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A Gênese é uma das cinco obras básicas da Codificação do Espiritismo. É um livro que, conhecido e estudado, proporciona uma oportunidade excepcional de imersão em grandes temas de interesse universal, abordados de forma lógica, racional e reveladora. Divide-se em três partes: na primeira parte, analisa a origem do planeta Terra, de forma coerente, fugindo às interpretações misteriosas e mágicas sobre a criação do mundo; na segunda, aborda a questão dos milagres, explicando a natureza dos fluidos e os fatos extraordinários contidos no Evangelho; na terceira enfoca as predições do Evangelho, os sinais dos tempos e a geração nova, que marcará um novo tempo no mundo com a prática da justiça, da paz e da fraternidade. Os assuntos apresentados nos dezoito capítulos desta obra têm como base a imutabilidade das grandiosas leis divinas.
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CAPÍTULO XI – GÊNESE ESPIRITUAL

ENCARNAÇÃO DOS ESPÍRITOS

17. – O Espiritismo nos ensina, de qual forma se opera a união do Espírito e do corpo na encarnação.

O ESPÍRITO, PELA SUA ESSÊNCIA ESPIRITUAL, É UM SER INDEFINIDO, ABSTRATO, QUE NÃO PODE TER UMA AÇÃO DIRETA SOBRE A MATÉRIA; TORNA-SE-LHE PRECISO UM INTERMEDIÁRIO; ESTE INTERMEDIÁRIO ESTÁ NUM ENVOLTÓRIO FLUÍDICO (b) QUE FAZ, DE ALGUMA SORTE, PARTE INTEGRANTE DO ESPÍRITO, ENVOLTÓRIO SEMI-MATERIAL, a dizer, tendo a matéria por sua origem e a Espiritualidade por sua natureza etérea; como toda matéria, É HAURIDO DO FLUIDO CÓSMICO UNIVERSAL, que sofre nesta circunstância uma modificação especial. Este envoltório designado sob o nome de perispírito, um ser abstrato, faz do Espírito um ser concreto, definido, penhorável pelo pensamento; encontra-se apto a agir sobre a matéria tangível, tal como todos os fluidos imponderáveis que sejam, como se sabe, os mais possantes motores.

O FLUIDO PERISPIRITUAL É, POIS, O TRAÇO DE UNIÃO ENTRE O ESPÍRITO E A MATÉRIA. Durante sua união com o corpo, é o veículo de seu pensamento para transmitir o movimento às diferentes partes do organismo que se movimentam sob o impulso da sua vontade, e para repercutir no Espírito as sensações produzidas pelos agentes exteriores. Tem por fios condutores os nervos, como no telégrafo, o fluido elétrico tem por condutor o fio metálico.

18. – LOGO QUE O ESPÍRITO DEVA SE ENCARNAR NUM CORPO HUMANO EM VIA DE FORMAÇÃO, UM LAÇO FLUÍDICO, QUE NÃO É OUTRO SENÃO UMA EXPANSÃO DO PERISPÍRITO, O AMARRA AO GERME SOBRE O QUAL ELE SE ENCONTRA LANÇADO POR UMA FORÇA IRRESISTÍVEL DESDE O MOMENTO DA CONCEPÇÃO. À MEDIDA QUE O GERME SE DESENVOLVE, O LAÇO SE APERTA; SOB A INFLUÊNCIA DO PRINCÍPIO VITAL MATERIAL DO GERME, O PERISPÍRITO, QUE POSSUI CERTAS PROPRIEDADES DA MATÉRIA, UNE-SE MOLÉCULA A MOLÉCULA COM O CORPO QUE SE FORMA; DE ONDE SE PODE DIZER QUE O ESPÍRITO, POR INTERMÉDIO DE SEU PERISPÍRITO, TOMA, DE ALGUMA FORMA, RAIZ NESTE GERME, COMO UMA PLANTA NA TERRA. QUANDO O GERME ESTÁ INTEIRAMENTE DESENVOLVIDO, A UNIÃO É COMPLETA E, ENTÃO, ELE NASCE À VIDA EXTERIOR.

Por um efeito contrário, esta união do perispírito e da matéria carnal, que se encontra acoplada sob influência do princípio vital do germe, quando este princípio cessa de agir por consequência da desorganização do corpo, que só era mantida por uma força ativa, cessa quando esta força cessa de agir; então, o perispírito se desembaraça molécula a molécula, tal como se unira e o Espírito se encontrará em liberdade. NÃO É, POIS, A PARTIDA DO ESPÍRITO QUE CAUSA A MORTE DO CORPO, MAS A MORTE DO CORPO QUE CAUSA A PARTIDA DO ESPÍRITO. (c)

19. – O Espiritismo nos ensina, pelos fatos que ele nos põe, mesmo, a observar, os fenômenos que acompanham esta separação; é, algumas vezes, rápida, fácil, doce e insensível; outras vezes é muito lenta, laboriosa, horrivelmente penosa, conforme o estado moral do Espírito e pode durar meses inteiros.

20. – Um fenômeno particular, igualmente registrado pela observação, acompanha sempre a encarnação do Espírito. Desde que este é preso pelo laço fluídico que o une ao germe, a perturbação se apodera dele; esta perturbação cresce à medida que o laço se aperta e, nos últimos momentos, o Espírito perde toda consciência dele próprio, de sorte que ele mesmo não se torna jamais testemunha consciente de seu nascimento. No momento em que a criança respira, o Espírito começa a recuperar suas faculdades que se desenvolvem à medida que se formam e se consolidam os órgãos que devam servir à sua manifestação. Aqui ainda manifesta-se a sabedoria que preside a todas as partes da obra da criação. Faculdades demasiadamente ativas usariam e quebrariam os órgãos delicados apenas esboçados. É porque sua energia é proporcional à força de resistência destes órgãos.

21. – Mas, ao mesmo tempo em que o Espírito recupera a consciência dele próprio, ele perde a lembrança de seu passado, sem perder as faculdades, as qualidades e as aptidões adquiridas anteriormente, aptidões que estavam momentaneamente postas em estado latente e que, em retomando sua atividade, vão ajudá-lo a fazer mais e melhor do que teria feito precedentemente; ele faz renascer o que se fez pelo seu trabalho anterior; é para ele um novo ponto de partida, um novo degrau a galgar. Aqui ainda se manifesta a bondade do Criador porque a lembrança de um passado, frequentemente penoso ou humilhante, juntando-se às amarguras de sua nova existência, poderia perturbar-lhe e entravá-lo; ele só se lembra daquilo que aprendeu porque lhe será útil. Se, por vezes ele conserva uma vaga intuição dos acontecimentos passados, é como a lembrança de um sonho fugidio. É, pois um homem novo qualquer que seja a idade do seu Espírito; ele marcha por novos trâmites ajudado pelo que tenha adquirido. Tão logo retorna à vida espiritual, seu passado se desenrola a seus olhos. E ele julga se teve bem ou mal empregado seu tempo.

22. – Não há, pois, solução de continuidade na vida espiritual, malgrado o esquecimento do passado; o Espírito é sempre ele, antes, durante e depois da encarnação; a encarnação é somente uma fase de sua existência. Este esquecimento só acontece, mesmo, durante a vida exterior de relação; durante o sono, o Espírito, em parte desligado dos laços carnais, rendido à liberdade e à vida espiritual se lembra; sua vida espiritual não se torna mais tão obscurecida pela matéria.

23. – Em tomando a humanidade a seu grau o mais ínfimo da escala intelectual, entre os selvagens mais atrasados, indaga-se se é este o ponto de partida da alma humana.

Conforme a opinião de alguns filósofos espiritualistas, o princípio inteligente, distinto do princípio material, individualiza-se, elabora-se, em passando pelos diversos graus da animalidade; é ao que a alma se ensaia à vida e desenvolve suas primeiras faculdades para o exercício; será, por assim dizer, seu tempo de incubação. Chegado ao grau de desenvolvimento que comporta este estado, ela recebe as faculdades especiais que constituem a alma humana. Haveria assim filiação espiritual, como o há filiação corpórea.

Este sistema, fundado sobre a grande lei de unidade que preside a Criação, assegura, é preciso convir, à justiça e à bondade do Criador; dá uma resultante, um alvo, um destino aos animais, que não são mais seres deserdados, mas que encontram no porvir que lhe seja reservado uma compensação a seus sofrimentos. O que constitui o homem espiritual, não é sua origem, mas os atributos especiais dos quais está dotado à sua entrada na humanidade, atributos que o transforma e o faz um ser distinto, como o fruto saboroso é distinto da raiz amarga de onde saiu. Por ter passado pela fileira da animalidade, o homem não seria menos homem; não seria mais animal como o fruto não é raiz, que o sábio não é o disforme feto através do qual iniciou no mundo.

Mas este sistema levanta numerosas questões do que não é oportuno discutir aqui os prós e o contra, senão examinar as diferentes hipóteses que têm sido feitas sobre este assunto. Sem, pois, procurar a origem da alma, e as fileiras pelas quais tenha podido passar, nós a tomamos à sua entrada na humanidade, ao ponto onde, dotada do senso moral e do livre arbítrio, começa a incorrer a responsabilidade de seus atos.

24. – A obrigação, para o Espírito encarnado de prover a nutrição do corpo, a sua segurança, o seu bem estar, o contrai a aplicar suas faculdades nestas pesquisas de exercê-las e de desenvolvê-las. Sua união com a matéria é, pois, útil a seu avanço, eis, porque a encarnação é uma necessidade. Por outro lado, pelo trabalho inteligente que opera a seu proveito, ele ajuda à transformação e ao progresso material do globo em que habite; é assim que, tudo em seu próprio progresso, ele concorre à obra do Criador do qual é agente inconsciente.

25. – Mas a encarnação do Espírito não é nem constante nem perpétua; é apenas transitória; deixando um corpo, ele não retoma um outro instantaneamente; durante um lapso de tempo mais ou menos considerável, ele vive a vida espiritual, que é sua vida normal: de tal sorte que a soma do tempo passado nas diferentes encarnações é de pouca monta, comparada àquela dos tempos que ele passou no estado de Espírito livre.

No intervalo de suas encarnações, o Espírito progride igualmente, neste senso que coloca a proveito, para seu adiantamento, os conhecimentos e a experiência adquiridos durante a vida corpórea; – falamos de Espírito chegado ao estado de alma humana, tendo a liberdade de ação, e a consciência de seus atos. – Ele examina o que fez durante sua estada terrestre, passa em revista o que aprendeu, reconhece suas faltas, endireita seus planos e toma as resoluções após o que ele conta se conduzir em uma nova existência tentando fazer melhor. É assim que cada existência é um passo adiante no caminho do progresso, uma sorte de escola de aplicação.

A encarnação não é, pois, em absoluto, normalmente uma punição para o Espírito, como qualquer um possa pensar, mas uma condição inerente à inferioridade do Espírito e um meio de progredir.

À medida que o Espírito progride moralmente, ele se desmaterializa, a dizer que, livrando-se da influência da matéria, ele se depura; sua vida espiritualiza-se, suas faculdades e suas percepções se estendem; sua felicidade está em razão do progresso completado. Mas, como age em virtude de seu livre arbítrio, pode, por negligência ou mal querer, retardar seu avanço; prolonga, por consequência, a duração de suas encarnações materiais que se transformam então para ele em punição, já que, por sua falta, ele permanece nos lugares inferiores, obrigado a recomeçar a mesma empreitada. Depende, pois, de o Espírito abreviar, por seu trabalho de depuração sobre si próprio, a duração do período de encarnações.

26. – O PROGRESSO MATERIAL DE UM GLOBO SEGUE O PROGRESSO MORAL DE SEUS HABITANTES; ora, como a criação dos mundos e dos Espíritos é incessante, que os que progridem mais ou menos rapidamente em virtude de seu livre arbítrio, resulta disso que há mundos mais ou menos idosos, com diferentes graus de adiantamento físico e moral, onde a encarnação é mais ou menos material e, onde, por consequência, o trabalho, para os Espíritos é mais ou menos rude. Neste ponto de vista, a Terra é um dos menos adiantados; povoada de Espíritos relativamente inferiores, a vida corpórea o é mais penosa do que em outros, como o é mais atrasados, onde é mais penoso ainda que sobre a Terra, e par os quais a Terra seria relativamente um mundo feliz.

27. – Tão logo os Espíritos tenham adquirido sobre um mundo a soma de progresso que comporta o estado deste mundo, eles o abandonam para se encarnarem em um outro mais avançado onde adquirem novos conhecimentos, e assim, em seguida, até que a encarnação em um corpo material não lhe sendo mais útil, vivam exclusivamente da vida espiritual, onde progridem ainda em um outro sentido e para outros fins. Chegado ao ponto culminante do progresso, gozam da suprema felicidade; admitidos nos conselhos do Todo-Poderoso, têm seu pensamento, e tornam-se seus mensageiros, seus ministros diretos para o governo dos mundos, tendo sob suas ordens os Espíritos de diferentes graus de adiantamento.

Assim, todos os Espíritos encarnados ou desencarnados, em qualquer grau da hierarquia que se apresentem, desde o menor até o maior, têm suas atribuições no grande mecanismo do Universo; todos são úteis ao conjunto, ao mesmo tempo em que sejam úteis a eles mesmos; aos menos avançados, como a de simples manobreiro, incumbe uma tarefa material, inicialmente inconsciente, depois gradualmente inteligente. Por toda parte a atividade no mundo espiritual, em nenhum lugar a inútil ociosidade.

A coletividade dos Espíritos é de alguma sorte a alma do Universo; é o elemento espiritual que atua em tudo e por tudo, sob o impulso do pensamento divino. Sem este elemento só resta a matéria inerte, sem fim finalidade, sem inteligência, sem outro motor além das forças materiais que deixam uma grande quantidade de problemas insolúveis; pela ação do elemento espiritual individualizado, tudo tem uma finalidade, uma razão de ser, tudo se explica; eis porque sem a Espiritualidade, tropeça-se em dificuldades insuperáveis.

28. – Desde que a Terra se encontrou nas condições climatéricas próprias à existência da espécie humana, os Espíritos vieram a se encarnar aí; e admite-se que encontraram os envoltórios todos feitos e que não tiveram senão que se apropriar para seu uso, compreende-se melhor ainda que pudessem tomar nascimento simultaneamente sobre vários pontos do globo.

29. – Bem que os primeiros que vieram devessem ser pouco avançados, em razão, mesmo, do que os que deveriam se encarnar em corpos muito imperfeitos, devia haver entre eles diferenças sensíveis nos caracteres e nas aptidões conforme o grau de seu desenvolvimento moral e intelectual; os Espíritos similares foram naturalmente agrupados por analogia e simpatia. A Terra encontrava-se assim povoada de diferentes categorias de Espíritos, mais ou menos aptos ou rebeldes ao progresso. Os corpos receberam o cunho do caráter do Espírito e seus corpos se procriaram conforme seu tipo respectivo, daí resultarem diferentes raças, no físico como em moral. Os Espíritos similares, continuando a se encarnar de preferência entre seus semelhantes, perpetuaram o caráter distinto físico e moral das raças e dos povos, que só se perde ao longo, por sua fusão e o progresso dos Espíritos. (Revista Espírita, julho 1860, página 198: Frenologia e Fisiognomia).

30. – Pode-se comparar os Espíritos que vieram povoar a Terra, a estas tropas de emigrantes de origens diversas que vão se estabelecer sobre um terreno virgem. Encontram aí a madeira e a pedra para fazer sua habitação e cada qual dá à cena um carimbo (marca) diferente, conforme o grau de seu saber e de sua inteligência. Grupam-se então por analogia de origens e de gostos; estes grupos acabam por formar tribos, a seguir povos tendo cada qual seus costumes e seu caráter próprio.

31. – O progresso nunca foi uniforme em toda espécie humana; as raças as mais inteligentes adiantaram-se naturalmente às outras, sem contar que Espíritos novamente nascidos à vida espiritual vieram encarnar-se na Terra após os primeiros chegados, gerando a diferença do progresso mais sensível. Seria impossível, de fato, dar a mesma antiguidade de criação aos selvagens que mal se distinguem dos símios, quanto aos chineses, e ainda menos em relação aos europeus civilizados.

Estes Espíritos de selvagens, entretanto, pertencem também à humanidade; eles atenderão um dia ao nível de seus primogênitos, mas isto não será certamente nos corpos da mesma raça física, imprópria a um certo desenvolvimento intelectual e moral. Quando o instrumento não for mais relativo com seu desenvolvimento, eles migrarão deste meio para se encarnar em um grau superior, e assim em seguida até que tenham conquistado todos os graus terrenos, após o que deixarão a Terra para passar em mundos gradativamente mais avançados. (Revista Espírita, abril 1862 página 97: Perfectibilidade da raça negra).


NOTAS DO TRADUTOR

(a) Com a “teoria do nada”, isto é, o peso sem massa descoberto pelos astrofísicos, a Ciência caminha célere para admitir que, de fato, existam dois fundamentos na existência do Universo: a energia constituinte do mundo material e das formas, correspondente a 23% do mesmo e algo mais que até então não foi possível caracterizar, compondo os 73% restantes. Mas, é preciso que o Espiritismo caminhe pelas trilhas traçadas por Kardec para que possa influir junto aos cientistas, na proposição da existência da Espiritualidade. Enquanto insistirem em transformar o Espiritismo em mais uma seita evangélica, esta posição não será alcançada.

(b) Na época de Kardec, tudo o que transcendia ao conhecimento da Ciência era considerado “fluido”. Atualmente o que se dizia “fluido perispiritual” é conhecido como “energia parapsíquica”, ou seja, correlata com a vida além da alma, transcendendo à matéria. O mesmo conceito no item seguinte, referente a “laço fluídico”.

(c) Segundo pesquisas feitas no final do século XX, a vida celular orgânica persiste após o trespasse, por algum tempo e vai se deteriorando gradativamente, com maior ou menor velocidade, dependendo de cada caso. Por esse motivo, aceita-se a existência tácita deste campo perispiritual de que fala Kardec e que abandona o corpo no ato da morte; ele já foi detectado por espectrógrafos; os russos o denominam de psicossoma, embora não seja um corpo, mas um campo de energia parapsíquica.

(d) Se compararem os itens 42 e 43 com as edições roustaingistas, o leitor verá que eles foram abolidos das mesmas porque nega a tese do anjo decaído, no caso, Lúcifer, que teria se rebelado contra Deus. Parece, mesmo, que Kardec tenha inserido tais itens para combater a tese docetista.

 

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