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A Gênese é uma das cinco obras básicas da Codificação do Espiritismo. É um livro que, conhecido e estudado, proporciona uma oportunidade excepcional de imersão em grandes temas de interesse universal, abordados de forma lógica, racional e reveladora. Divide-se em três partes: na primeira parte, analisa a origem do planeta Terra, de forma coerente, fugindo às interpretações misteriosas e mágicas sobre a criação do mundo; na segunda, aborda a questão dos milagres, explicando a natureza dos fluidos e os fatos extraordinários contidos no Evangelho; na terceira enfoca as predições do Evangelho, os sinais dos tempos e a geração nova, que marcará um novo tempo no mundo com a prática da justiça, da paz e da fraternidade. Os assuntos apresentados nos dezoito capítulos desta obra têm como base a imutabilidade das grandiosas leis divinas.

Capítulo III – O Bem e o Mal

CAPÍTULO III – O BEM E O MAL

O INSTINTO E A INTELIGENCIA 

O INSTINTO E A INTELIGÊNCIA

11. – Qual a diferença entre o instinto e a inteligência? Onde termina um e começa outra? O instinto é ele uma inteligência rudimentar, ou então uma faculdade distinta, um atributo exclusivo da matéria?

O instinto é a força oculta que leva os seres orgânicos a atos espontâneos e involuntários, visando à sua conservação. Nos atos instintivos, não existe nem reflexão, nem combinação, nem premeditação. É assim que a planta procura o ar, volta-se para a luz, encaminha suas raízes para a água e a terra nutritiva; que a flor se abre e se fecha alternativamente conforme a necessidade; que as plantas trepadeiras se enroscam em volta do apoio, ou se penduram com suas gavinhas. É pelo instinto que os animais são advertidos do que lhes seja útil ou nocivo; que eles se dirigem, conforme as estações, para os climas propícios; que eles constroem, sem lições preliminares, com maior ou menor arte, de acordo com a espécie, seus ninhos macios e abrigos para sua prole, engenhos para pegar em armadilhas a presa com a qual se nutrem; que manejam com destreza as armas ofensivas e defensivas de que são dotados; que os sexos se reaproximam; que a mãe esconde seus filhotes e que estes procurem o seio materno. Entre os homens, o instinto o domina exclusivamente no começo da vida; é por instinto que a criança faz seus primeiros movimentos, que se agarram à nutrição, que gritam para exprimir seus desejos, que imita o som da voz, que se ensaia à fala e a caminhar. Entre os adultos, mesmo, certos atos são instintivos; tais são os movimentos espontâneos para se aparar de um risco, para se livrar de um perigo, para se manter em equilíbrio; tais são ainda, a piscadela das pálpebras para moderar a claridade da luz, a abertura instintiva da boca para respirar, etc.

12. – A inteligência se revela por atos voluntários, refletidos, premeditados, combinados conforme a oportunidade das circunstâncias. É incontestavelmente um atributo exclusivo da alma.

Todo ato maquinal é instintivo; o que denota a reflexão e a combinação é a inteligência; um é livre a outra não o é.

O instinto é um guia seguro que não se engana nunca; a inteligência, por sua vez, por ser livre, está sujeita a erros.

Se o ato instintivo não tem o caráter do ato inteligente, ele revela, entretanto uma causa inteligente essencialmente previdente. Admitindo-se que o instinto tem sua fonte na matéria, torna-se preciso admitir que a matéria seja inteligente, mais seguramente inteligente até e previdente que a alma, já que o instinto não se engana, ao passo que a inteligência se engana.

Si se considera o instinto como uma inteligência rudimentar, como se quer que seja, em certos casos, superior à inteligência racional? Que lhe dá a possibilidade de executar coisas que ele próprio não pode produzir?

Se ele é um atributo de um princípio espiritual especial, o que causa este princípio? Depois que o instinto se apaga, este princípio seria, pois destruído? Se os animais só são dotados de instinto, seu porvir fica sem resultante; seus sofrimentos não têm nenhuma compensação; Não seria conforme nem à justiça nem à bondade de Deus.

13. – Conforme um outro sistema, o instinto e a inteligência teriam um só e mesmo princípio; chegado a um certo grau de desenvolvimento, este princípio que, à primeira vista, teria apenas as qualidades do instinto, experimentaria uma transformação que lhe daria as da inteligência livre; receberia, numa palavra, o que se convencionou chamar de faísca divina. Esta transformação não seria súbita, mas gradual, de tal sorte que, durante um certo período, estaria misturado das duas aptidões, a primeira diminuindo à medida que a segunda aumentasse.

14. – Enfim, uma outra hipótese, que, de resto, se alia perfeitamente à ideia de unidade de princípio, ressalta o caráter essencialmente preventivo do instinto e concorda com o que o Espiritismo nos ensina, atingindo os relatórios do mundo espiritual e do mundo corporal.

Sabe-se, atualmente que os espíritos desencarnados têm por missão velar pelos encarnados, pois, eles são os protetores e os guias; que os cumulam com seus eflúvios fluídicos; que o homem atua frequentemente de uma maneira inconsciente sob ação desses eflúvios.

Sabe-se, ainda que, o instinto, que ele próprio produz dos atos inconscientes, predomina entre as crianças e, em geral, entre os seres em que a razão é frágil. Ora, de acordo com esta hipótese, o instinto não seria um atributo nem da alma nem da matéria; ele não pertenceria absolutamente ao ser vivo, mas, seria um efeito da ação direta dos protetores invisíveis que supririam a imperfeição da inteligência, provocando, eles próprios, os atos inconscientes necessários à conservação do ser. Seria como o limite à ajuda daqueles em sustentação à criança que ainda não sabe caminhar. Mas assim mesmo, suprime-se gradualmente o uso do apoio à medida que a criança se mantenha só, os espíritos protetores deixam-no por si de lhes proteger à medida que possam se guiar pela própria inteligência.

Assim, o instinto, longe de ser o produto de uma inteligência rudimentar e incompleta, seria a atuação de uma inteligência estranha na plenitude de sua força, suprindo a insuficiência, seja de uma inteligência mais jovem que ela compeliria a fazer inconscientemente para seu bem o que fosse ainda incapaz de fazer por si própria, seja de uma inteligência madura, mas momentaneamente tolhida no uso de suas faculdades, assim como tem lugar no homem durante sua infância e nos casos de idiotice e de afecções mentais.

Diz-se proverbialmente que há um Deus para as crianças, os loucos e os ébrios; tal dito é mais que verdadeiro do que se creia; este Deus não é senão o Espírito protetor que vela pelo ser incapaz de se proteger por sua própria razão.

15. – Nesta ordem de ideias, podemos ir mais longe. Esta teoria, por mais racional que seja, não resolve todas as dificuldades da questão. Para reencontrar as causas, é preciso estudar os efeitos e pela natureza dos efeitos pode-se concluir a natureza da causa.

Observando-se os efeitos do instinto, distingue-se, a princípio, uma unidade de vista e de conjunto, uma segurança de resultados que não existe mais desde que o instinto é trocado pela inteligência livre; ademais, à apropriação tão perfeita e tão constante das faculdades instintivas às necessidades de cada espécie, reconhece-se uma profunda sabedoria. Esta unidade de visão não poderia existir sem a unidade de pensamento e, por com consequência com a multiplicidade das causas atuantes. Ora, para sequência do progresso que cumprissem incessantemente as inteligências individuais, há entre elas uma diversidade de aptidões e de vontades incompatível com esse conjunto tão perfeitamente harmonioso que se produziu após a origem dos tempos e em todos os climas, com uma regularidade e uma precisão matemáticas, sem jamais causar defeito. Esta uniformidade no resultado das faculdades instintivas é um fato característico que acarreta forçosamente a unidade da causa; se esta causa fosse inerente a cada individualidade, haveria tanto variedade de instinto quanto de indivíduos, desde os vegetais até o homem. Um efeito geral, uniforme e constante, deve ter uma causa geral uniforme e constante; um efeito que acuse a sabedoria e a previdência deve ter uma causa sábia e previdente. Ora, uma causa sábia e previdente, sendo necessariamente inteligente, jamais poderá ser material.

Não encontrando nas criaturas encarnadas ou desencarnadas, as qualidades necessárias para produzir um tal resultado, torna-se preciso remontar mais alto, a saber, ao próprio Criador. Si se reportar à explicação que foi dada sobre a maneira pela qual se pode conceber a ação providencial (cap. II, n° 25); si se figurar todos os seres penetrados do fluido divino, soberanamente inteligente, compreender-se-á a sabedoria previdente e a unidade de visão que presidem a todos os movimentos instintivos para o bem de cada um. Esta solicitude é igualmente mais ativa quando o indivíduo tem menos recursos próprios em sua inteligência; é por isso que ela se mostra maior e mais absoluta entre os animais e os entes inferiores que nos homens.

Desta teoria compreende-se que o instinto seja um guia sempre seguro. O instinto maternal, o mais nobre de todos, que o materialismo rebaixa ao nível das forças atrativas da matéria, encontra-se relevado e enobrecido. Em razão de suas consequências, não seria preciso que fosse liberado às eventualidades caprichosas da inteligência e do livre arbítrio. Pelo órgão da mãe, Deus, ele mesmo, vela sobre os nascituros.

16. – Esta teoria não destrói de nenhuma maneira o papel dos Espíritos protetores cujo concurso é um fato obtido e provado pela experiência; mas é de notar que a ação desses aí é essencialmente individual; que se modifica conforme as qualidades próprias do protetor e do protegido e que em nenhuma parte não tem a uniformidade e a generalidade do instinto. Deus, em sua sabedoria, conduz, ele próprio, os cegos, mas ele confia a inteligências livres a sorte de conduzir os que enxergam a fim de deixar para cada um a responsabilidade de seus atos. A missão dos Espíritos protetores é um dever que eles aceitam voluntariamente e que é para eles um meio de adiantamento segundo a maneira pela qual eles realizam.

17. – Todas estas maneiras de encarar o instinto são necessariamente hipotéticas, e algumas não têm um caractere suficiente de autenticidade para se dar como solução definitiva. A questão será certamente resolvida um dia, quando tiver reunido os elementos de observação que faltam ainda; até lá é preciso se limitar a submeter as opiniões diversas ao cadinho da razão e da lógica, e esperar que a luz se faça; a solução que mais se aproxima da verdade, será necessariamente aquela que corresponda ao máximo aos atributos de Deus, isto é, à soberana bondade e à soberana justiça (ver cap. II, n°. 19)

18. – O instinto sendo o guia e as paixões a mola das almas no primeiro período de seu desenvolvimento, confunde-se algumas vezes com seus efeitos, e, sobretudo, na linguagem humana que não se presta sempre suficientemente à expressão de todos os matrizes. Há, entretanto entre estes dois princípios, diferenças que se tornam essenciais considerar.

O instinto é um guia seguro, sempre bom; a seu tempo, torna-se inútil, mas jamais nocivo; ele se debilita pela predominância da inteligência.

As paixões, nas primeiras idades da alma, têm tal coisa de comum com o instinto, que os seres aí são solicitados por uma força igualmente inconsciente. Elas nascem mais particularmente das necessidades do corpo e têm mais que o instinto com o organismo. O que as distingue, sobretudo, do instinto, é que são individuais e não produzem, como este último, efeitos gerais e uniformes; vê-se os ao contrário variar de intensidade e de natureza conforme os indivíduos. São úteis como estimulante, até a eclosão do senso moral que, de um ser passivo faz um ser racional; neste momento, elas se tornam não mais somente inúteis, mas nocivas ao adiantamento do Espírito pois retardam a desmaterialização; elas se debilitam com o desenvolvimento da razão.

19. – O homem que só agisse constantemente por instinto, poderia ser muito bom, mas deixaria dormir sua inteligência; seria como o menino que não deixasse os limitadores e não saberiam se servir de seus membros. O que não domina suas paixões pode ser muito inteligente, mas, ao mesmo tempo muito malvado. O instinto se aniquila por si mesmo; as paixões não se dominam senão pelo esforço da vontade.

Todos os homens têm passado pela fieira das paixões; os que não as tenham mais, que não sejam por natureza nem orgulhosos nem ambiciosos, nem egoístas, nem rancorosos, nem vingativos, nem cruéis, nem coléricos, nem sensuais, que fazem o bem sem esforços, sem premeditação e, por assim dizer, involuntariamente, é que têm progredido na sequência de suas existências anteriores; eles estão purgados da gurma (d). É injustiça quando se diz que eles têm menos mérito por fazer o bem do que os que tenham que lutar contra suas tendências; para eles, a vitória é alcançada; para os outros ainda não o é e quando o for, serão como os outros: a seu turno, farão o bem sem nele pensar, como crianças que leem correntemente sem mais ter necessidade de soletrar; são como dois males, pois, um está curado e cheio de força, enquanto que o outro está ainda em convalescença e hesita em caminhar; são, enfim, como dois corredores onde um está mais próximo da meta que o outro.

 


NOTA DO TRADUTOR

 

(d) Gruma é cancro, pelagra, enfim, mal contagioso.