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A Gênese é uma das cinco obras básicas da Codificação do Espiritismo. É um livro que, conhecido e estudado, proporciona uma oportunidade excepcional de imersão em grandes temas de interesse universal, abordados de forma lógica, racional e reveladora. Divide-se em três partes: na primeira parte, analisa a origem do planeta Terra, de forma coerente, fugindo às interpretações misteriosas e mágicas sobre a criação do mundo; na segunda, aborda a questão dos milagres, explicando a natureza dos fluidos e os fatos extraordinários contidos no Evangelho; na terceira enfoca as predições do Evangelho, os sinais dos tempos e a geração nova, que marcará um novo tempo no mundo com a prática da justiça, da paz e da fraternidade. Os assuntos apresentados nos dezoito capítulos desta obra têm como base a imutabilidade das grandiosas leis divinas.

Capítulo IV – Papel da Ciência na Gênese

CAPÍTULO IV – PAPEL DA CIÊNCIA NA GÊNESE

 

1. – A História de quase todos os povos antigos se confunde com a de sua religião; é por isso que seus primeiros livros foram obras religiosas; e como todas as religiões se ligam ao princípio das coisas, que é também a da humanidade, elas deram sobre a formação e a disposição do Universo, explicações em referência ao estado dos conhecimentos dos tempos e de seus fundadores. Resulta daí que os primeiros livros sacros foram, ao mesmo tempo, os primeiros livros de ciência, como foram por muito tempo o único código das leis civis.

2. – A religião era, então, um freio poderoso para governar; seus povos se curvavam voluntários sob os poderes invisíveis em nomes dos quais se os subjugava, e do que os governantes diziam ter seu poder, se eles não se davam por iguais destas mesmas  autoridades.

 Para dar maior força à religião, era preciso apresentá-la como absoluta, infalível e imutável sem o que ela perderia sua ascendência sobre seres quase embrutecidos e necessitados à pena da razão. Só era preciso que ela pudesse ser discutida não menos que as ordens do soberano; daí o princípio da fé cega e da obediência passiva que tinham assim, na origem, sua razão de ser e sua utilidade. A veneração que se tinha pelos livros sacros, quase sempre sensatamente baixados do céu, ou inspirados pela divindade, interdito, aliás, de qualquer exame. (a)

3. – Nos tempos primitivos, os meios de observação eram muito imperfeitos, as primeiras teorias sobre o sistema do mundo deviam ser maculadas de erros grosseiros; mas estes meios sendo eles também completos como o são atualmente, os homens não teriam sabido se servir deles; só poderiam, além disso, ser fruto de um desenvolvimento da inteligência e do conhecimento sucessivo das leis da natureza. À medida que o homem avançou no conhecimento destas leis, penetrou nos mistérios da Criação e retificou as ideias que faziam sobre a origem das coisas.

 

 4. – Da mesma forma que, para compreender e definir o movimento correlato dos ponteiros de um relógio, é preciso conhecer as leis que presidem seu mecanismo, apreciar a natureza dos materiais e calcular a eficácia das forças atuantes, para compreender o mecanismo do Universo, é preciso conhecer as leis que regem todas as forças postas em ação neste vasto conjunto.

 O homem tem sido impotente para resolver o problema da criação até o momento em que a chave lhe foi dada pela Ciência. Foi preciso que a Astronomia lhe abrisse as portas do espaço infinito em lhe permitindo de aí mergulhar seus olhares; e pelo poder do cálculo pôde determinar com uma precisão rigorosa  o movimento, a posição, o volume, a natureza, e o papel dos corpos celestes; que a Física lhe revelou as leis da gravitação, do calor, da luz e da eletricidade, o poderio destes agentes sobre a natureza inteira e a causa dos inumeráveis fenômenos que daí decorrem; que a Química lhe ensinou as transformações da matéria que formam a crosta do globo; que a Geologia lhe aprontou para ler nas camadas terrestres a formação gradual deste mesmo globo. A Botânica, a Zoologia, a Paleontologia, a Antropologia deveriam admitir à filiação e à sucessão  dos seres organizados; coma Arqueologia pode seguir os traços da humanidade através das idades; todas as ciências, em uma palavra, completando-se, umas pelas outras, deviam levar seu contingente indispensável para o conhecimento da história do mundo; na sua ausência, o homem só teria por guia suas primeiras hipóteses.

 Também, antes que o homem estivesse na posse destes elementos de apreciação, todos os comentaristas da Gênese, da qual a razão se chocava com as possibilidades materiais, giravam num mesmo círculo sem poder dele sair; só o puderam fazer depois que a Ciência abriu a via, fazendo brecha na velha edificação das crenças, e então, tudo mudou de aspecto; uma vez encontrado o fio condutor, as dificuldades foram prontamente aplainadas; em lugar de uma Gênese imaginária, teve-se uma gênese positiva e, de alguma forma, experimental; o campo do Universo estendeu-se ao infinito; viu-se a Terra e os astros se formarem gradualmente conforme as leis eternas e imutáveis que testemunham bem melhor a grandeza e a sabedoria de Deus em lugar de uma criação miraculosa saída de um só golpe do nada, como uma mudança à vista, por uma ideia súbita da divindade após uma eternidade de inação.

 Desde que seja impossível conceber a Gênese sem os dados fornecidos pela ciência, pode-se dizer a bem da verdade que: é a ciência que vem a ser chamada para constituir a verdadeira Gênese a partir das leis da natureza.

5. – No ponto em que ela chegou no décimo nono século, tem a ciência resolvido todas as dificuldades do problema da Gênese?

 Não, seguramente; mas é incontestável que ela destruiu sem volta todos os erros capitais, e que colocou os fundamentos os mais essenciais sobre dados irrecusáveis; os pontos ainda incertos só são, propriamente falando, questões de pormenor, da qual a solução, qualquer que o seja no futuro, não pode prejudicar o conjunto. Daí, malgrado todos os recursos dos quais possa dispor, faltou-lhe até nossos dias um elemento importante sem o qual a obra jamais seria completa.

6. – De todas as Gêneses antigas, a que mais se aproxima dos dados científicos modernos malgrado os erros que encerre e que estão atualmente demonstrados até a evidência, é incontestavelmente a de Moisés. Alguns desses erros são até mais aparentes do que reais, e provêm quer da falsa interpretação de certas palavras cuja significação primitiva se perdeu no passante de língua em língua pela tradução, ou cuja acepção trocou com os costumes dos povos, quer da forma alegórica particular ao estilo oriental, e de onde se tomou o sentido literal em lugar de se procurar o espírito.

7. – A Bíblia contém evidentemente fatos que razão desenvolvida pela ciência não poderia aceitar atualmente, e, por outro lado, que se mostram estranhos e repugnantes, porque se prendem a costumes que não mais são os nossos. Mas, ao lado disso, haveria parcialidade em não se reconhecer que ela encerra grandes e belas coisas. A alegoria aí tem um lugar considerável, e sob este véu oculta-se verdades sublimes que surgirão si se procurar o fundo do pensamento, porque então o absurdo desaparecerá.

Por que, pois, não se levantou este véu há mais tempo? É, de uma parte, a falta das luzes que somente a Ciência e uma sã filosofia poderiam dar, e por outra, o princípio da imutabilidade absoluta da fé, consequência de um respeito demasiado cego pela letra, segundo o que a razão deveria se inclinar e, por conseguinte, o temor de comprometer a base de crenças fundadas sobre o sentido literal. Estas crenças, partindo de um ponto primitivo, acreditavam que se o primeiro elo da corrente viesse a se romper, todas as malhas da tela findariam por se separar; é por isso que se fechou os olhos, quando mesmo; mas fechar os olhos sobre o perigo não é evitá-lo. Quando uma base cede não será mais prudente substituir a pedra defeituosa por uma boa, em vez de esperar, por respeito à velhice do edifício, que o mal se torne sem remédio e que seja necessário reconstruir de cabo a rabo?

8. – A Ciência, conduzindo suas investigações até as entranhas da Terra e as profundezas dos Céus, tem, pois, demonstrado de uma maneira irrecusável os erros da Gênese mosaica tomada ao pé da letra, e a impossibilidade material que as coisas se tenham passado assim tal como estão textualmente descritas; ela desferiu, por isso mesmo, um golpe profundo nas crenças seculares. A fé ortodoxa emocionou-se, porque acreditou ver sua pedra de assento arrancada; mas, quem deveria ater razão: a ciência marchando prudente e progressivamente sobre o terreno sólido das cifras e da observação, sem nada afirmar sem antes ter a prova em mão, ou de uma relação escrita numa época em que os meios de observação claudicavam imperiosamente? Quem deve se levar em conta, o que diz que 2 e 2 são 5 e se recusa verificar , ou o que diz que 2 e 2 são 4 e o prova?

9. – Mas então, diz-se, se a Bíblia é uma revelação divina, Deus teria se enganado? Se não é uma revelação divina, não terá autoridade e a religião se desmorona por falta de base.

 Das duas uma: ou a Ciência não tem razão ou a tem; se o tem, só poderá fazer uma opinião nada contrária sobre a verdade; não existe revelação que possa prevalecer sobre a autoridade dos fatos.

 Incontestavelmente Deus, que é toda verdade, não pode induzir os homens ao erro, nem consciente nem inconscientemente, sem o que não seria Deus. Se, pois, os fatos contradizem as palavras que lhe são atribuídas, é preciso concluir logicamente que Ele não as pronunciou ou então que elas estejam cheias de contrassenso.

 Se a religião sofre em qualquer parte destas contradições, o dano não o é da Ciência que só pode fazer o que o seja, mas dos homens de terem fundado prematuramente dogmas absolutos, dos quais fizeram uma questão de vida e de morte, sobre hipóteses susceptíveis de serem desmentidas pelo experimento.

 É coisas ao sacrifício das quais é preciso se resignar bom grado ou malgrado, quando não puder se fazer diferente. Quando o mundo marcha, a vontade de quaisquer uns não podendo detê-lo, o mais sábio é de segui-lo, e de se acomodar com o novo estado de coisas, do que de se  aferrar ao passado que se degringola, com risco de cair junto.

10. – Seria preciso, pelo respeito a textos olhados como sagrados, impor silêncio à Ciência?

 Isto é coisa também impossível como o de impedir a Terra de girar. As religiões, sejam elas quais forem, jamais ganharam nada por sustentar erros manifestos. A missão da ciência é de descobrir as leis da natureza; ou, como são estas leis obra de Deus, elas não podem ser contrárias às religiões fundadas sobre a verdade. Ela cumpre a missão mesmo pela força das coisas, e por uma consequência natural do desenvolvimento da inteligência humana que também é uma obra divina, e só avança com a permissão de Deus em virtude das leis progressivas que estabeleceu. Lançar anátemas ao progresso como atentatórios à religião, é, pois, ir contra a vontade de Deus; é penosamente inútil porque todos os anátemas do mundo não impedirão a Ciência de marchar e a verdade de se fazer presente. Se a religião recusa marchar com a ciência, a ciência marcha toda só.

11. – As religiões estacionárias podem somente temer as descobertas da ciência; estas descobertas só serão funestas às que se deixarem distanciar pelas ideias progressivas imobilizando-se no absolutismo de suas crenças; elas fazem em geral uma ideia tão mesquinha da divindade, que não compreendem que assimilá-la às leis da natureza revelada pela ciência , é glorificar Deus por nas suas obras; mas, em sua cegueira, elas preferem prestar homenagem ao Espírito do mal. Uma religião que não esteja, de alguma forma em contradição com as leis da natureza, não teria nada que temer do progresso e seria invulnerável.

12. – A Gênese compreende duas partes: a história da formação do mundo material e a da humanidade considerada em seu duplo princípio corporal e espiritual. A ciência está limitada à pesquisa das leis que regem a matéria; no homem, mesmo, ela estuda apenas o envoltório carnal. Sob esta referência, ela chegou a dar conta, com uma precisão inconteste, das principais partes do mecanismo do universo e do organismo humano. Sobre este ponto capital, pôde, então, completar a Gênese de Moisés e retificar as partes defeituosas.

 Mas, a história do homem, considerado como ser espiritual, prende-se a uma ordem especial de ideias que não é do domínio da Ciência propriamente dita, e eis aí, por este motivo, não o fez objeto de suas investigações. A filosofia, que tem mais particularmente este gênero de estudo em suas atribuições, só formulou sobre este ponto sistemas contraditórios desde a espiritualidade pura até a negativa do princípio espiritual e mesmo de Deus, sem outras bases além das ideias pessoais de seus autores; ela deixou, pois, a questão indecisa, por falta de um controle suficiente.

13. – Esta questão, entretanto, é para o homem a mais importante, porque é o problema de seu passado e de seu futuro; a do mundo material só lhe toca indiretamente. O que lhe importa saber antes de tudo, é de onde veio, para onde vai, se já viveu e se viverá ainda, e que sorte lhe esteja reservada.

 Sobre todas estas questões a Ciência é muda. A Filosofia só dá opiniões que se concluem no senso diametralmente opostas, mas, ao menos, ela permite discutir, o que faz com que muitas pessoas se enfileirem a seu lado de preferência em lugar da Religião que não discute nada.

14. – Todas as religiões estão de acordo com o princípio da existência da alma, sem, todavia o demonstrar; mas elas não acordam nem sobre sua origem nem sobre seu passado, nem sobre seu porvir, o que é essencial, sobre as condições das quais depende seu dano futuro. Elas fazem, na maior parte, de seu porvir um quadro imposto à crença de seus adeptos que só pode ser aceito pela fé cega, mas não pode suportar um exame sério. O destino que fazem da alma estando ligado a seus dogmas, às ideias que se fazia do mundo material e do mecanismo do Universo nos tempos primitivos, é inconciliável com o estado de conhecimentos atuais. Só podendo, pois, perder com o exame e a discussão, ela acham mais simples proscrever um e outro.

15. – Dessas divergências tocantes ao porvir do homem nasceram a dúvida e a incredulidade. E não podia ser de outro modo; cada religião, pretendendo somente possuir toda a verdade, uma se dizendo de determinada facção e a outra de outra, sem dar suas asserções de provas suficientes para reunir a maioria, na indecisão, o homem curva-se sobre o presente. Entretanto, a incredulidade deixa um vazio penoso; o homem encara com ansiedade o desconhecido onde ele deva cedo ou tarde entrar fatalmente; a ideia de um nada o gela; sua consciência o diz que para lá do presente existe para ele alguma coisa: mas o quê? Sua razão desdobrada não lhe permite mais aceitar as histórias com as quais embalou sua infância, de tomar a alegoria pela realidade. Qual é o senso dessa alegoria? A Ciência descerrou um canto do véu, mas não revelou o que mais lhe importava saber. Ele interroga em vão, nada lhe responde de uma maneira peremptória e apropriada para acalmar suas apreensões; por toda parte ele encontra afirmação se chocando com a negação, sem provas mais positivas de uma parte do que de outra; além, a incerteza e a incerteza sobre as coisas da vida futura faz com que o homem se lance com uma sorte de loucura sobre as da vida material.

 Tal é o inevitável efeito da época de transição; o edifício do passado se rui e o do porvir não está ainda construído. O homem é como o adolescente que não tem mais a crença ingênua de seus primeiros anos e não tem ainda o conhecimento da idade madura; só tem vagas aspirações que não sabe definir.

16. – Se a questão do homem espiritual permaneceu até nossos dias no estado teórico, é que lhe faltou meios de observação direta que se teve para constatar o estado do mundo material e o campo permaneceu aberto às concepções do espírito humano. Tanto que o homem não conheceu as leis que regem a matéria e que não pôde aplicar o método experimental, errou de sistema em sistema no tocante ao mecanismo do Universo e a formação da Terra. Tem sido na ordem moral como na ordem física; para fixar as ideias faltou o elemento essencial: o conhecimento das leis do princípio espiritual. Este conhecimento estava reservado à nossa época, como o das leis da matéria foi obra dos dois últimos séculos.

17. – Até o presente, o estudo do princípio espiritual, contido na Metafísica, tinha sido puramente especulativo e teórico; no Espiritismo é todo experimental. Com a ajuda da faculdade medianímica, mais desenvolvidos a nossos dias e sobretudo generalizada e melhor estudada, o homem se encontrou na posse de um novo instrumento de observação. A mediunidade tem sido para o mundo espiritual o que o telescópio tem sido para o mundo sideral e o microscópio para o mundo do infinitamente pequeno; ela permitiu explorar, estudar, por assim dizer, de visão, suas relações com o mundo corporal; isolar no homem vivente, o ser inteligente e o ser material, e de vê-los agir separadamente. Uma vez em relação com os habitantes deste mundo, pôde-se seguir a alma na sua marcha ascendente, em suas migrações, em suas transformações, pôde-se enfim estudar o elemento espiritual. Eis o que faltava aos precedentes comentaristas da Gênese para compreendê-la e retificar seus erros.

18. – O mundo espiritual e o mundo material, estando em contato incessante, são solidários um com o outro; todos os dois têm sua parte de ação na Gênese. Sem o conhecimento das leis que regem o primeiro, será também impossível constituir uma Gênese completa, tanto quanto o é a um escultor dar vida a uma estátua. Atualmente, apenas, se bem que nem a ciência material nem a ciência espiritual tenham dado sua última palavra, o homem possui os dois elementos próprios para lançar a luz sobre este imenso problema. Era preciso, com toda necessidade, estas duas chaves para encontrar uma solução, mesmo, aproximativa. Quanto à solução definitiva, não será, talvez, dada ao homem de a encontrar na Terra, porque são coisas secretas de Deus.

 


NOTA DO TRADUTOR

(a) Aqui Kardec critica a infalibilidade dos livros tidos como sagrados, motivo pelo qual, possivelmente, este parágrafo tenha sido suprimido na sua tradução.