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A Gênese é uma das cinco obras básicas da Codificação do Espiritismo. É um livro que, conhecido e estudado, proporciona uma oportunidade excepcional de imersão em grandes temas de interesse universal, abordados de forma lógica, racional e reveladora. Divide-se em três partes: na primeira parte, analisa a origem do planeta Terra, de forma coerente, fugindo às interpretações misteriosas e mágicas sobre a criação do mundo; na segunda, aborda a questão dos milagres, explicando a natureza dos fluidos e os fatos extraordinários contidos no Evangelho; na terceira enfoca as predições do Evangelho, os sinais dos tempos e a geração nova, que marcará um novo tempo no mundo com a prática da justiça, da paz e da fraternidade. Os assuntos apresentados nos dezoito capítulos desta obra têm como base a imutabilidade das grandiosas leis divinas.
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CAPÍTULO XV – OS MILAGRES DO EVANGELHO

CURAS

Perda de sangue

10. – Então, uma mulher, doente de uma perda de sangue há doze anos, – que muito tinha sofrido na mão de vários médicos e que, tendo gasto todos os seus bens, não havia recebido nenhum alívio, mas seu estado cada vez se encontrava pior, – tendo ouvido falar de Jesus vindo na multidão por detrás, e tocou nas suas vestes; pois ela disse: se eu puder somente tocar suas vestes, estarei curada. – No mesmo instante a fonte de sangue que ela perdia foi estancada e ela sentiu em seu corpo que estava curada desta doença.

Logo, Jesus, conhecendo em si próprio a virtude que emanara dele, voltou-se para o meio da turba e disse: Quem foi que tocou em minhas vestes? – Seus discípulos lhe disseram: Vede que a multidão vos imprensa de todos os lados e vós indagais que vos tocou? – E ele olhava tudo em sua volta para ver quem lhe houvera tocado.

Mas esta mulher que sabia o que estava se passando com ela, sendo tomada de medo e de pavor, veio lançar-se a seus pés e lhe declarou toda a verdade. – E Jesus lhe disse: Minha filha, vossa fé vos salvou; ide em paz e estejais curada de vossa doença (São Marcos, cap. V, v.25 a 34)

 

11. – Estas palavras: Conhecendo em si próprio a virtude que dele havia saído, são significativas; elas exprimem o movimento fluídico que se operou de Jesus para a mulher doente; ambos ressentiram-se da ação que vinha de se produzir. É marcante que o efeito não tenha sido provocado por nenhum ato da vontade de Jesus; não houve nem magnetização nem imposição das mãos. A irradiação fluídica normal foi suficiente para operar a cura.

Mas por que esta irradiação foi dirigida sobre esta mulher, de preferência, do que sobre outros, já que Jesus não pensava nela e que se achava envolvido pela multidão?

A razão é bem simples. O fluido sendo dado como matéria terapêutica, deve causar a desordem orgânica para a reparar. Pode ser dirigido sobre o mal pela vontade do curador, ou atraído pelo desejo ardente, a confiança, em uma palavra, à fé do doente. Em relação à corrente fluídica, o primeiro faz o efeito de uma bomba compressora e o segundo de uma bomba aspirante. Por vezes, a simultaneidade dos dois efeitos é necessária, de outras vezes, um só é suficiente; foi o segundo que teve lugar nesta circunstância.

Jesus tinha, pois, razão em dizer: “Vossa fé vos salvou”. Entende-se aqui que a fé não é a virtude mística tal como certas pessoas a entendam mas uma verdadeira força atrativa, ao passo que aquele que não a tenha, opõe à corrente fluídica uma força repulsiva, ou pelo menos uma força de inércia que paralisa a ação. Compreende-se depois disso eu dois enfermos atingidos pelo mesmo mal em presença de um curador, um possa ser curado e o outro não. É aí um dos princípios mais importantes da mediunidade curadora e que explica, por uma causa muito natural, certas anomalias aparentes (Cap. XIV, n° 31, 32, 33)

 

Cego de Bethsaide

12. – Tendo chegado a Bethsaide, trouxeram-lhe um cego o qual lhe pedia para tocá-lo.

E tomando o cego pela mão conduziu-o para fora da aldeia; pôs-lhe saliva sobre os olhos e tendo-lhe imposto as mãos perguntou-lhe se via alguma coisa. – Este homem, observando, disse-lhe: Eu vejo caminhar homens que me parecem como árvores. – Jesus colocou-lhe ainda uma vez as mãos sobre os olhos e ele começou a ver melhor; e afinal ele foi totalmente curado, pois via distintamente todas as coisas.

Ele o enviou em seguida para sua casa e lhe disse: Ide-vos para vossa casa; e se voltardes à aldeia, não direis a ninguém o que vos aconteceu. (São Marcos, cap. VIII, v.22 a 26)

 

13. – Aqui, o efeito magnético é evidente; a cura não foi instantânea, mas gradual e, por conseguinte, de uma ação firme e reiterada, embora mais rápida do que na magnetização ordinária. A primeira sensação deste homem é bem a que os experimentam os cegos em recobrando a luz; por um efeito óptico, os objetos lhe pareciam de uma grandeza desmesurada.

 

Paralítico

14. Jesus, estando dentro de um barco, atravessou o lago e veio para sua cidade (Cafarnaum). – E como lhe tivessem apresentado um paralítico deitado sobre um leito, Jesus vendo sua fé, disse a este paralítico: Meu filho, tende confiança, vossos pecados vos são remidos.

Logo, alguns dos escribas disseram entre si: Este homem blasfema. – Mas Jesus, tendo conhecimento do que eles pensavam, disse-lhes: Por que tendes maus pensamentos dentro de vossos corações? – Pois, o que é o mais fácil de se dizer: vossos pecados vos estão remidos, ou de dizer: Levantai-vos e andai? – Ora, a fim de que vos saibais que o filho do homem tem sobre a Terra o dever de remir seus pecados: Levantai-vos, disse então ao paralítico; conduzi vosso leito e ide com ele para vossa casa.

O paralítico levantou-se logo e se foi para sua casa. – E o povo, vendo este milagre, ficou cheio de temor e rendeu graças a Deus do que havia dado um tal poder aos homens. (São Mateus, cap. IX, v.1 a 8)

 

15. – Que poderiam significar estas palavras: “vossos pecados vos serão remidos”; e a quem poderiam elas servir para a cura? O Espiritismo dá a chave, como de uma infinidade de outras palavras, incompreendidas até este dia; ele nos ensina, pela lei da pluralidade das existências, que os males e as aflições da vida são frequentemente expiações do passado e que sofremos na vida presente as consequências das faltas que tenhamos cometido em uma existência anterior: as diferentes existências sendo solidárias umas com as outras, até aquela que se tenha pagado o débito e suas imperfeições.

Se, pois, a doença deste homem era uma punição pelo mal eu ele houvera podido cometer, em dizendo-lhe: – “Vossos pecados vos foram remidos”, era como lhe dizer: “tendes pagado vossa dívida; a causa de vossa doença está extinta por vossa fé presente; em consequência vós mereceis ser liberto de vossa doença”. É por isso que ele disse aos escribas: É também fácil de dizer: Vossos pecados vos são remidos, do que: Levantai-vos e caminhai; a causa cessando, o efeito deve cessar. O caso é o mesmo que para um prisioneiro ao qual viesse dizer: “Vosso crime está expiado e perdoado”, o que equivaleria a lhe dizer: “Podeis sair da prisão”.

 

Os dez leprosos

16. – Um dia em que fora a Jerusalém e passara pelos confins da Samaria e da Galiléia, – estando perto de entrar num lugarejo, dez leprosos vieram diante dele, e permanecendo distantes, elevaram suas vozes e disseram-lhe: Jesus, nosso mestre, tende piedade de nós. – Tão logo ele os apercebeu, disse-lhes: Ide-vos mostrar aos sacerdotes. E como lá iam, foram curados.

Um deles, vendo que estava curado, voltou sobre seus passos glorificando Deus em altas vozes; – e veio se lançar aos pés de Jesus, o rosto contra o chão, em lhe rendendo graças; e este era o samaritano.

Então Jesus disse: Todos os dez não estão curados? Onde estão, pois, os nove outros? Só foi encontrado o que retornou e que rendeu glória a Deus, que é este estrangeiro. – E ele lhe disse: Erguei-vos; ide, vossa fé vos salvou. (São Lucas, cap. XVII, v.11 a 19)

17. – Os samaritanos eram cismáticos, como bem mais próximos, os protestantes em relação aos católicos, e desprezados pelos judeus como heréticos. Jesus em curando indistintamente os samaritanos e os judeus, dava, por sua vez, uma lição e um exemplo de tolerância, e, fazendo ressair que o samaritano apenas voltara para render glória a Deus, mostrou que havia nele mais verdadeira fé, e reconhecimento que entre os que se diziam ortodoxos. Em ajuntando: “Vossa fé vos salvou”, fez ver que Deus mira o fundo do coração e não a forma exterior da adoração. Contudo, os outros foram curados; e o era preciso para a lição que queria dar, e provar sua ingratidão; mas quem sabe o que disso será resultado e se eles teriam se beneficiado do favor que lhes havia concedido? Em dizendo ao Samaritano: “Vossa fé vos salvou”, Jesus deu a entender que não aconteceu o mesmo com os outros.

 

Mão seca

18. – Jesus entrou de outra feita, numa sinagoga onde encontrou um homem que tinha uma mão seca. – E eles o observaram para ver se curaria ao dia de sábado, a fim de que tivesse motivo para acusá-lo. – Então, ele disse a este homem que tinha a mão seca: erguei-vos e vinde ter ao centro. – Depois, disse-lhe: É permitido no dia do sábado fazer bem ou mal, de salvar a vida ou de tirá-la? E eles permaneceram em silêncio. – Mas ele, olhando-os com cólera, aflito que estava da cegueira de seus corações, disse a este homem: Estendei vossa mão. Este a estendeu e ele a tornou sadia.

Logo, os fariseus, tendo saído, tiraram conselho contra ele, com os herodianos, sobre o meio de prendê-lo. Mas Jesus se retirara com seus discípulos para o mar onde uma grande multidão de povo o seguiu da Galileia e da Judéia, – de Jerusalém, da Iduméia e de além do Jordão; e os do redor de Tiro e do Sidon, tendo escutado falar das coisas que ele fazia, vieram em grande número encontrá-lo. (São Marcos, cap. III, v.1 a 8)

 

A mulher curvada

19. – Jesus ensinava numa sinagoga todos os dias de sábado. – E um dia ele aí viu uma mulher possuída de um Espírito que a fazia doente há dezoito anos; e ela estava tão curvada que não podia de todo olhar para cima. – Jesus, vendo-a, chamou-a e lhe disse: Mulher, estais livre de vossa enfermidade. – Ao mesmo tempo ele lhe impôs as mãos; e estando logo ereta, ela rendeu glória a Deus.

Mas o chefe da sinagoga, indignado com isto, que Jesus tinha curado num dia de sábado, disse ao povo: Há seis dias destinados para trabalhar; vinde nesses dias para serem curados e não nos dias de sábado.

O senhor, tomando a palavra, disse-lhe: Hipócritas, há algum de vós que não solta seu boi ou seu asno da manjedoura no dia de sábado e nem o conduz a beber? Por que pois não é possível livrar de seus laços, em um dia de sábado, esta filha de Abraão que satã tinha mantido assim atada durante dezoito anos?

A esta palavra, todos os seus adversários permaneceram confusos e todo o povo ficou arrebatado de vê-lo fazer tanta ação gloriosa. (São Lucas, cap. XIII, v.10 a 17)

 

20. – Este fato prova que àquela época, a maior parte das doenças era atribuída ao demônio e que se confundia, como atualmente, as possessões com as doenças, mas no sentido inverso; isto é, que atualmente os que não acreditavam nos maus Espíritos, confundem as obsessões com os males patológicos.

 

O paralítico da pia batismal (b)

21. – Após isso, a festa dos judeus estando chegadas, Jesus se foi a Jerusalém. Ora, existia em Jerusalém a pia batismal das ovelhas negras que se chama em hebreu Betsaída, que tinha cinco galerias – nas quais estavam deitados um grande número de doentes, cegos, coxos e os que tinham os membros dessecados, que todos atentavam para que a água fosse agitada. – Pois o anjo do Senhor, em um certo tempo, descia nesta piscina e agitava a água: e o que entrasse em primeiro, após o que a água tivesse sido assim agitada, estaria curado, qualquer que fosse a doença.

Ora, havia um homem que estava doente após trinta e oito anos. Jesus, tendo-o visto deitado e conhecendo que ele estava doente após tão longo tempo, disse-lhe: Quereis ser curado? – O doente respondeu: Senhor eu não tenho ninguém para me lançar na piscina depois que a água for agitada; e conforme o tempo que eu gasto para ir até lá, um outro aí desce antes de mim. – Jesus lhe disse: Erguei-vos, conduzi vosso leito e caminhai. – No instante este homem foi curado e tomando seu leito ele começou a andar. Ora, este dia lá era um dia de sábado.

Os judeus disseram, pois, a aquele que tinha sido curado: É hoje o sábado; não vos é permitido transportar vosso leito. – Ele lhes respondeu: Aquele que me curou disse-me: conduzi vosso leito e caminhai. Eles lhe contestaram: Quem, pois é este homem que vos disse: conduzi vosso leito e caminhai? Mas aquele que o tinha curado ele não sabia onde estava já que Jesus havia se retirado da multidão de pessoas que estava lá.

Depois, Jesus encontrou este homem no templo e lhe disse: Vede que estais curados, não pequeis mais no futuro, de modo que não vos aconteça coisa pior.

Este homem se foi encontrar os judeus e lhes disse que fora Jesus que o curara. – E é por esta razão que os judeus perseguiram Jesus, porque fazia estas coisas lá no dia de sábado. – Então, Jesus lhes disse: Meu pai não cessa nunca de atuar agora e eu atuo também incessantemente. (São João, cap. V, v.1 a 17)

 

22. – Piscina (do latim, piscis, peixe), dizia-se entre os romanos, dos reservatórios ou viveiros onde se sustentavam peixes. Mais tarde a acepção desta palavra foi estendida aos tanques onde se banhavam em comum.

A piscina de Betsaída, em Jerusalém, era uma cisterna próxima do templo, alimentada por uma fonte natural, onde a água parecia ter tido propriedades curativas. Era, sem dúvida, uma fonte intermitente que, em determinadas épocas jorrava com força e revolvia a água. Conforme a crença vulgar, este momento era o mais favorável às curas; talvez eu, em realidade, no momento desta saída, a água tivesse uma propriedade mais ativa ou que a agitação produzida pela água jorrante movimentasse o lodo salutar para certas moléstias. Estes efeitos são muito naturais e perfeitamente conhecidos atualmente; mas então as ciências estavam pouco avançadas e via-se uma causa sobrenatural na maior parte dos fenômenos incompreendidos. Os judeus atribuíam, pois, a agitação desta água à presença de um anjo e esta crença lhes parecia tanto melhor fundamentada que neste momento a água estivesse mais salutar.

Depois de ter curado este homem, Jesus lhe disse: “no futuro não pequeis mais, com medo de que não vos aconteça algo de pior”. Por estas palavras, fez-lhe entender que sua doença era uma punição e que, se ele não se melhorasse, poderia ser novamente punido ainda mais rigorosamente. Esta doutrina é inteiramente de acordo com a que ensina o Espiritismo.

 

23. – Jesus parecia escolher a tarefa de operar suas curas no dia de sábado, para ter ocasião de protestar contra o rigorismo dos fariseus no tocante à observação desse dia. Ele queria mostrar-lhe que a verdadeira piedade não consiste na observância das práticas exteriores e das coisas formais, mas, que está nos sentimentos do coração. Ele se justifica dizendo: “Meu Pai nunca cessa de agir até o presente e eu atuo também incessantemente”, isto, Deus não suspende nunca suas obras nem sua ação sobre as coisas da natureza no dia de sábado, Ele continua na faina produtiva do que seja necessário à vossa nutrição e à vossa saúde, e eu sou seu exemplo.

 

Cego de nascença

24. – Quando Jesus passava, viu um homem que era cego desde seu nascimento; – e seus discípulos fizeram-lhe esta indagação: Mestre, é o pecado deste homem ou o pecado daqueles que o puseram no mundo que é a causa de que tenha nascido cego?

Jesus lhes respondeu: Não é nem que ele tenha pecado, nem aqueles que o puseram no mundo; mas é a fim de que as obras do poder de Deus brilhem nele. – É preciso que eu faça as obras daquele que me enviou enquanto é dia, a noite vem, na qual ninguém pode atuar. – Tanto que estou no mundo, sou a luz do mundo.

Após ter dito isto ele cuspiu na terra e, tendo feito lama com a saliva, ele untou com esta lama os olhos do cego, – e lhe disse: Ide-vos lavar na piscina de Siloé, que significa Enviado. Ele foi lá e se lavou aí e voltou vendo claro.

Seus vizinhos que o tinham visto antes pedir esmolas, disseram: Não é este que estava sentado e que pedia escola? Uns respondiam: É ele; – outros diziam: Não, é um que se parece com ele. Mas este lhes dizia: “Sou eu mesmo”. – Eles disseram-lhe então: Como é que vossos olhos estão abertos? – Ele lhes respondeu: Este homem que se chama Jesus fez lama e a colocou em meus olhos e me disse: Ide à piscina de Siloé e lavai-vos aí. Eu o fiz, eu me lavei aí e eu vejo. – Eles lhe disseram: Onde está ele? O outro respondeu-lhe: não sei.

Então, eles conduziram aos fariseus este homem que tinha sido cego. – Ora, era o dia de sábado eu Jesus tinha feito esta bolha e lhe havia aberto os olhos.

Os fariseus o interrogaram, pois, também eles próprios, para saber como tinha recuperado a visão. E ele lhes disse: Ele pôs lama sobre os olhos; eu me lavei e eu vejo. Sobre isto, alguns dos fariseus disseram: Este homem não é jamais enviado de Deus, já que não guarda nunca o sábado. Mas outros disseram: Como um homem periculoso poderia fazer tais prodígios? E havia por lá divisão entre eles.

Disseram, pois, de novo, ao cego: E tu, o que dizes deste homem que te abriu os olhos? Ele respondeu: Eu digo que é um profeta. – Mas os judeus não acreditaram absolutamente que este homem tivesse sido cego e que recuperara a vista. Até que fizeram vir seu pai e sua mãe, – que lhe interrogaram em lhes dizendo: Eis aí vosso filho que dizeis que nasceu cego? Como, pois, ele vê atualmente? – O pai e a mãe responderam: Nós sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego; mas não sabemos como ele vê atualmente, e não sabemos nada mais quem lhe abriu os olhos. Interrogai-o; ele tem idade para responder por si próprio.

Seu pai e sua mãe falavam desta forma porque temiam os judeus; porque os judeus já tinham resolvido em conjunto que qualquer um que reconhecesse Jesus como sendo o Cristo, seria excluído da sinagoga. – Isto foi o que obrigou o pai e a mãe a responder: Ele tem idade, interrogai-o a ele mesmo.

Eles chamaram, pois, uma segunda vez, este homem que havia sido cego, e lhe disseram: Rende glória a Deus; nós sabemos que este homem é um pecador. – Ele lhes respondeu: Se é um pecador, de nada sei; mas tudo o que sei é que eu era cego e que eu vejo atualmente. – Eles lhe disseram ainda: Que a ti ele fez, e como abriu teus olhos? – Respondeu ele: Eu já vos disse e vós entendeis; por que quereis ouvir ainda uma vez? É que quereis tornar-se seus discípulos? – Sobre quem eles o carregaram de injúrias e lhe disseram: Sê tu mesmo seu discípulo; para nós, nós somos os discípulos de Moisés. – Sabemos que Deus falou a Moisés, mas, para este, não sabemos de onde saiu.

Este homem respondeu-lhes: Eis o que é espantoso, que vós não sabeis de onde ele é, e quem tenha aberto os olhos. – Ora, sabemos que Deus nunca exalta os pecadores; mas se alguém honre e faça sua vontade, é este aí que Ele exalta. – Depois que o mundo existe, não se tem mais entendido dizer que ninguém tenha aberto os olhos de um cego de nascença. – Se este homem não fosse um enviado de Deus, ele não poderia fazer nada do que fez.

Eles lhes responderam: és apenas um pecado desde o ventre de tua mãe, e queres nos ensinar? E o excluíram. (São João, cap. IX, v.1 a 34)

 

25. – Este relato tão simples e tão natural traz em si um caráter evidente de verdade. Nada de fantástico nem de maravilhoso; é uma cena da vida real tomada sobre o fato. A linguagem deste cego é bem a destes homens simples entre os quais o saber é substituído pelo bom senso e que retorquem os argumentos de seus adversários com bonomia por razões que não faltam nem justeza nem propósito. O tom dos fariseus não é o destes orgulhosos que não admitem nada acima de sua inteligência e se indignam ao simples pensamento de que um homem do povo possa lhe corrigir? Salvo a cor local dos nomes, crer-se-ia nosso tempo.

Ser enxotado da sinagoga equivale a ser posto fora da Igreja; era uma forma de excomungação. Os espíritas cuja doutrina é a do Cristo interpretada conforme o progresso das luzes atuais, são tratados como judeus que reconheciam Jesus como Messias; em os excomungando, coloca-os fora da Igreja como fizeram os escribas e os fariseus à atenção dos partidários de Jesus. Assim eis um homem que é excluído porque não pôde crer que aquele que o havia curado fosse um possuído do demônio, e porque ele glorificava Deus de sua cura! Não é o que se faz com os espíritas? O que obtém: sábios conselhos dos Espíritos, volta a Deus e ao bem, curas, tudo é obra do diabo e lança-lhes o anátema. Não viste padres dizerem, do alto do púlpito, que se torna melhor ficar incrédulo do que retornar à fé pelo Espiritismo? Não se tem visto dizer a doentes que não deviam se fazer curar pelos espíritas que possuíssem tal dom, porque é um dom satânico? Que diziam e que faziam de mais, sacerdotes judeus e os fariseus? Do resto, é dito que tudo deva passar atualmente como ao tempo do Cristo.

Esta pergunta dos discípulos: “É o pecado deste homem a causa de nascer cego” indica a intuição de uma existência anterior, caso contrário não teria sentido: porque o pecado que seria a causa de uma enfermidade de nascença deveria ter sido cometido antes do nascimento e por consequência, em uma existência anterior. Se Jesus tivesse visto aí uma ideia falsa ele teria dito: “Como este homem teria podido pecar antes de estar entre nós?” Em lugar disso ele lhes disse que, se este homem é cego, não significa que tenha pecado, mas, a fim de que o poder de Deus brilhe nele; é como dizer que ele devia ser o instrumento de uma manifestação do poder de Deus. Se isto não era uma expiação do passado é uma aprova de que devia servir a seu progresso, porque Deus, que é justo, não poderia lhe impor um sofrimento sem compensação.

Quanto ao meio empregado para lhe curar é evidente que espécie de lama feita com a saliva e terra não podia ter virtude senão pela ação do fluido curador do qual estava impregnada; é assim que as substâncias as mais insignificantes, a água por exemplo, podem adquirir qualidades poderosas e efetivas sob ação do fluido espiritual ou magnético ao qual servem de veículo ou, se o quiserem, de reservatório.

 

Numerosas curas de Jesus

26. – Jesus ia por toda a Galileia ensinando nas sinagogas, pregando o Evangelho do reino e curando todas as apatias e todas as doenças entre o povo. – E sua reputação se estendeu por toda a Síria, apresentavam-se-lhe todos aqueles que estavam doentes, e diversificadamente afligidos de males e de dores, os possessos, os lunáticos, os paralíticos e ele os curava; – e uma grande multidão de pessoas seguia-o da Galileia, da Decápolis, de Jerusalém, da Judéia e do outro lado do Jordão. (São Mateus, cap. IV, v.23 a 25)

27. – De todos os fatos que testemunham o poder de Jesus, os mais numerosos são, sem contradição, as curas; ele queria provar por aí que o verdadeiro poder é aquele que faz o bem, que sua finalidade era de se tornar útil e não de satisfazer a curiosidade dos indiferentes para coisas extraordinárias.

Em aliviando o sofrimento, ele se afeiçoava às pessoas pelo coração e os fazia prosélitos mais numerosos e mais sinceros do que se tivesse atingido apenas pelo espetáculo dos olhos. Por este meio, ele se fazia amar, ao passo que se ele se deixasse envolver em produzir efeitos materiais surpreendentes, como demandavam os fariseus, a maior parte só teria visto nele um feiticeiro ou um hábil jogral que os desocupados iriam ver para se distrair.

Assim, quando João Batista lhe envia seus discípulos para lhe indagar se ele era o Cristo, ele não disse: “Eu o sou”, porque todo impostor tê-lo-ia podido dizer igualmente; ele não falava nem de prodígios nem de coisas maravilhosas, mas ele lhes responde simplesmente: “Ide dizer a João: Os cegos veem, os doentes são curados, os surdos escutam, o evangelho é anunciado aos pobres”. Era dizer-lhe: “reconhecei-me por minhas obras, julgueis a árvore por seu fruto”, porque aí é o verdadeiro caráter da sua missão divina.

 

28. – É também pelo bem que faz que o Espiritismo prova sua missão providencial. Ele cura os males físicos, mas cura principalmente as moléstias morais e estão aí os maiores prodígios pelos quais se afirma. Seus mais sinceros adeptos não são os que não tenham sido atingidos senão pela visão de fenômenos extraordinários, mas os que foram tocados no coração pelo consolo; os que ficaram livres das torturas da dúvida; os que cuja coragem foi revelada nas aflições, que hauriram a força na certeza do porvir que lhe é vindo trazer, no conhecimento do seu ser espiritual e no seu destino. Eis aquele cuja fé é inabalável porque a sentem e a compreendem.

Os que só veem no Espiritismo efeitos materiais não podem compreender seu poder moral; também os incrédulos que apenas o conhecem pelos fenômenos dos quais não admitem a causa primária, veem apenas jograis e charlatães. Não é, pois, pelos prodígios que o Espiritismo triunfará. Sobre a incredulidade, é em multiplicando seus benefícios morais, já que os incrédulos não admitem os prodígios, conhecem, como todo mundo, o sofrimento e as aflições e ninguém recusa os alívios e as consolações. (Cap. XIV, n° 30)


NOTAS DO TRADUTOR

(b) Piscina – pia batismal – local do rio ou córrego onde os sacerdotes levavam as pessoas para receberem a consagração do batismo e onde, geralmente, pequenos peixes nadavam, evitando a correnteza, daí dar-lhe o nome de piscina. Também, lavadeiras usavam o local para sua faina.

(c) Alavanca psíquica.

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