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Livro Obras Póstumas

ALLAN KARDEC
3 DE OUTUBRO DE 1804 • 31 DE MARÇO DE 1869
FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA
Tradução de Guillon Ribeiro

 

Livro Obras Póstumas – OP

PRIMEIRA PARTE

CAUSA E NATUREZA DA CLARIVIDÊNCIA SONAMBÚNICA

FOTOGRAFIA E TELEGRAFIA DO PENSAMENTO

A fotografia e a telegrafia do pensamento são questões até hoje apenas afloradas. Como todas as que se não prendem às leis de caráter essencialmente universal, têm sido atiradas à margem, conquanto seja capital a sua importância, por encerrar os elementos de estudos necessários ao esclarecimento de grande número de problemas ainda insolúveis.

Quando um artista de talento se propõe a fazer um quadro magistral, a que consagra todo o gênio, dá, primeiramente, os traços gerais, de modo a compreender, pelo esboço, o resultado que espera obter. Só depois de ter minuciosamente elaborado o plano geral é que entra na execução das particularidades. E, posto que este trabalho precise ser executado com mais cuidado do que o esboço, impossível seria, entretanto, executá-lo, se este não tivesse precedido. É o que se dá com o Espiritismo.

As leis fundamentais, os princípios genéricos, cujas raízes existem no espírito de todo ser criado, foram elaborados desde a origem. As demais questões, quaisquer que sejam, dependem daquelas leis e daqueles princípios, daí a razão de ter sido, por algum tempo, desprezado ou negligenciado o estudo direto delas.

De fato, não se pode logicamente falar da fotografia e da telegrafia do pensamento sem ter, previamente, demonstrado a existência da alma, que põe em ação os elementos fluídicos e a existência dos fluidos, que permitem as relações de duas almas. Ainda hoje, sabe Deus quanto estamos mal aparelhados para dar a estes problemas solução definitiva. Não obstante, tentaremos alguns trabalhos que facilitem um estudo mais completo.

O homem, limitado em seus pensamentos e aspirações, tendo restritos horizontes, é obrigado a concretizar e a rotular os seus futuros estudos sobre os dados adquiridos. As suas primeiras noções vêm-lhe pelo sentido da vista; é a imagem de um objeto que lhe dá o conhecimento desse objeto e a certeza de que ele existe. Adquirindo o conhecimento de muitos objetos, tirando deduções das impressões diferentes que produzem sobre o seu íntimo ser, ele grava na inteligência, pelo fenômeno da memória, a quintessência de tais objetos e de tais deduções. A memória é uma espécie de álbum, mais ou menos volumoso, que se folheia, quando se precisa de alguma idéia apagada, da mente, ou de reavivar acontecimentos passados. Este álbum tem sinais gravados nos lugares mais notáveis, e por eles acordam-se imediatamente os fatos que indicam; ao passo que é preciso folheá-lo por muito tempo para recordar outros.

A memória é como um livro. Quando as páginas já estão muito manuseadas e lidas, caem com facilidade, sob os olhos: as folhas, que estão virgens ou que têm sido pouco compulsadas, precisam ser voltadas uma por uma, reproduzirem algum fato a que se tenha prestado pouca atenção. Quando o Espírito encarnado se recorda, a sua memória apresenta-lhe como a fotografia do fato, cuja lembrança procurou. Em geral, os encarnados, que o cercam, nada vêem, porque o álbum está em lugar onde não penetra a sua vista; os Espíritos desencarnados porém vêem e folheiam o livro conosco, e até, em certas circunstâncias, ajudam-nos na procura, ou embaraçam-nos.

O mesmo que se dá entre o encarnado e o Espírito livre se dá entre este e o médium vidente. Quando se invoca a lembrança de certos fatos da existência de um Espírito, a fotografia desses fatos apresenta-se, e o vidente, cuja situação espiritual é análoga à do Espírito livre, vê com ele e, em certas circunstâncias, vê o que o Espírito não pode ver, da mesma sorte que um desencarnado pode folhear na memória de um encarnado, sem que este tenha disso consciência, e recordar-lhe fatos, de que há muito se haja esquecido. Quanto aos pensamentos abstratos, por isto mesmo que existem, tomam uma forma para impressionar o cérebro, devem agir naturalmente sobre este, de algum modo gravar-se nele, e neste caso, como no primeiro, a semelhança, que existe entre os fatos da Terra e do espaço parece perfeita.

O fenômeno da fotografia do pensamento, tendo sido objeto de estudo na Revue, não requer mais que a reprodução de algumas passagens do artigo, em que foi analisado, acompanhadas de novas considerações.

Sendo os fluidos o veículo do pensamento, este age sobre eles, como o som age sobre o ar, e eles transmitem o pensamento como o ar transmite o som.

Pode-se dizer com inteira verdade que há nos fluidos ondas e raios de pensamentos, que se cruzam, sem se confundirem, como há no ar ondas e raios sonoros. Ainda mais: o pensamento criando imagens fluídicas, reflete-se no invólucro perispiritual, como num espelho, ou como se refletem nos vapores do ar as imagens de objetos terrestres. Ali tomam um corpo e de certo modo se fotografam.

Suponhamos o caso de um homem ter a idéia de matar outro. Por mais impassível que fique o seu corpo material, o fluídico é agitado pelo pensamento criminoso, cujas modalidades e pormenores reproduz. Fluidicamente ele executa o gesto e o ato que teve a idéia de praticar. O pensamento cria a imagem da vítima, e toda a cena se pinta, como na tela, tal qual está no seu Espírito. É assim que repercutem no invólucro fluídico os mais secretos movimentos da alma, e que esta pode ler em outra, como num livro, vendo aí o que não é perceptível aos olhos do corpo. Estes vêem as impressões internas, que se refletem na fisionomia: a cólera, a alegria, a tristeza; a alma vê porém pensamentos, que se não traduzem externamente.

Entretanto, se lhe é dado conhecer a intenção e prever-lhe as conseqüências, a alma não pode determinar o momento, em que tais conseqüências se darão, nem precisar minúcias ou mesmo afirmar que se darão, porque podem sobrevir circunstâncias que modifiquem o plano e a disposição. Ela não pode ver o que ainda não está no pensamento, mas somente as preocupações momentâneas ou habituais do indivíduo, os seus desejos, projetos e intenções boas ou más; assim se explica o erro nas previsões de alguns videntes.

Quando um acontecimento depende do livre-arbítrio de alguém, os videntes podem pressenti-lo, porque está no pensamento, que eles vêem; mas não podem afirmar que ele se dê, de tal maneira e em tal momento. A maior ou menor exatidão nas previsões dependem também da extensão e da clareza da vista psíquica. Em alguns indivíduos, encarnados ou desencarnados, essa vista é limitada a um ponto, ou mais ou menos difusa; ao passo que em outros é clara e abrange inteiramente os pensamentos e vontade, que devem concorrer para a realização de um fato. Acima de tudo, porém, está a vontade superior, que pode, em sua sabedoria, permitir uma revelação, ou não permiti-la. Neste último caso, um véu espesso envolve a vista psíquica por mais perspicaz que seja. (Veja A Gênese — Cap. da Presciência).

A teoria das criações fluídicas e, portanto, da fotografia do pensamento, é uma conquista do Espiritismo moderno e pode ser considerada uma aquisição em princípio, ficando à observação determinar-lhe as aplicações aos casos particulares. Este fenômeno é incontestavelmente a origem das visões fantásticas e deve representar importante papel em alguns sonhos.

Quem há na Terra que conheça a maneira pela qual se produziram os primeiros meios de comunicação do pensamento? Como se inventaram ou descobriram?

Nada foi inventado; tudo existe em estado latente, competindo ao homem procurar os meios de aproveitar as forças, que lhe oferece a natureza.

Que sabe o tempo que foi preciso para se fazer completamente inteligível a palavra?

O primeiro homem que deu um grito inarticulado tinha certamente a consciência do que desejava exprimir, mas aqueles a quem ele se dirigia seguramente não puderam compreendê-lo; só no correr do tempo foi que vieram as palavras convencionais, depois as frases interjetivas, depois enfim as orações.

Quantos milhares de anos foi preciso para chegar ao ponto em que se acha hoje a humanidade! Cada passo no modo de comunicação entre os homens tem sido sempre determinado por um progresso no estado social. A medida que as relações de indivíduo a indivíduo se estreitam e se tornam mais regulares, sente-se a necessidade de uma linguagem mais rápida e capaz de pôr os homens em relações instantâneas e universais uns com os outros.

Por que motivo o que aconteceu, no mundo físico, com a telegrafia elétrica, não se poderia dar, no mundo moral, com a telegrafia humana, comunicando-se os encarnados? Por que as relações ocultas, que servem de modo mais ou menos consciente, os pensamentos dos homens e dos Espíritos, por meio da telegrafia espiritual, não poderiam generalizar-se, conscientemente, entre os homens?

Telegrafia humana! Eis um assunto para o riso dos que só admitem os sentidos comuns. Que importam, porém, as zombarias dos presunçosos? Todas as suas negações não podem impedir que as leis naturais sigam o seu curso e encontrem novas aplicações a medida que a inteligência humana lhe vá compreendendo os efeitos.

O homem tem ação direta sobre as coisas e as pessoas, que o cercam. Muitas vezes uma pessoa, de quem pouco caso se faz, exerce influência decisiva sobre outras de posição superior. É que na Terra se vêem muito mais máscaras do que rostos, sendo os olhos obscurecidos pela vaidade, pelo interesse pessoal e por todas as más paixões. A experiência nos demonstra que, à nossa própria revelia, podemos influenciar-nos uns aos outros.

Um pensamento superior, bem pensado, se me é permitido servir-me desta expressão, pode, segundo a sua força e elevação, impressionar mais ou menos a homens que nenhuma consciência tenham de se achar sob a sua influência; e também, muitas vezes, aquele que o emite não tem consciência do efeito, que o seu pensamento vai produzir. É um jogo constante das inteligências humanas, resultante da ação recíproca de uma sobre as outras. Juntai a isto a ação dos desencarnados e calculai, se puderdes, a alta potência desta força composta de tantas forças reunidas.

Se fosse possível pôr em evidência o imenso mecanismo que o pensamento põe em atividade, e os efeitos que produz, de um para outro grupo e, enfim, a ação universal dos pensamentos dos homens, uns sobre os outros, o homem ficaria deslumbrado, sentir-se-ia amesquinhado diante desta infinidade de circunstâncias, diante dessa rede infinita; tudo ligado por uma poderosa vontade e agindo harmonicamente para um único fim: o progresso universal.

Pela telegrafia do pensamento pode apreciar-se, em todo o seu valor, a lei da solidariedade, considerando-se que não há um pensamento, criminoso ou virtuoso, que não tenha ação real sobre a massa dos pensamentos humanos e sobre cada um deles. Se o egoísta desconhece a influência de um mau pensamento seu sobre terceiro, procurará corrigir-se e então o próprio egoísmo o levará a refletir sobre o dano que pode causar-lhe o pensamento alheio, pensando melhor e concorrendo para o adiantamento geral.(38)

São efeitos da telegrafia do pensamento essas impressões misteriosas, às vezes violentas, que sentimos e que provêm dos sofrimentos e das alegrias de um ente querido, ausente, em lugar distante. É fenômeno do mesmo gênero o sentimento de simpatia ou de antipatia, que nos atrai ou afasta de determinados Espíritos.

Há nisto certamente um campo imenso aberto à observação, mas de que ainda não temos senão o esboço; o estudo dos pormenores será a conseqüência de um conhecimento mais completo das leis, que regem a ação dos fluidos entre uns e outros.

(38) Temos aqui um exemplo da maneira porque Allan Kardec, graças à sua compreensão global dos problemas, passava facilmente da teoria à prática, dando aplicação moral às suas conclusões científicas. Da técnica da fotografia do pensamento ele passa naturalmente, por necessidade lógica, sem nenhum esforço ou artifício, às conseqüências morais e espirituais das novas leis descobertas. Por outro lado, devemos observar a segurança de Kardec ao afirmar: “A teoria das criações fluídicas, e por conseguinte da fotografia do pensamento, é uma conquista do Espiritismo moderno e pode, de agora em diante, considerar-se estabelecida em princípio, salvo as aplicações de pormenores resultantes da observação”. Trechos como esse nos mostram que Kardec estava plenamente seguro do que afirmava, seguro de suas conquistas científicas no campo da investigação psíquica. Os que hoje o consideram superado, sem sequer se darem ao esforço de estudar as suas obras, têm aqui uma excelente oportunidade de reflexão a respeito da seriedade e da importância atual dos seus trabalhos. (N. do Rev.)