveladora. Divide-se em três partes: na primeira parte, analisa a origem do planeta Terra, de forma coerente, fugindo às interpretações misteriosas e mágicas sobre a criação do mundo; na segunda, aborda a questão dos milagres, explicando a natureza dos fluidos e os fatos extraordinários contidos no Evangelho; na terceira enfoca as predições do Evangelho, os sinais dos tempos e a geração nova, que marcará um novo tempo no mundo com a prática da justiça, da paz e da fraternidade. Os assuntos apresentados nos dezoito capítulos desta obra têm como base a imutabilidade das grandiosas leis divinas.

Capítulo II – Deus

A PROVIDENCIA

20. – A providência é a solicitude de Deus por todas as criaturas. Deus está por toda parte, vê tudo, preside a tudo, mesmo às pequenas coisas; é nisso que consiste a ação providencial.

“Como Deus, tão grande, tão poderoso, tão superior a tudo, pode imiscuir-se nestes pormenores ínfimos, preocupar-se com os menores atos e os menores pensamentos de cada indivíduo? Tal é a questão que se assenta a incredulidade, de onde ela conclui que, em admitindo a existência de Deus, sua ação não deva se estender senão sobre as leis gerais do Universo; que o Universo funciona por toda eternidade em virtude destas leis às quais cada criatura submete-se à sua esfera de atividade, sem que seja necessário o concurso incessante da providência”.

21. – Em seu estado atual de inferioridade, os homens não podem dificilmente senão compreender Deus infinito, porque eles mesmos sendo fechados e limitados, pois, só entendem Deus assim, como eles: representam-no como um ser circunscrito e fazem uma imagem à sua imagem. Nossos quadros em que os pintam sob traços humanos não contribuem pouco para manter este erro no espírito das massas que adoram nele a forma, mais do que o pensamento. É para um grande número, um soberano poderoso sobre um trono inaccessível, perdido na imensidão dos céus, e porque suas faculdades e suas percepções são restritas, não compreendem que Deus possa ou se digne em intervir diretamente nas pequenas coisas.

22. – Na incapacidade em que está o homem de compreender a essência própria da divindade, só pode fazer dela uma ideia aproximativa por meio de comparações necessariamente muito imperfeitas, mas podem, pelo menos, mostrar-lhe a possibilidade do que, à primeira abordagem, lhe pareça impossível.

Suponhamos um fluido assaz sutil para penetrar em todos os corpos, é evidente que cada molécula deste fluido, encontrando-se com cada molécula da matéria, produzirá sobre o corpo uma ação idêntica à daquela que produzirá a totalidade do fluido. É o que a Química demonstra todos os dias em proporções limitadas.

Este fluido não sendo inteligente, age mecanicamente apenas por forças materiais; mas, se supusermos este fluido dotado de inteligência, de faculdades perceptivas e sensitivas, ele agirá não mais cegamente, porém, com discernimento, com vontade e liberdade, ele verá, entenderá e sentirá.

As propriedades do fluido perispiritual (c) podem nos dar uma ideia. Ele não é inteligente por ele próprio, porque é matéria, mas é o veículo do pensamento, das sensações e das percepções do Espírito; é, por conseguinte a sutileza deste fluido que os Espíritos penetram por tudo, que eles perscrutam nossos pensamentos, os mais íntimos, que veem e procedem à distância; é a este fluido atingido a um certo degrau de depuração que os Espíritos superiores devem o dom de ubiquidade; basta um raio de seu pensamento dirigido sobre diversos pontos, para que possam aí se manifestar sua presença simultaneamente. A extensão desta faculdade é subordinada ao grau de elevação e de depuração do Espírito. É, ainda, com ajuda deste fluido que o próprio homem age à distância pelo poder da sua vontade, sobre certos indivíduos, que modifica, dentro de certos limites, as propriedades da matéria, dá a substâncias inativas as propriedades determinadas, repara as desordens orgânicas e opera curas pela imposição das mãos.

23. – Mas os Espíritos, por mais elevados que o sejam, são criaturas limitadas em suas faculdades, seu poder, e a extensão de suas percepções e não saberia, sob este aspecto, aproximar-se de Deus. Conforme possam nos servir de ponto de comparação. O que o Espírito não pode executar senão em um limite restrito, Deus, que é infinito, executa-o em proporções infinitas. Há ainda esta diferença que a ação do Espírito está momentaneamente e subordinada às circunstâncias: a de Deus é permanente; o pensamento do Espírito abarca durante um tempo um espaço circunscrito; o Deus abarca o Universo e a eternidade. Em uma palavra, entre os Espíritos e Deus existe a distância do finito ao infinito.

24. O fluido perispiritual não é o pensamento, mas o agente e o intermediário deste pensamento; como é ele que a transmite, ele o está, de alguma forma, impregnado e, na impossibilidade em que estamos de isolar, ele parece apenas se fazer com o fluido como o som parece se fazer apenas, como um sopro, de sorte que podemos, por assim dizer, materializá-lo. Da mesma forma que dizemos que o ar se transforma no som, podemos, tomando o efeito pela causa, dizer que o fluido torna-se inteligência.

25. – Que o seja ou não, assim, o pensamento de Deus, isto é, que atua diretamente ou por intermédio de um fluido, para facilidade de nossa inteligência, representá-lo-emos sob a forma concreta de um fluido inteligente, (d) enchendo o Universo infinito, penetrando em todas as partes da Criação: a natureza inteira está imersa no fluido divino; ora, em virtude do princípio que as partes de um todo são da mesma natureza, e têm a mesma propriedade que o todo, cada átomo deste fluido, si se puder exprimir assim, possuindo o pensamento, isto é, os atributos essenciais da divindade e estando este fluido por toda parte, tudo está sujeito à sua ação inteligente, à sua previsão, à sua solicitude; nem um ser ínfimo que o seja, que não o esteja de alguma forma saturado. Estamos, assim, constantemente em presença da divindade; não há uma só de nossas ações que possamos subtrair de seu olhar; nosso pensamento está em contato incessante com seu pensamento, e é com razão que se diz que Deus encontra-se nas mais profundas entranhas de nosso coração; estamos nele como ele está em nós, conforme a palavra do Cristo.

Por estender sua solicitude sobre todas as criaturas, Deus não tem, pois, necessidade de mergulhar seu olhar do alto da imensidão; nossas preces, para serem ouvidas por Ele, não têm necessidade de transpor o espaço, nem de serem ditas com uma voz retumbante, porque sem cessar, a nosso lado, nossos pensamentos se repercutem nele. Nossos pensamentos são como os sons de um sino que faz vibrar todas as moléculas do ar ambiente.

26. – Longe de nós o pensamento de materializar a divindade; a imagem de um fluido inteligente universal é evidentemente, apenas uma comparação, mas, própria para dar uma ideia mais justa de Deus que os quadros que o representam sob uma figura humana; só tem por objeto fazer que compreenda a possibilidade de Deus estar por toda parte e de se ocupar de tudo.

27. Temos incessantemente sob os olhos um exemplo que pode nos dar uma ideia da maneira pela qual a ação de Deus pode se exercer sobre as partes as mais íntimas de todos os seres e, por consequência como as impressões, as mais sutis de nossa alma, chegam até Ele. Foi tirado de uma instrução dada por um Espírito sobre este assunto.

“Um dos atributos da divindade é a infinidade; não se pode representar o Criador como sendo uma forma, um limite, um marco qualquer. Se ele não fosse infinito, poder-se-ia conceber alguma coisa maior que ele e este seria algo que seria Deus. – Sendo infinito, Deus está em toda parte porque, se não o estivesse, não seria infinito; não se pode sair desse dilema. Pois, se há um Deus e isto não se faz de dúvida para ninguém, este Deus é infinito e não se pode conceber a extensão que ele ocupe. Ele se encontra, por consequência, em contato com toda sua Criação; Ele as envolve e elas estão nele; é, pois, compreensível que ele seja em referência direta com cada criatura, e por vos fazer compreender também materialmente que possível, de qual maneira esta comunicação tem lugar universalmente e constantemente, examinemos o que se passa com o homem entre seu Espírito e seu corpo.

“O homem é um pequeno mundo do qual o diretor é o Espírito e do qual o princípio dirigido é o corpo. Neste Universo, o corpo representará uma criação da qual o Espírito será Deus. (Compreenda que não se pode haver aqui senão uma questão de analogia e não de identidade). Os membros deste corpo, os diferentes órgãos que o compõem, seus músculos, seus nervos, suas articulações, são igualmente individualidades materiais, si se possa dizer, localizadas em um lugar especial do corpo; bem que o número destas partes constitutivas tão variáveis e tão diferentes da natureza, seja considerável, não está entretanto duvidoso para ninguém que não possa se mostrar com movimentos, que uma impressão qualquer não possa ter lugar em um lugar particular, sem que o Espírito disso tenha consciência. Haverá sensações diversas em vários lugares simultâneos?

O Espírito os experimenta a todos, os discerne, os analisa, assinala a cada um sua causa e seu lugar de ação.

“Um fenômeno análogo tem lugar entre a Criação e Deus. Deus está em todo lugar da natureza, como o Espírito o está no corpo; todos os elementos da criação estão em relação constante com Ele, como todas as células do corpo humano estão em contato imediato com o ser espiritual; não há, pois, razão para que fenômenos de mesma ordem não se produzam da mesma maneira, em um e outro caso.

“Um membro se agita: o Espírito o sente; uma criatura percebe cada manifestação, distingue-as e as localiza. As diferentes criações, as diferentes criaturas, se agitam, pensam, agem diversamente, e Deus sabe de tudo o que se passa, assinala em cada um o que lhe seja particular”.

“Pode-se deduzir igualmente a solidariedade da matéria e da inteligência, a solidariedade de todos os seres de um mundo entre eles, a de todos os mundos e, enfim, as das criações e do Criador”. (QUINEMENT. Sociedade de Paris, 1867)

28. – Compreendermos o efeito, já é bastante; do efeito remontamos à causa e julgamos sua grandeza pela grandeza do efeito; mas sua essência íntima nos escapa, como a da causa de uma multidão de fenômenos. Conhecemos o efeito da eletricidade, do calor, a luz, da gravitação; nós os calculamos, e, entretanto, ignoramos a natureza íntima do princípio que os produz. (e) Será, pois, mais racional negar o princípio divino, porque não o compreendemos?

29. – Nada impede de admitir pelo princípio da soberana inteligência, um centro de ação, um foco principal irradiando sem cessar, inundando o Universo de seus eflúvios como o Sol da sua iluminação. Mas onde se encontra este foco? É o que ninguém pode dizer. É provável que não esteja fixado sobre um ponto determinado que não o seja sua ação e que ele percorra incessantemente as regiões do espaço sem contornos. Se, simples Espíritos têm o dom da ubiquidade, esta faculdade, em Deus deve ser sem limite. Deus, enchendo o Universo, poderia ainda admitir a título de hipótese, que este foco não teria necessidade de se transportar, e que se forma sobre todos os pontos onde a soberana vontade julga a propósito de se produzir, de onde se poderia dizer que ele está em todo lugar e em nenhuma parte.

30. – Ante estes problemas insondáveis, nossa razão deve se humilhar. Deus existe: nós não saberíamos duvidar; é infinitamente justo e bom: é sua essência; sua solicitude se estende a todos: não o compreendemos; não pode, pois, querer senão o nosso bem, é por isso que devemos ter confiança n’Ele. Eis o essencial; pelo excesso, esperamos que sejamos dignos de compreendê-lo.


NOTAS DO TRADUTOR

(c) Naquela época definia-se tudo que não fosse sólido, como sendo fluindo, incluindo as energias, como a eletricidade e que mais, daí, o conceito de “fluido perispiritual” atualmente dito “energia parapsíquica”.

(d) Os estudos atuais levam os pesquisadores a concluir que existem 73% de vazio no Universo e 27% de energia. Este vazio pode ser aquilo que Kardec definiu como fluido inteligente porque, de fato, pelos observatórios astronômicos, daí surge a atuação de agentes estranhos ao Universo dando-lhe formas, como no caso estudado da formação planetária em torna da estrela Alfa Centaurus. Esta ideia do vazio leva à figura de um tanque cheio de espuma de sabão. É como se estes espaços fossem preenchidos pela Espiritualidade.

(e) De fato, só após os estudos de Planck (1901) sobre as emissões quânticas, é que se pôde ter uma ideia mais precisa do que eram estes fenômenos. E a última revisão da Gênese feita por Kardec data de 1868, quando saiu sua 3ª edição, a oficialmente adotada pelos verdadeiros espíritas.