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A Gênese é uma das cinco obras básicas da Codificação do Espiritismo. É um livro que, conhecido e estudado, proporciona uma oportunidade excepcional de imersão em grandes temas de interesse universal, abordados de forma lógica, racional e reveladora. Divide-se em três partes: na primeira parte, analisa a origem do planeta Terra, de forma coerente, fugindo às interpretações misteriosas e mágicas sobre a criação do mundo; na segunda, aborda a questão dos milagres, explicando a natureza dos fluidos e os fatos extraordinários contidos no Evangelho; na terceira enfoca as predições do Evangelho, os sinais dos tempos e a geração nova, que marcará um novo tempo no mundo com a prática da justiça, da paz e da fraternidade. Os assuntos apresentados nos dezoito capítulos desta obra têm como base a imutabilidade das grandiosas leis divinas.
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CAPÍTULO XI – GÊNESE ESPIRITUAL

DOUTRINA DOS ANJOS DECAIDOS (1)

42. – O termo anjo, como vários outros, tem várias acepções: toma-se indiferentemente em boa e má parte, uma vez que se diz: os bons e os maus anjos, o anjo de luz e o anjo das trevas; daí segue-se que, em sua acepção geral, significa simplesmente Espírito.

Os anjos não são seres fora da humanidade, criados perfeitos, mas Espíritos chegados à perfeição, como todas as criaturas, por seus esforços e seu mérito. Se os anjos fossem seres criados perfeitos, a rebelião contra Deus, sendo um sinal de inferioridade, os que se revoltaram não poderiam ser anjos. A rebelião contra Deus não se conservaria da parte de seres que fossem criados perfeitos, ao passo que ela concebe a parte de seres ainda atrasados.

Por sua etimologia, o termo anjo (do grego aggelos), significa enviado, mensageiro; ora, não é racional supor que Deus tenha tomado seus mensageiros entre seres assaz imperfeitos para se revoltar contra ele próprio.

43. – Até que os Espíritos tenham atingido a um certo grau de perfeição, estão sujeitos a falir, seja no estado de erraticidade, seja no estado de encarnação. Falir é infringir a lei de Deus, bem que esta lei esteja inscrita no coração de todos os homens a fim de que eles não tenham necessidade da revelação para conhecer seus deveres, o Espírito só a compreende gradualmente e à medida que sua inteligência se desenvolve. Aquele que infringe esta lei por ignorância e falta de experiência que só se adquire com o tempo, apenas incorre em uma responsabilidade relativa; mas da parte daquele cuja inteligência está desenvolvida, que tendo todos os meios de se esclarecer, enfrenta a lei voluntariamente e pratica o mal com conhecimento de causa, é uma revolta, uma rebelião contra o autor da lei.

44. – Os mundos progridem fisicamente pela elaboração da matéria, e moralmente pela depuração dos Espíritos que os habitam. A bondade aí está em razão da predominância do bem sobre o mal, e a predominância do bem é o resultado do avanço moral dos Espíritos. O progresso intelectual não é suficiente já que, com a inteligência, podem fazer o mal. Tão logo um mundo chegue a um de seus períodos de transformação que o deva fazer subir na hierarquia, as mutações se operam em sua população encarnada e desencarnada; é, então que têm lugar as grandes emigrações e imigrações. Aquilo que, malgrados sua inteligência e seu saber, preserva-se no mal, em sua revolta contra Deus e suas leis, será, daí para frente mais um entrave para o progresso moral ulterior, uma causa permanente de dificuldade para o repouso e a sorte dos bons, é por causa disso que são enviados para mundos menos adiantados; lá eles aplicarão sua inteligência e a intuição de seus conhecimentos adquiridos do progresso daqueles entre os quais são chamados a viver, ao mesmo tempo que expiarão, em uma série de existências penosas e por um duro trabalho, suas faltas passadas e seu endurecimento voluntário.

Quem serão eles entre esse bando novo para eles, ainda na infância da barbárie, senão anjos ou Espíritos pecadores envoltos em expiação? A Terra de onde foram expulsos, não será para eles um paraíso perdido? Não seria para eles um lugar de delícias em comparação com o meio ingrato aonde vão se encontrar relegados durante milhares de séculos, até o dia em que terão o mérito da libertação? A vaga lembrança intuitiva que conservam em si é para eles como uma miragem distante que os chama àquilo que perderam por sua falta.

45. – Mas, ao mesmo tempo em que os malvados partem do mundo que habitavam, eles são substituídos por Espíritos melhores, vindos, que seja, da erraticidade deste mesmo mundo, que seja de um mundo menos avançado onde tiveram o mérito de deixar e para os quais sua nova morada é uma recompensa. A população espiritual estando assim renovada e purgada de seus piores elementos, ao fim de algum tempo o estado moral do mundo se encontre melhorado.

Estas mutações são por vezes parciais, isto é, limitadas a um povo, a uma raça; por outras vezes, são generalizadas, quando o período de renovação for chegado para o globo.

46. – A raça adâmica tem todos os caracteres de uma raça proscrita; os Espíritos que dela fazem parte estiveram exilados sobre a terra, já povoada, mas por homens primitivos, mergulhados na ignorância, e que tiveram por missão fazer progredir, aportando entre eles as luzes de uma inteligência desenvolvida. Não será este, com efeito, o papel que esta raça preencheu até este dia? Sua superioridade intelectual prova que o mundo de onde saíram estava mais avançado que a Terra; mas este mundo devendo entrar em uma nova fase de progresso, e estes Espíritos, ante sua obstinação, não tendo sabido de colocar nesta altura, teriam sido deslocados tornando-se um entrave à marcha providencial das coisas; eis porque foram excluídos, ao passo que outros mereceram substituí-los.

Em relegando esta raça sobre esta terra de labor e de sofrimentos, Deus teve razão de lhes dizer: “Tu tirarás tua nutrição com o suor da tua fronte”. Em sua mansuetude, prometeu-lhe que lhe enviaria um Salvador, isto é, aquele que deveria esclarecer a respeito da rota a seguir por sair deste lugar de miséria, deste inferno e encontrar a felicidade dos eleitos. Este Salvador, Ele lhe enviou na figura do Cristo, que ensinou a lei de amor e de caridade desconhecida por eles e que deveria ser a verdadeira âncora de salvação. O Cristo tem não apenas ensinado a lei, mas deu o exemplo da prática desta lei, por sua mansuetude, sua humildade, sua paciência em sofrer sem murmúrio os tratamentos dos mais ignominiosos e as maiores dores. Para que uma tal missão fosse cumprida sem desvario, era preciso um Espírito livre das fraquezas humanas.

É igualmente em via de fazer avançar a humanidade em um senso determinado que Espíritos superiores, sem ter a qualidade do Cristo, encarnaram-se a seu tempo, sobre a Terra para aí cumprir missões especiais que aproveitam em seu adiantamento pessoal se executarem conforme as vistas do Criador.

47. – Sem a reencarnação, a missão do Cristo seria um contrassenso, tal como a promessa feita por Deus. Suponhamos, com efeito, que a alma de cada homem seja criada no ato do nascimento de seu corpo e que ela só faça aparecer e desaparecer sobre a Terra, não há nenhuma relação entre as que vieram após Adão até Jesus Cristo, nem as que vieram após; elas são todas estranhas umas às outras. A promessa de um Salvador feita por Deus não poderia se aplicar aos descendentes de Adão se suas almas ainda não tinham sido criadas. Para que a missão do Cristo pudesse se encaixar às palavras de Deus, era preciso que elas pudessem se aplicar às mesmas almas. Se estas almas são novas elas não podem ser correlatas com as faltas do primeiro pai que é apenas o pai carnal e não o pai espiritual; senão, Deus teria criado almas maculadas por uma falta que não teriam cometido. A doutrina vulgar do pecado original implica, pois, na necessidade de uma correlação entre as almas do tempo de Cristo e a do tempo de Adão, e, por consequência da reencarnação.

Ditas que todas essas almas faziam parte da colônia de Espíritos exilados sobre a Terra no tempo de Adão, e que elas estavam maculadas pela falta que as haviam feito exclusas de um mundo melhor, e vos teries a única interpretação racional do pecado original, pecado próprio a cada indivíduo, e não o resultado da responsabilidade da falta de um outro que jamais conhecera; ditas que tais almas ou Espíritos renasçam em diversas repetições sobre a terra na vida corpórea para progredir e se depurar; que o Cristo veio iluminar estas mesas almas não apenas para suas vidas ulteriores, e somente então vós dareis à sua missão um papel real e sério, aceitável pela razão.

48. – Um exemplo familiar, marcado por sua analogia, fará melhor compreender ainda os princípios que vieram a ser expostos:

Em 24 de maio de 1861, a fragata Ifigênia conduzira à Nova Caledônia uma companhia disciplinar composta de 291 homens. O comandante da colônia lhes endereçou, à sua chegada, uma ordem do dia assim concebida:

“Colocando o pé sobre esta terra longínqua, já cumpristes o papel que vos está reservado.

“A exemplo de nossos bravos soldados da marinha servindo sob vossos olhos, vós nos ajudareis a levar com claridade, ao meio das tribos selvagens da Nova Caledônia, a bandeira da civilização. Não é uma bela e nobre missão, eu vos indago? Vós a enchereis dignamente.

“Escutai a voz e os conselhos de vossos chefes. Estou na sua cabeça; que minhas palavras sejam bem entendidas.

“A escolha de vosso comandante, de vossos oficiais, de vossos suboficiais e cabos é uma segura garantia de todos os esforços que serão tentados para fazer de vós excelentes soldados; eu digo mais, para vos elevar à altura de bons cidadãos e vos transformas em colonos honrados se o desejardes.

“Vossa disciplina é severa; deve sê-la. Colocada em nossas mãos, ela será firme e inflexível, sabei-o bem; como também, justa e paternal, ela saberá distinguir o erro do vício e da degradação…”

Eis, pois homens expulsos por suas más-condutas, de um país civilizado e enviados, por punição, para o meio de um povo bárbaro. Que lhe diz o chefe? “Afrontastes as leis de vosso país; lá, causastes embaraços e escândalos, e então, fostes enxotados; e vos enviaram para aqui, mas podereis aqui resgatar vosso passado; podereis, pelo trabalho, aqui criar um posição honrada e tornarem-se honestos cidadãos. Ter-vos-á, uma bela missão a preencher, a de levar a civilização entre as tribos selvagens. A disciplina será severa, mas justa, e saberemos distinguir os que se conduzirem bem.”

Para esses homens relegados ao seio da selvageria, a mãe pátria, não será ela um paraíso perdido pelas suas faltas e por sua rebelião à lei? Sobre esta terra longínqua, não seriam anjos decaídos? A linguagem do chefe não seria a que Deus fez entender aos Espíritos exilados sobre a Terra: “Haveis desobedecido a minhas leis e é por isso que vos tenho banido do mundo onde poderíeis viver felizes e em paz; aqui sereis condenados ao trabalho, mas podereis, por vossa boa conduta, merecer vosso perdão por vossa falta, a dizer, o céu?”

49. – À primeira abordagem, a ideia de decaídos parece em contradição com o princípio de que os Espíritos não possam regredir; mas é necessário considerar que não se cogita de um retorno ao estado primitivo; o Espírito, embora em uma posição inferior, não perde nada daquilo que adquiriu; seu desenvolvimento moral e intelectual é o mesmo, qualquer que seja o meio onde se encontre colocado. É na posição do homem do mundo condenado à prisão por seus malfeitos; certamente, ele está decaído ao ponto de vista social, porém, não se tornou nem estúpido, nem mais ignorante.

50. – Crer-se-ia agora que estes homens enviados à Nova Caledônia vão se transformar subitamente em modelos de virtude? Que vão abjurar, de um só golpe seus erros passados? Não seria preciso conhecer a humanidade para supô-lo. Pela mesma razão, os Espíritos da raça adâmica, uma vez transferidos para a Terra do exílio, não teriam despojado instantaneamente seu orgulho e seus instintos maus; por longo tempo, ainda, conservaram suas tendências de origem, um resquício do velho fomento; ora, não é este o pecado original? A nódoa que eles trazem de nascença é a da araçá de Espíritos culpados e punidos àqueles a quem o caiba; tarefa que podem afastar pelo arrependimento, a expiação e a renovação do seu ser moral. O pecado original, considerado como a responsabilidade de uma falta cometida por um outro, é uma falta de senso e a negação da justiça de Deus; considerado, ao contrário, como consequência e saldo de uma imperfeição primária do indivíduo, não apenas a razão o admite, mas, encontra-se de total justiça a responsabilidade que provenha dela.

NOTA

(1) Quando, na Revista Espírita de janeiro de 1862, publicamos um artigo sobre a interpretação da doutrina dos anjos decaídos, apresentamo-la apenas como uma hipótese, tendo somente a autoridade de uma opinião pessoal controversa, já que, então, faltava-nos elementos assaz completos para uma afirmação absoluta. Demo-la a título de ensaio, com vistas de provocar o exame, bem determinado a abandoná-lo ou a modificá-lo, se houvesse lugar. Atualmente, esta teoria sofreu a prova do controle universal; não somente foi acolhida pela grande maioria dos Espíritos como a mais racional e de acordo com a soberana justiça de Deus, mas ela foi confirmada pela generalidade das instruções dadas pelos Espíritos sobre este assunto. É o mesmo que concerne à origem da raça adâmica.

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