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A Gênese é uma das cinco obras básicas da Codificação do Espiritismo. É um livro que, conhecido e estudado, proporciona uma oportunidade excepcional de imersão em grandes temas de interesse universal, abordados de forma lógica, racional e reveladora. Divide-se em três partes: na primeira parte, analisa a origem do planeta Terra, de forma coerente, fugindo às interpretações misteriosas e mágicas sobre a criação do mundo; na segunda, aborda a questão dos milagres, explicando a natureza dos fluidos e os fatos extraordinários contidos no Evangelho; na terceira enfoca as predições do Evangelho, os sinais dos tempos e a geração nova, que marcará um novo tempo no mundo com a prática da justiça, da paz e da fraternidade. Os assuntos apresentados nos dezoito capítulos desta obra têm como base a imutabilidade das grandiosas leis divinas.
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CAPÍTULO XV – OS MILAGRES DO EVANGELHO

DESAPARECIMENTO DO CORPO DE JESUS

64. – O desaparecimento do corpo de Jesus após sua morte tem sido o objeto de numerosos comentários; ele é atestado pelos quatro evangelistas, sobre as declarações das mulheres que estavam presentes ao sepulcro ao terceiro e não o encontraram aí. Alguns viram neste desaparecimento um fato miraculoso, outros supuseram um transporte clandestino.

Conforme uma outra opinião, Jesus não teria se revestido de um corpo carnal, mas somente de um corpo fluídico; ele não teria sido durante a vida senão uma aparição tangível, em uma palavra, uma espécie de agênere. Seu nascimento, sua morte e todos os atos materiais de sua vida teriam sido apenas uma aparência. É assim, diz-se, que seu corpo retornando a seu estado fluídico, pôde desaparecer do sepulcro e é com este mesmo corpo que ele teria se mostrado após sua morte.

65. – A estada de Jesus sobre a Terra apresenta dois períodos: o que precedeu e o que seguiu à sua morte. No primeiro, após o momento da concepção até o nascimento, tudo se passa na casa materna como nas condições ordinárias da vida (9). Após o nascimento até sua morte tudo, em seus atos, em sua linguagem e nas diversas circunstâncias de sua vida, apresenta as características não equívocas da corporeidade. Os fenômenos de ordem psíquica que se produzem nele são acidentais e nada anormais já que se explicam pelas propriedades do perispírito, e se reencontra em diferentes graus entre outros indivíduos. Após sua morte, a contrário, tudo nele revela o ser fluídico. A diferença entre os dois estados é de tal forma talhada, que não é possível de assimilá-las.

O corpo carnal tem as propriedades inerentes à matéria propriamente dita e que diferem essencialmente daquela dos fluidos etéreos; a desorganização aí se opera pela ruptura da coesão molecular. Um instrumento cortante, penetrando no corpo material divide os tecidos; se os órgãos essenciais à vida forem atacados, seu funcionamento cessa e a morte se segue, isto é, a morte do corpo. Esta coesão não existindo nos corpos fluídicos, a vida não repousa sobre o jogo dos órgãos especiais e não pode aí se produzir desordens análogas; um instrumento cortante ou qualquer outro, aí penetra como em um vapor, sem nele causar qualquer lesão. Eis porque esta sorte de corpos não pode morrer e porque os seres fluídicos designados sob o nome de agêneres não podem ser destruídos.

Sem dúvida, um semelhante fato não é radicalmente impossível após o que se sabe atualmente sobre as propriedades dos fluidos, (g) mas seria, no mínimo, de toda feita, excepcional em oposição formal com o caráter dos agêneres (Cap. XIV, n° 36). A questão é, pois de saber se uma tal hipótese seja admissível, se é confirmada ou contraditada pelos fatos.

Após o suplício de Jesus, seu corpo ficou lá, inerte e sem vida; ele foi sepultado como os corpos ordinários e cada um pôde vê-lo e toca-lo. Após a ressurreição, quando ele quis deixar a Terra, ele não morre; seu corpo se eleva, se desvanece e desaparece sem deixar nenhum traço, prova evidente que seu corpo era de uma outra natureza que a que permaneceu na cruz, de onde é preciso concluir que se Jesus pôde morrer, é que ele tinha um corpo carnal.

Por sequência de suas propriedades materiais, o corpo carnal é o signo das sensações e das dores físicas que repercutem no centro sensitivo ou Espírito. Não é o corpo que sofre, é o Espírito que recebe o contragolpe das lesões ou alterações dos tecidos orgânicos. Em um corpo privado de Espírito, a sensação é absolutamente nula; pela mesma razão, o Espírito que não tenha corpo material, não pode experimentar os sofrimentos que são o resultado da alteração da matéria; donde, é preciso igualmente concluir que se Jesus sofreu materialmente como nem restará dúvida, é que ele tinha um corpo material de uma natureza semelhante à da de todo mundo.

66. – Aos fatos materiais vêm se ajuntar considerações morais todo-poderosas. Se Jesus tivesse estado durante sua vida nas condições dos seres fluídicos, não teria experimentado nem a dor, nem nenhuma necessidade do corpo; supor que ele o fosse assim, é tirar-lhe todo o mérito da vida de privação e de sofrimentos que ele escolhera como exemplo de resignação. Se tudo nele fosse apenas aparência, todos os atos de sua vida, o anúncio reiterado de sua morte, a cena dolorosa do Jardim das Oliveiras, sua prece a Deus de afastar o cálice de seus lábios, sua paixão, sua agonia, tudo até seu último brado no momento de render o Espírito, teria sido apenas um vão simulacro por dar o troco sobre sua natureza e fazer crer no sacrifício ilusório de sua vida, uma comédia indigna de um simples honesto homem, com mais forte razão de um ser assim superior; em uma palavra, ele teria abusado da boa fé de seus contemporâneos e da posteridade. Tais são as consequências lógicas deste sistema, consequências que não são admissíveis porque é abate-lo moralmente, em vez de eleva-lo.

Jesus, pois, teve, como todo mundo, um corpo carnal e um corpo fluídico, o que atestam os fenômenos materiais e os fenômenos físicos que marcam sua vida.

67. – Em que se transformou o corpo carnal? É um problema cuja solução não se pode deduzir, até nova ordem, salvo por hipóteses, falta de elementos suficientes para assegurar uma convicção. Esta solução, aliás, é de uma importância secundária e não juntaria nada aos méritos do Cristo nem aos fatos que atestam, de uma certa maneira bem contrariamente peremptória, sua superioridade e sua missão divina.

Não pode, pois, haver sobre a maneira na qual esse desaparecimento se operou senão opiniões pessoais que teriam valores apenas igualmente quanto as que fossem sancionadas por uma lógica rigorosa e pelo ensinamento geral dos Espíritos; ora, até o presente, nenhuma das que foram formuladas recebeu a sanção deste duplo controle.

Se os Espíritos ainda não resolveram a questão pela unanimidade de seus ensinamentos, é que, sem dúvida, o movimento da resolução não veio ainda ou que ainda falta conhecimentos em auxílio dos que possam resolvê-la por si própria. Em atentando, descarta-se a suposição de um rapto clandestino, poder-se-ia encontrar, por analogia, uma explicação provável na teoria do duplo fenômeno dos transportes e da invisibilidade. (Livro dos Médiuns, cap. IV e V)

68. – Esta ideia sobre a natureza do corpo de Jesus não é nova. No século IV, Apolinário de Laudicéia, chefe da seita dos apolinaristas, pretendia que Jesus nunca tinha tomado um corpo como o nosso, mas um corpo impassível que descera do céu no seio da Santa Virgem e não teria nascido dela; que, assim, Jesus não era nato, não tinha sofrido e não estava morto senão em aparência. Os apolinaristas foram anematizados pelo Concílio de Alexandria em 360, no de Roma em 374, e no de Constantinopla, em 381.


NOTA

(9) Não falamos do mistério da encarnação, pois não temos que nos ocupar aqui, e que será examinado ulteriormente.

 

NOTA DO TRADUTOR

(e) Ou, então, admitir, como os incrédulos, que seja mais uma fantasia inserta nos textos evangélicos.

(f) Perante os conhecimentos atuais correlatos a fluidos e energias, completamente distintos do que se sabia à época de Kardec, não há a mínima possibilidade da existência do referido agênere sem que a ele corresponda uma fonte permanente geradora de energia. E não havia tecnologia para tal.

(g) Aqui Kardec elimina qualquer possibilidade docetista da existência de um corpo fluídico durante a vida carnal de Jesus).

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