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Livro Obras Póstumas

ALLAN KARDEC
3 DE OUTUBRO DE 1804 • 31 DE MARÇO DE 1869
FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA
Tradução de Guillon Ribeiro

 

Livro Obras Póstumas – OP

PRIMEIRA PARTE

CAUSA E NATUREZA DA CLARIVIDÊNCIA SONAMBÚNICA

CONHECIMENTO DO FUTURO – PREVISÕES

Se no estado sonambúlico as manifestações da alma se tornam em parte ostensivas, seria absurdo pensar que no estado normal ela fique completamente encarcerada em seu invólucro, como o caramujo na concha. Não é a influência magnética que a faz manifestar-se; essa influência torna-a patente, em virtude da ação que exerce sobre os nossos órgãos. Ora o estado sonambúlico nem sempre é condição indispensável para esta manifestação. As faculdades, que temos visto produzirem-se naquele estado, desenvolvem-se algumas vezes no estado normal em alguns indivíduos. Resulta daí, para esses, a faculdade de ver além dos limites dos sentidos. Percebem as coisas ausentes até onde se estende a ação da alma; vêm, se assim nos podemos expressar, através da vista ordinária, e os quadros, que descrevem, bem como os fatos que relatam, se lhes apresentam como por uma miragem. É o fenômeno designado pelo nome de dupla vista.

No sonambulismo, a clarividência é produzida pela mesma causa com a diferença única de ser insulada, independentemente da vista corporal, ao passo que naqueles que a possuem no estado de vigília, as duas vistas são simultâneas. A vista dupla quase nunca é permanente, produzindo-se espontaneamente, em momentos dados, independentemente da vontade e provocando uma espécie de crise, que, às vezes, modifica sensivelmente o estado físico. Os olhos têm uma expressão vaga, parecendo que olham sem ver. Toda a fisionomia revela uma espécie de exaltação.

É para notar que as pessoas dotadas desse poder não fazem dele cabedal. Julgam-no tão natural como o de ver pelos olhos. Consideram-no um simples atributo do ser. Acresce que o esquecimento se segue, muitas vezes, a esta lucidez passageira, cuja lembrança cada vez mais vaga, acaba por desaparecer, como a de um sonho.

Há muitos graus na intensidade da vista dupla, desde a sensação confusa, até a percepção tão clara e tão nítida do sonâmbulo. Falta-nos um termo para designar este estado especial e, sobretudo, os indivíduos, que são dele susceptíveis. Temo-nos servido da palavra vidente, que, até segunda ordem adotaremos, embora não exprima bem o pensamento.

Se, depois do que fica exposto, aproximarmos os fenômenos da clarividência sonambúlica dos da vista dupla, compreenderemos como o vidente pode ter a percepção das coisas ausentes, como pode ver à distância do mesmo modo que o sonâmbulo e como segue o curso dos acontecimentos, julga da direção que eles levam e pode, em alguns casos, prever o desfecho que terão. O dom da vista dupla é o que, no estado rudimentar, dá a uns tantos indivíduos o ato, a perspicácia, uma tal ou qual segurança em suas resoluções e o que pode ser chamado como justeza de vista moral; mais desenvolvido ainda, dá o conhecimento dos acontecimentos que estão iminentes e, levado ao máximo, finalmente, é o êxtase do homem acordado.

O fenômeno da vista dupla, como já o dissemos, é quase sempre natural e espontâneo; parece, porém, produzir-se mais freqüentemente sob o influxo de determinadas circunstâncias os tempos de crises, calamidades, grandes comoções, todas as causas, enfim, de sobre-excitações morais, provocam-lhe o desenvolvimento. Parece que a Providência, na iminência dos grandes perigos, nos multiplica as faculdades de preveni-los.

Tem havido videntes em todos os tempos e em todas as nações, mas parece que certos povos possuem mais naturalmente esta disposição. Dizem que, na Escócia, é muito comum a vista dupla, que se encontra também muito freqüentemente na gente do campo e nos habitantes das montanhas.

Os videntes têm sido considerados por modos diversos, segundo os tempos, os costumes e o grau de civilização; os céticos os tomam por homens de cérebro desequilibrado, por alucinados; as sei tas religiosas os consideram profetas, sibilas, oráculos; nos séculos de superstição e de ignorância eram tidos por feiticeiros e os arrastavam à fogueira. Para o homem sensato, que acredita no poder infinito da natureza e na inesgotável bondade do Criador, a dupla vista é uma faculdade inerente à especie humana, pela qual Deus nos revela a existência da nossa essência espiritual. Quem pode deixar de reconhecer um dom desta natureza em Joana D’Arc e em muitos outros personagens que a história qualifica de inspirados?

Muito se tem falado das cartomantes, que surpreendem pela verdade do que dizem. Não somos apologistas dos dizedores da buena-dicha, que exploram a credulidade dos espíritos fracos e cuja linguagem ambígua se presta a todas as combinações de uma imaginação excitada; mas não é impossível que possuam o dom da dupla vista, mesmo inconscientemente e, neste caso, as cartas não são em suas mãos senão um meio, um pretexto, um assunto para a conversação. Elas falam do que vêem e não do que dizem as cartas, em que mal olham.

Há outros meios de adivinhação tais como as linhas das mãos, as manchas do café, a clara do ovo e outros símbolos místicos.

Os sinais das mãos têm talvez maior valor do que todos os outros meios, não por si mesmos, mas porque o pretendido adivinho, tomando e apalpando a mão do consultante, se for dotado da dupla vista, se põe em relação mais direta com eles como se dá nas consultas sonambúlicas.

Pode classificar-se o médium vidente entre as pessoas que gozam da vista dupla. Com efeito, os médiuns videntes, como aquelas, julgam ver pelos olhos, quando na realidade é a alma que vê, razão pela qual vêem tão bem com os olhos abertos, como fechados. Resulta daí que um cego pode ser médium vidente tão perfeitamente como quem goza da plenitude da vista. Seria um estudo bem interessante saber se aquela faculdade é ou não mais freqüente nos cegos.

Cremos piamente — o que pode ser provado pela experiência — que a privação de relações com o mundo exterior devido à falta de certos sentidos dá, em geral, maior poder à faculdade de abstração da alma e, por conseguinte, maior desenvolvimento ao senso íntimo, pelo qual ela se comunica com a esfera espiritual.

Os médiuns videntes podem, portanto, ser comparados às pessoas que têm a vista espiritual; mas seria talvez absurdo demais considerar estas como médiuns, porque, consistindo a mediunidade na intervenção dos Espíritos, não deve ser considerada ação mediúnica, o que é obra do próprio Espírito. Quem possui a vista espiritual vê pelo seu próprio espírito e nenhuma necessidade tem do concurso de um Espírito estranho.

Isto posto, examinemos até que ponto a faculdade da dupla vista permite descobrir as coisas ocultas e penetrar o futuro.

Em todos os tempos, têm os homens procurado conhecer o futuro, e seria preciso escrever volumes para descrever os meios inventados pela superstição no intuito de levantar o véu, que cobre o nosso destino. Sábia foi a natureza por no-lo ocultar.

Cada um de nós tem a sua missão providencial na grande colméia humana e concorre para a obra comum com o seu contingente, na medida da sua atividade. Se conhecêssemos pois de antemão o fim confiado ao nosso esforço, a harmonia geral seria indubitavelmente perturbada. Quem contasse com o futuro feliz, ficaria inativo por não precisar trabalhar para conseguir o fim a que se propusera, o seu bem-estar; e então todas as forças físicas e morais seriam paralisadas e retardada a marcha progressiva da humanidade. Aquele que tivesse certeza de vir a ser desgraçado, seria levado às mesmas conseqüências pelo desânimo, tendo por inútil lutar contra os decretos do destino. O conhecimento absoluto do futuro seria pois um presente funesto, que nos levaria ao fanatismo, o mais perigoso dos dogmas, o mais antipático ao desenvolvimento das idéias.

A incerteza do fim, para que viemos à vida terrestre, é o que nos obriga a trabalhar enquanto nos bate o coração. O viajante de um veículo em disparada abandona-se à sorte e não tenta salvar-se por conhecer que não pode conter ou dirigir os cavalos. Assim seria o homem, se lhe fosse dado o conhecimento de seu destino irrevogável.

Se os videntes pudessem infringir a sábia lei da Providência, seriam iguais à divindade; tal porém não é a sua missão. No fenômeno da dupla vista a alma, em parte desligada do invólucro material, que lhe tolhe o amplo exercício das faculdades, não prende mais a duração e a distância; abrangendo o tempo e o espaço, tudo se reduz ao presente. Livre das dificuldades da matéria, julga os efeitos e as causas melhor do que podemos fazer; vê as conseqüências das coisas presentes e pode-nos fazer pressenti-las. É nesse sentido que deve entender-se o dom da presciência atribuído aos videntes. As suas previsões são o resultado de uma consciência mais nítida do que existe e não uma predileção de coisas fortuitas, sem ligação com o presente; há nelas a dedução lógica do conhecido para o desconhecido, que depende muitas vezes do nosso modo de agir.

Quando um perigo nos ameaça, se temos dele ciência, podemos empregar os meios de evitá-lo; temos, ao menos, liberdade de fazê- lo ou não. Em tais casos, os videntes descobrem-no, dão-nos aviso, indicam o seu curso. Suponhamos uma carruagem percorrendo um caminho, que vai dar a um abismo, desconhecido do condutor; é intuitivo que se ninguém a desviar, ela se precipitará nele; mas suponhamos um homem colocado em posição de descortinar todo o caminho, e que, vendo a perda inevitável do viajante, o adverte do perigo, que o espera; este será conjurado. Da sua posição dominando o espaço, ele vê o que o viajante, cuja vista é limitada pelos acidentes do terreno, não pode distinguir. Pode ver qualquer coisa fortuita que possa evitar a queda e, então, conhecendo antecipadamente o desenrolar do acontecimento, pode predizê-lo. Se esse mesmo homem, colocado no alto de uma montanha, vir ao longe uma força inimiga dirigindo-se para uma aldeia que vão incendiar, ser-lhe-á fácil, calculando o espaço e a velocidade, prever o momento da chegada. Se descendo à aldeia ele disser simplesmente: a tal hora será incendiada a aldeia, e se aquele fato se realizar, passará, aos olhos da multidão ignorante, por adivinho ou feiticeiro. Entretanto, a verdade é ter ele visto o que os outros não podiam ver e disto haver tirado as conseqüências.

Como este homem, o vidente descobre e segue o curso dos acontecimentos; não prevê o desfecho porque tenha o dom de adivinhar, mas simplesmente porque vê. Pode então dizer-vos se estais no bom caminho, pode indicar-vos o melhor, anunciaremos o que vos esperava no fim da viagem, ser enfim o fio de Ariadne, que vos permitirá sair do labirinto.

Grande é, como se vê, a distância que vai disto à predição propriamente dita, tal como a entendemos na acepção vulgar da palavra. Nada se tira ao livre-arbítrio, mediante o qual o homem pode agir ou não, embaraçar ou deixar franco o desenrolar dos acontecimentos, fazer ou não fazer uso dos meios indicados para evitar o perigo. Supor o homem submetido à inexorável fatalidade com relação aos mínimos acontecimentos da vida é despojá-lo do seu mais belo atributo — a inteligência é assemelhá-lo ao bruto.

O vidente não é portanto, um adivinho, mas um homem que percebe o que escapa aos outros ou, relativamente a nós, o cão do cego. Nada disto, conseguintemente, contraria as vistas da Providência sobre o segredo do nosso destino; é ela mesma que nos dá um guia. Esse é o modo como deve ser considerado o conhecimento do futuro pelas pessoas de dupla vista.

Se o futuro fosse coisa fortuita, se dependesse do chamado acaso, se não tivesse relações com o presente, não haveria clarividência que o penetrasse e toda a previsão seria susceptível de falhar.

O vidente verdadeiro e sério, — não o charlatão, que usa de simulação, ledor de buena dicha — prevê o desenlace do que vê e nada mais. E isto já é muito.

Quantos erros, quantas tentativas inúteis de falsos caminhos poderíamos evitar se tivéssemos sempre um guia seguro para nos esclarecer? Quanta gente se perde por não haver seguido o rumo que a natureza havia traçado às suas faculdades? Quanta falta por ter aceito os conselhos de uma obstinação irrefletida!

Um guia ter-lhe-ia dito:

“Não tenteis isso, porque as vossas faculdades intelectuais são impotentes para tanto, porque não convém nem ao vosso caráter, nem à constituição física; ou então, porque não sereis auxiliados eficazmente; ou ainda, porque vos iludis sobre o alcance do que pretendeis e encontrareis essa ou aquela dificuldade que não prevedes”.

Em outras circunstâncias ter-lhe-ia também dito:

“Sereis bem sucedidos se vos comportardes desta ou daquela maneira, se evitardes fazer isto ou aquilo, que pode comprometer-vos”.

Sondando as disposições e os caracteres, dir-lhe-ia então:

“Desconfia de tal laço, que vos armam” e acrescentaria: — “Estais prevenido, cumpri o meu dever, mostrando-vos o perigo; se sucumbirdes, não acuseis o destino, nem a fatalidade, nem a Providência, mas somente a vós mesmos. Que pode o médico, quando o doente não faz caso dos seus conselhos”?*


*OBSERVAÇAO: A precognição foi um dos fenômenos provados cientificamente pelas pesquisas parapsicológicas na Universidade norte-americana de Duke, Carolina do Sul. Mas a primeira prova se deu na Universidade de Cambridge, Inglaterra, através das famosas experiências do Prof. Whately Carington. Na Universidade de Londres o Prof. Soal confirmou essas provas, posteriormente confirmadas também por numerosos outros investigadores em diversas Universidades européias e americanas. A teoria de Kardec, formulada neste capítulo, nada fica a dever às teorias atuais. Pelo contrário, mostra-se mesmo inegavelmente mais lógica do que muitas proposições recentes. Precognição é o nome científico dos fenômenos de previsão ou de profecia. (N. do Rev.)