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A Gênese é uma das cinco obras básicas da Codificação do Espiritismo. É um livro que, conhecido e estudado, proporciona uma oportunidade excepcional de imersão em grandes temas de interesse universal, abordados de forma lógica, racional e reveladora. Divide-se em três partes: na primeira parte, analisa a origem do planeta Terra, de forma coerente, fugindo às interpretações misteriosas e mágicas sobre a criação do mundo; na segunda, aborda a questão dos milagres, explicando a natureza dos fluidos e os fatos extraordinários contidos no Evangelho; na terceira enfoca as predições do Evangelho, os sinais dos tempos e a geração nova, que marcará um novo tempo no mundo com a prática da justiça, da paz e da fraternidade. Os assuntos apresentados nos dezoito capítulos desta obra têm como base a imutabilidade das grandiosas leis divinas.

CAPÍTULO XVI – AS PREDIÇÕES CONFORME O ESPIRITISMO

TEORIA DA PRESCIÊNCIA

1. – Como o conhecimento do futuro é ele possível? Compreende-se a previsão dos acontecimentos que sejam a consequência do estado presente, mas não dos que não haja nenhuma referência, e ainda menos dos que se lhes atribua ao acaso. As coisas futuras, dizse, não existem; elas estão ainda no nada. Como, então, saber que elas chegarão? Os exemplos de predições realizadas são, entretanto, assaz numerosas, do que é preciso concluir que se passa por aí um fenômeno do qual não se tem a chave, porque não há efeito sem causa; é estas causa que vamos ensaiar a procura, e é ainda o Espiritismo a própria chave de tantos mistérios, que nos a fornecerá e que, mais, nos mostrará que o próprio fato das predições não foge das leis naturais.

Tomemos, como comparação, um exemplo nas coisas usuais e que ajudará a fazer compreender o princípio que teremos que desenvolver.

2. – Suponhamos um homem colocado sobre uma alta montanha e observando a vasta extensão da planície. Nesta situação, o espaço de uma légua será pouca coisa, e ele poderá facilmente vislumbrar de uma só olhada todos os acidentes do terreno, desde o início até o fim da rota. O viajante que segue este caminho pela primeira vez sabe que, andando, chegará ao destino; eis aí uma simples previsão da consequência de sua caminhada; mas os acidentes do terreno, as subidas e as descidas, as ribeiras que atravessar, os bosques a cruzar e os precipícios onde possa cair, os ladrões postados para roubá-lo, as casas hospitaleiras onde poderá se repousar, tudo isto é independente de sua pessoa: é para ele desconhecido, o futuro, porque sua visão não se estende além de um pequeno círculo que o envolve. Quanto à duração, ele a mede pelo tempo que leva a percorrer o caminho; tirai-lhe os pontos de referência e a duração se desvanece. Para o homem que está sobre a montanha e que segue vendo o viajante, tudo isto é o presente. Suponhamos que este homem desça ao pé do viajante e lhe diga: “A tal momento ireis encontrar qual coisa, sereis atacado e socorrido”, ele estará lhe prevendo o futuro; o futuro fica para o viajante; para o homem da montanha, este futuro é o presente.

3. – Se sairmos agora do círculo das coisas puramente materiais, e se entrarmos pelo pensamento, no domínio da vida espiritual, veremos este fenômeno se produzir em uma escala maior. Os Espíritos desmaterializados são como o homem da montanha: para ele, o espaço e a duração afastam-se para o lado. Mas a extensão e a penetração de sua visão são proporcionais à sua pureza e à sua elevação na hierarquia espiritual; são relativamente aos Espíritos inferiores, como o homem armado de um poderoso telescópio, ao lado do que só possa seus olhos. Entre estes últimos, a visão é circunscrita, não apenas porque só podem dificilmente se distanciar do globo ao qual são vinculados, mas porque a imperfeição do seu perispírito viola as coisas distantes, como o faz um nevoeiro para os olhos do corpo.

Compreende-se, pois, que, conforme o grau de perfeição, um Espírito possa abraçar um período de alguns anos, de alguns séculos e até de diversos milhares de anos, porque o que é um século em presença do infinito? Os acontecimentos nunca se desenrolam sucessivamente ante ele, como os incidentes da rota do viajante: ele vê simultaneamente o início e o fim do período; todos os acontecimentos que, neste período, forem o futuro para o homem da Terra, serão para ele o presente. Poderá, pois, vir nos dizer com firmeza. Tal coisa acontecerá a tal época, porque ele vê esta coisa como o homem da montanha vê o que aguarda o viajante sobre a rota; se não o faz é porque o conhecimento do futuro seria nocivo ao homem: entravaria seu livre arbítrio, paralizá-lo-ia no trabalho que deva cumprir para seu progresso; e o bem e o mal que o aguarda, estando no desconhecido, são para ele, a prova.

Se uma tal faculdade, mesmo restrita, pode estar nos atributos da criatura, a que grau de poder não deve se elevar no Criador, que envolve o infinito? Para Ele, o tempo não existe: o começo e o fim dos mundos são o presente. Neste imenso panorama, o que é a duração da vida de um homem, de uma geração, de um povo?

4. – Entretanto, como o homem deve concorrer ao progresso geral, e que certos acontecimentos devam resultar de sua cooperação, pode ser útil, em certos casos, que se torne pressentido sobre estes acontecimentos, a fim de que ele prepare os caminhos e se ponha preparado a agir quando o momento chegar; é porque Deus permite por vezes que um pedaço do véu seja erguido; mas é sempre com um objetivo útil, e jamais para satisfazer uma vã curiosidade. Esta missão pode, pois, ser dada, nem a todos os Espíritos já que estes não conhecem melhor o futuro do que os homens, mas a alguns Espíritos suficientemente avançados para isto; ora é de notar que tais sortes de revelação são sempre feitas espontaneamente, e jamais, ou bem raramente ao menos, em resposta a um pedido direito.

5. – Esta missão pode igualmente ser mostrada a certos homens, e eis aí de que maneira:
Aquele a quem é confiada a atenção de revelar uma coisa oculta, pode receber, a seu desconhecimento, a inspiração dos Espíritos que a conheçam e, então, ele a transmite maquinalmente, sem se dar conta disso. Sabe-se, por outro lado, que , seja durante o sono, seja no estado de vigília, nos êxtases da dupla visão, a alma se libera e possui um grau maior ou menos das faculdades do Espírito livre. Se for um Espírito avançado, se tiver, sobretudo, como os profetas, recebido uma especial missão a este efeito, ele desfruta, nos momentos de emancipação da alma, a faculdade de abranger, por ele próprio, um período mais ou menos extenso e vê como atuais, os acontecimentos deste período. Pode, então, revela-los ao mesmo instante ou conservar na memória até despertar. Se estes acontecimentos devam ficar em segredo, ele perderá a lembrança ou só restará uma vaga intuição, suficiente para guiá-lo instintivamente.

É assim que se vê esta faculdade se desenvolver providencialmente em certas ocasiões, nos perigos iminentes, nas grandes calamidades, nas revoluções, e que a maior parte das seitas perseguidas tiveram numerosos videntes; é ainda assim que se vê grandes capitães marcharem resolutamente ao inimigo com a certeza da vitória; homens de gênio, como Cristóvão Colombo, por exemplo, perseguir um alvo prevendo, por assim dizer, o momento em que eles o atinjam: é que viram este alvo que não é desconhecido para seu Espírito.

O dom de predição não é, pois, mais sobrenatural do que uma porção de outros fenômenos; repousa sobre a propriedade da alma e a lei da relação do mundo visível e do mundo invisível que o Espiritismo vem fazer conhecido. Mas, como admitir a existência de um mundo invisível, se não se admitir a alma, ou, senão, não se admitir nenhuma individualidade após a morte? O incrédulo que nega a presciência é consequente com ele próprio; resta saber se é inconsequente com a lei da natureza.

6. – Esta teoria da presciência não resolve, talvez, de uma maneira absoluta, todos os casos que possam apresentar a revelação do futuro; não se pode, porém, desconvir que ela se coloca no princípio fundamental. Se não se pode tudo explicar, é pela dificuldade, para o homem, de se situar neste ponto de vista extraterrestre; por sua inferioridade, mesmo, seu pensamento incessantemente restabelecido na senda da vida material, é frequentemente impotente a se desligar do Sol. De certo modo, certos homens são como jovens pássaros onde as asas, muito tênues, não lhes permitem elevar-se no ar ou como aqueles que a vista é bastante curta para ver ao longe ou, enfim, como aqueles que faltam de um sentido para certas percepções.

7. – Para compreender as coisas espirituais, ou seja, para que se faça uma ideia tão limpa quanto a que nós fizemos de uma paisagem que estivesse sob nossos olhos, falta-nos verdadeiramente um sentido, exatamente como a um cego falta o sensório necessário para compreender os efeitos da luz, das cores e da visão sem o contato. É também, apenas por um esforço de imaginação que nós aí chegamos, e, com auxílio de comparações tiradas nas coisas que nos sejam familiares. Mas, coisas materiais só podem dar ideias muito imperfeitas das coisas espirituais; é por isso que não deveríamos tomar estas comparações ao pé da letra e crer, por exemplo, no caso do qual se discute que a extensão das faculdades perceptivas do Espírito possuam a sua elevação efetiva e que tenha necessidade de estar sobre uma montanha ou acima das nuvens para abraçar o tempo e o espaço.

Esta faculdade é inerente ao estado de espiritualidade ou caso se queira, de desmaterialização; isto é, a espiritualização produz um efeito que se pode comparar, qualquer que seja muito imperfeitamente, à da vida de acordo com o homem que está sobre a montanha, esta comparação tinha simplesmente por finalidade mostrar que estes acontecimentos referentes ao futuro para uns, estão no presente para outros, e podem, assim serem preditos, o que não implica que o efeito se produza da mesma maneira.

Para gozar esta percepção, o Espiritismo, pois, não tem necessidade de se transportar para um ponto qualquer do espaço; o que está sobre a Terra a nossos lados pode possuí-la em sua plenitude tão bem como se estivesse a mil léguas, ao passo que nós não vemos nada fora do horizonte visual. A visão entre os Espíritos, não se produzindo da mesma maneira nem com os mesmos elementos que entre os homens, seu horizonte visual é totalmente outro; ora, é precisamente este sentido que nos falta para concebê-lo; o Espírito, ao lado do encarnado, é como aquele que vê ao lado de um cego.

 

8. – É preciso simbolizar bem, por outro lado, que esta percepção não se limita ao capacitado, mas que compreende a penetração de todas as coisas; é, nós o repetimos, uma faculdade inerente e proporcionada ao estado de desmaterialização. Esta faculdade é amortecida pela encarnação, mas não é completamente anulada, já que a alma não está encerrada no corpo como em uma caixa. O encarnado a possui ainda que sempre, a um menor grau do que aquele quando está inteiramente liberto; é isto que dá a certos homens um poder de penetração que falta totalmente a outros, uma maior justeza no golpe de vista moral, uma compreensão mais fácil das coisas extra-materiais.

Não apenas o Espírito percebe, mas se recorda do que tenha visto no estado de Espírito, e esta lembrança é como um quadro que se refaz em seu pensamento. Na encarnação, ele vê mais vagamente e como através de um véu; no estado de liberdade ele vê e concebe claramente. O princípio de visão não está fora dele, mas nele; é por isso que ele não tem necessidade de nossa luz externa. Pelo desenvolvimento moral, o círculo das ideias e da concepção se alarga pela desmaterialização gradual do perispírito, ele se purifica dos elementos grosseiros que alteram a delicadeza das percepções; de onde é fácil compreender que a extensão de todas as faculdades segue o progresso do Espírito.

9. – É o grau das faculdades do Espírito que na encarnação, o encontra mais ou menos apto a conceber as coisas espirituais. Todavia, esta aptidão não é a consequência necessária do desenvolvimento da inteligência; a ciência vulgar não a atribui; é por isso que se veem homens de um grande saber também cegos para as coisas espirituais, como outros o são para as coisas materiais; eles o são refratários, porque não as compreendem; isto se tem a que seu progresso ainda não está cumprido neste sentido, ao passo que se vê pessoas de uma instrução e uma inteligência vulgares, compreendê-los com a maior facilidade, o que prova que eles tinham a intuição prévia. É, entre eles, uma lembrança retrospectiva do que viram e souberam, quer na erraticidade, quer em suas existências anteriores, como outros têm intuição das línguas e das ciências que possuíram.

10. – A faculdade de trocar seu ponto de vista e de tomá-lo no topo não dá somente a solução do problema da presciência; está em outra a chave da verdadeira fé, da fé sólida; é também o mais poderoso elemento de força e resignação, porque, daí, a vida terrestre aparecendo como um ponto na imensidão, compreende-se o pouco valor das coisas que, vistas por baixo, parecem tão importantes; os incidentes, as misérias, as vaidades da vida se reduzem à medida que se desenvolve o imenso e esplendoroso horizonte do futuro. Aquele que vê assim as coisas deste mundo fica muito pouco ou nada atento às vicissitudes e por isso mesmo, ele é assim feliz quanto possa ser aqui em baixo. É preciso, pois, lamentar os que concentraram seus pensamentos na estreita esfera terrestre, porque ressentem com toda sua força, o contragolpe de todas as atribulações que como igualmente aos estímulos, os assedia sem cessar.

11. – Quanto ao futuro do Espiritismo, os Espíritos, como se o sabe, são unânimes em afirmar o triunfo próximo, apesar dos entraves que se lhe opõe; esta previsão se lhe é fácil, a princípio, porque sua propagação é sua obra pessoal; concorrendo ao movimento ou dirigindo, eles sabem, por consequência, o que devam fazer; em segundo lugar, é-lhes suficiente abraçar um período de curta duração e neste período, eles veem no caminho os poderosos auxiliares que Deus lhe suscita e que não tardarão a se manifestar.

Sem serem Espíritos desencarnados, que os espíritas se reportem, apenas há trinta anos antes, ao meado da geração que surge; que daí considerem o que se passa atualmente; que sigam a fileira e verão se consumir em vãos esforços o que se acreditavam chamados a revertê-lo; eles o verão pouco a pouco desaparecer da cena, ao lado da árvore que cresce e da qual as raízes se estendam cada dia mais.

12. – Os acontecimentos vulgares da vida privada são, na maioria das vezes, a consequência da maneira de agir de cada um; tal será bem sucedido segundo suas capacidades, sua habilidade, sua perseverança, sua prudência e sua energia, onde um outro encalhará por sua insuficiência; de sorte que se pode dizer que cada um é o artesão de seu próprio porvir o qual não está jamais submisso a uma cega fatalidade independente de sua pessoa. Conhecendo o caráter de um indivíduo, pode-se facilmente predizer-lhe a sorte que o aguarda na rota em que se empenha.

13. – Os acontecimentos que tocam aos interesses gerais da humanidade são regrados pela Providência. Quando uma coisa está nos desígnios de Deus, ela deve cumprir-se, quando mesmo, seja por um modo seja por outro. Os homens concorrem à sua execução, mas ninguém é indispensável, senão, Deus, ele próprio estaria à mercê de suas criaturas. Se àquele que se incuba a missão de executar, falhar, um outro o é encarregado. Não há nenhuma missão fatal, o homem está sempre livre para efetuar a que lhe seja confiada e que tenha voluntariamente aceitado; se não o faz, perde-lhe o benefício e assume a responsabilidade dos retardados que possam ocorrer do tão de sua negligência ou de sua má vontade; se ele se torna um obstáculo a seu acontecimento, Deus pode suprimi-lo de um sopro.

14. – O resultado final de um acontecimento pode, pois, ser correto, porque está nas vistas de Deus; mas, como o mais frequente, os pormenores e o modo de execução são subordinados às circunstâncias e ao livre arbítrio dos homens, os caminhos e os meios podem ser eventuais.

Os Espíritos podem nos pressentir sobre o acordo, se for útil, que sejamos prevenidos; mas para precisar o lugar e a data é preciso que conheçam adiantadamente a determinação que tomará tal ou qual indivíduo; ora, se esta determinação ainda não estiver em seu pensamento, conforme o que vá ser, pode acelerar ou retardar o desenvolvimento, modificar os meios secundários de ação, tudo confinante com o mesmo resultado. É assim, por exemplo, que os Espíritos podem, pelo conjunto das circunstâncias, prever que uma guerra esteja mais ou menos próxima, que seja inevitável, sem que possa prever o dia em que começará nem os incidentes de minúcias que possam ser modificadas pela vontade dos homens.

15. – Pela fixação da época dos acontecimentos futuros, é preciso, por outro lado, possuir cômputo de uma circunstância inerente à própria natureza dos Espíritos.

O tempo, tal como o espaço, só pode ser avaliado com a ajuda de pontos de comparação ou de referência que os dividam em períodos que se possam computar. Sobre a Terra, a divisão natural do tempo em dias e em anos está marcada pelo levante e poente do Sol, e pela duração do movimento de translação da Terra. A subdivisão do dia em 24 horas é arbitrária; ela é indicada com auxílio de instrumentos tais como as ampulhetas, os clepsidras (b), os relógios, os quadrantes solares, etc. As unidades de medida do tempo devem variar conforme os mundos já que os períodos astronômicos são diferentes; é assim, por exemplo, que, em Júpiter, os dias equivalem a dez das nossas horas e os anos por volta de doze anos terrestres.

Existe, pois, para cada mundo uma maneira diferente de suputar a duração segundo a natureza das revoluções astrais que aí se realizam; isto já será uma dificuldade para a determinação de nossas datas por Espíritos que não conheçam nosso mundo. Mas, fora dos mundos, estes meios de apreciação não existem. Para um Espírito, no Espaço, não existe nem levante nem poente do Sol marcando os dias nem revolução periódica mascando os anos; só existe para ele a duração e o espaço infinitos. (Cap. VI, n° 1 seguintes). Aquele que, pois,  jamais veio à Terra, não terá nenhum conhecimento de nossos cálculos, que de resto, ser-lheiam completamente inúteis; e tem mais: aquele que nunca tenha se encarnado em algum mundo não terá nenhuma noção das frações da duração de tempo. Quando um Espírito estranho à Terra vem aqui se manifestar, ele só pode assinalar datas dos eventos que se identificam com nossos usos, o que está, sem dúvida, em seu poder, mas o que muitas vezes, ele não julga fácil de fazê-lo.

16. – O modo de suputação (cômputo) da duração do tempo é uma convenção arbitrária feita entre os encarnados pela necessidade da vida corpórea de relação. Para medir a duração como nós, os Espíritos só poderiam fazê-lo com o auxílio de nossos instrumentos de precisão que não existem na vida espiritual.

Conforme os Espíritos que compõem a população invisível do nosso globo onde eles já viveram e onde continuam vivendo em nosso meio, estão naturalmente identificados com nossos hábitos, dos quais portam a lembrança na erraticidade. Têm, pois, menos dificuldade que os outros a se pôr em nosso ponto de vista pelo que concerne aos usos terrenos; na Grécia, eles computam por olimpíadas; alhures, por períodos lunares ou solares, conforme os tempos e os lugares. Poderiam, por consequência, mais facilmente assinalar uma data para os acontecimentos futuros desde que a conheçam; mas, por outro lado, que não lhe o é sempre permitido, ficam impedidos, por esta razão, já que todas as vezes, as circunstâncias dos pormenores estão subordinadas ao livre arbítrio e à decisão eventual do homem, a data precisa não existe, realmente senão quando a ocorrência tiver acontecido.

Eis porque as predições circunstanciais não podem oferecer certeza e não devem ser aceitas senão como probabilidades, no caso, mesmo em que não tragam consigo um carimbo de legítima suspeição. Também os Espíritos sábios nunca predizem nada em épocas fixas; eles se cercam em nos pressentir a descendência das coisas que nos sejam úteis em conhecer.

Insistir por ter pormenores precisos é expor-se às mistificações dos Espíritos frugais, que predizem tudo o que se queira sem se preocupar com a verdade e divertem-se dos pavores e das decepções que causem.

As predições que oferecem maior probabilidade são as que têm um caráter de utilidade geral e humanitário; não é preciso computar sobre as outras senão quando elas são cumpridas. Podese, conforme as circunstâncias, aceitá-las a título de advertência, mas será imprudência agir prematuramente em vista de sua realização num dia fixo. Pode-se ter por certo que muitas delas são circunstanciais, muitas delas suspeitas.

17. – A forma assaz geralmente empregada até aqui pelas predições se faz de verdadeiros enigmas frequentemente indecifráveis. Esta forma misteriosa e cabalística com que Nostradamus oferece o tipo o mais completo, dá-lhe um certo prestígio aos olhos do vulgar que lhe atribui tanto mais valor quanto sejam mais incompreensíveis. Por sua ambiguidade elas se prestam a interpretações muito distintas, de tal sorte que, conforme o sentido atribuído a certas palavras alegóricas ou de convenção, a maneira de computar o cálculo bizarramente complicado das datas, e com um pouco