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A Gênese é uma das cinco obras básicas da Codificação do Espiritismo. É um livro que, conhecido e estudado, proporciona uma oportunidade excepcional de imersão em grandes temas de interesse universal, abordados de forma lógica, racional e reveladora. Divide-se em três partes: na primeira parte, analisa a origem do planeta Terra, de forma coerente, fugindo às interpretações misteriosas e mágicas sobre a criação do mundo; na segunda, aborda a questão dos milagres, explicando a natureza dos fluidos e os fatos extraordinários contidos no Evangelho; na terceira enfoca as predições do Evangelho, os sinais dos tempos e a geração nova, que marcará um novo tempo no mundo com a prática da justiça, da paz e da fraternidade. Os assuntos apresentados nos dezoito capítulos desta obra têm como base a imutabilidade das grandiosas leis divinas.

Capítulo II – Deus

DA NATUREZA DIVINA

8. – Não é dado ao homem sondar a natureza íntima de Deus. (a) Temerário seria aquele que pretendesse levantar o véu que o oculta da nossa vista; falta-nos ainda o senso que só se adquire pela completa depuração do Espírito. Mas se não se pode penetrar em sua essência, sua existência sendo dada como premissa, pode, pela razão, chegar ao conhecimento de seus atributos necessários; porque, vendo o que não pode ser sem parar de ser Deus, conclui-se o que deva sê-lo.

Sem o conhecimento dos atributos de Deus, será impossível compreender a obra da Criação. É o ponto de partida de todas as crenças religiosas e é falta de se estar referido como ao farol que lhes pudesse dirigir que a maior parte das religiões tem errado em seus dogmas. As que não são atribuídas a Deus o todo poder, imaginam vários deuses; as que não lhe atribuem a soberana bondade, fazem de Deus um colérico, ciumento, parcial e vingativo.

9. – Deus é a suprema e soberana inteligência. A inteligência do homem é limitada, já que não pode fazer nem compreender tudo o que existe; a de Deus, abarcando o infinito, deve ser infinita. Se a supuséssemos limitada em um ponto qualquer, poderíamos conceber um Ente ainda mais inteligente, capaz de compreender o que o outro não faria, e assim, de sequência ao infinito.

10. – Deus é eterno, é como dizer que não tem nem começo nem fim. Se tivesse tido um começo, é que teria saído na nada; ora o nada não é nada e nada pode produzir; ou bem Ele teria sido criado por um outro ser anterior e, então, é este Ente que será Deus. Si se supuser um começo ou um fim, poder-se-á, então, conceber um Ente tendo existência anterior a Ele, ou podendo existir após ele e, assim, em sequência, até o infinito.

11. – Deus é imutável. Se fosse sujeito a trocas, as leis que regem o Universo não teriam nenhuma estabilidade.

12. – Deus é imaterial; é como dizer que sua natureza difere de tudo aquilo que chamamos de matéria; todavia, Ele não seria imutável, porque estaria sujeito às transformações da matéria.

Deus não tem forma apreciável a nossos sentidos; sem o que seria matéria. Dizemos: a mão de Deus, o olho de Deus. A boca de Deus, porque o homem só conhecendo ele, prende-se por termos de comparação a tudo o que não compreenda. Estas imagens nas quais se representa Deus sob a figura de um ancião de longas barbas, coberto por um manto, são ridículas; elas têm o inconveniente de rebaixar o ser supremo às mesquinhas proporções da humanidade; disso, atribuir-lhe as paixões dos humanos, fazendo um Deus colérico e ciumento não há mais que um passo.

13. – Deus é todo poderoso. Se não tivesse o supremo poder, poder-se-ia conceber um ente mais poderoso, e, em decorrência, até que se encontrasse um Ente que nenhum outro pudesse ultrapassar em poder e este, então, é que seria Deus. Ele não teria feito todas as coisas e aquilo eu não tivesse feito, seria obra de outro deus.

14. – Deus é soberanamente justo e bom. A sabedoria providencial das leis divinas se revela nas menores coisas, bem como nas maiores e esta sabedoria não permite que se duvide nem de sua justiça nem de sua bondade. Estas duas qualidades implicam todas as outras; se as supusermos limitadas, nem que seja em um só ponto, poder-se-á conceber um ente que os possuiria a um mais alto grau e que lhe seria superior.

O infinito de uma qualidade exclui a possibilidade da existência de uma qualidade contrária que a reduzisse ou a anulasse. Um ser infinitamente bom não poderia ter a mínima parcela de maldade, nem o ser infinitamente mau ter a menor parcela de bondade; igualmente que um objeto não poderia ser de um negro absoluto com o mais ligeiro matiz branco, nem um branco absoluto com a menor tacha de negro.

Deus não saberia, pois ser ao mesmo tempo bom e malvado, porque então, não possuindo nem uma nem outra destas qualidades ao supremo grau, não seria Deus; todas as coisas estariam submetidas ao capricho e não haveria estabilidade para nada. Ele só poderia ser infinitamente bom ou infinitamente mau; e se fosse infinitamente mau não faria nada de bom; ora como suas obras testemunham sua sabedoria, sua bondade e sua solicitude, torna-se necessário concluir que, não podendo ser ao mesmo tempo bom e mau sem deixar de ser Deus, ele deve ser infinitamente bom.

A soberana bondade implica em soberana justiça; porque, se atuasse injustamente ou com parcialidade em uma só circunstância, ou à consideração de uma só de suas criaturas, ele não seria soberanamente justo e, por consequência, não seria soberanamente bom. (b)

15. – Deus é infinitamente perfeito. É impossível conceber Deus sem o infinito das perfeições, sem o que não seria Deus, pois poder-se-ia conceber sempre um ser possuindo o que lhe faltasse. Para que nenhum ser possa ultrapassá-lo. É preciso que ele seja infinito em tudo.

Os atributos de Deus, sendo infinitos, não são susceptíveis nem de argumentação nem de diminuição, sem o que não seriam infinitos, e Deus não seria perfeito. Si se tirasse a menor parcela de um só de seus atributos, não seria mais Deus, já que poderia existir um Ente mais perfeito.

16. – Deus é único. A unidade de Deus é a consequência do infinito absoluto das perfeições. Um outro Deus não poderia existir sem a condição de ser igualmente infinito em todas as coisas; porque, se houvesse entre eles a mais ligeira diferença, um seria inferior ao outro, subordinado ao seu poder e não seria Deus. Se houvesse entre eles igualdade absoluta, seria para toda eternidade um mesmo pensamento, uma mesma vontade, um mesmo poder; assim, confundido em suas identidades, não seria, em realidade, senão, apenas um Deus. Se eles tivessem cada qual atribuições especiais, um faria o que o outro não fizesse e, então, não haveria entre eles igualdade perfeita, já que nem um nem outro teria a soberana autoridade.

17. – É a ignorância do princípio de infinito das perfeições de Deus que engendrou o politeísmo, culto de todos os povos primitivos; eles atribuem a divindade a toda autoridade que parecesse acima da humanidade; posteriormente, a razão lhes levou a confundir estas diversas autoridades em uma só. Depois, à medida que os homens compreenderam a essência dos atributos divinos, suprimiram de seus símbolos as crenças que o tornavam em negação.

18. – Em resumo, Deus só pode ser Deus nas condições de não ser ultrapassado em nada por um outro ser; porque, então, o ser que o ultrapassasse em o que quer que seja, mesmo que fosse da espessura de um cabelo, seria o verdadeiro Deus. Por isto, é preciso que seja infinito em todas as coisas.

É assim que, a existência de Deus, estando constatada pelas realizações de suas obras, chega-se, pela simples dedução lógica, a determinar os atributos que o caracterizam.

19. – Deus é, pois a suprema e soberana inteligência; é único, eterno, imutável, imaterial, todo poderoso, soberanamente justo e bom, infinito em todas as suas perfeições, e não poderia ser outra coisa.

Tal é o suporte sobre o qual repousa o edifício universal; é o farol de onde os raios de luz se estendem sobre o universo inteiro e que só pode guiar o homem na busca da verdade; em o seguindo, não se extraviará jamais e se frequentemente se perde, é falta de ter seguido a rota que lhe fora indicada.

Tal é também o critério infalível de todas as doutrinas filosóficas e religiosas; o homem tem, para julgá-las, uma medida rigorosamente exata nos atributos de Deus e pode-se dizer com certeza que toda teoria, todo princípio, todo dogma, toda crença, toda prática que esteja em contradição com um só de seus atributos, que tenda não apenas a anulá-la, mas, simplesmente, a debilitá-la, não pode estar com a verdade.

Em filosofia, em psicologia, em moral, em religião, não existe verdade que se descarte de um nada das qualidades essenciais da divindade. A religião perfeita será aquela que nenhum artigo de fé estará em oposição com estas qualidades, onde todos os dogmas poderiam suportar a prova deste controle, sem que receba nenhum ataque.


NOTAS DO TRADUTOR

(a) Crenças asiáticas, a partir de Confúcio, afirmam que o conhecimento humano não alcança nem compreende Deus porque este é infinito e aquela é limitada ou finita.

(b) Uma outra conotação da filosofia asiática é que existe uma corrente que admite que Deus tenha criado o Universo para combater o mal.