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Livro Obras Póstumas

ALLAN KARDEC
3 DE OUTUBRO DE 1804 • 31 DE MARÇO DE 1869
FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA
Tradução de Guillon Ribeiro

 

Livro Obras Póstumas – OP

PRIMEIRA PARTE

CAUSA E NATUREZA DA CLARIVIDÊNCIA SONAMBÚNICA

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA FOTOGRAFIA E DA TELEGRAFIA DO PENSAMENTO

A ação fisiológica de indivíduo a indivíduo, com contacto ou sem ele, é um fato incontestável. Não se pode, evidentemente, exercê-la senão por intermédio de um agente, cujo reservatório é o nosso corpo, sendo os olhos e os dedos os principais órgãos de emissão e direção.

Esse agente invisível é necessariamente um fluido. Mas qual é a sua natureza? Qual a sua essência? Quais as suas propriedades íntimas? Será um fluido especial ou uma modificação da eletricidade ou de outro fluido conhecido? Será o que se designa pelo nome de fluido nervoso? Não será antes o que chamamos fluido cósmico, quando espalhado na atmosfera, o perispiritual, quando individualizado?

Esta questão é ademais secundária. O fluido perispiritual é imponderável, como a luz, a eletricidade e o calórico. Invisível para nós no estado normal, ele só se revela pelos efeitos; torna-se porém visível no estado de sonambulismo lúcido e até no de vigília, para as pessoas dotadas de dupla vista. No estado de emissão, apresenta-se sob a forma de feixes luminosos, muito semelhantes à luz elétrica difusa no espaço. É esta a sua única analogia com este fluido, pois que não produz, pelo menos ostensivamente, nenhum dos fenômenos físicos, que conhecemos. No estado ordinário, reflete cores diversas segundo os indivíduos; às vezes, o vermelho fraco, em outras, o azul escuro ou pardo, como uma ligeira bruma e na generalidade espalha sobre os corpos vizinhos um colorido amarelo mais ou menos pronunciado.

São idênticos os dizeres dos sonâmbulos e dos videntes acerca da questão, a que teremos de voltar quando tratarmos das qualidades, que dão ao fluido o móvel que lhe imprime o movimento e o adiantamento dos indivíduos, que o emitem.

Nenhum corpo lhe serve de obstáculo, pois que ele a todos atravessa e nenhum se conhece capaz de o isolar. Só a vontade pode dilatar-lhe ou limitar-lhe a ação. A vontade, com efeito, é a sua mais poderosa influência. Por ela dirigem através do espaço os seus eflúvios, acumulam-nos em um dado ponto, saturam certos objetos, ou os retiram dos pontos onde abundam.

Digamos de passagem que é sobre este princípio que se funda o poder magnético que parece ser o veículo da vista psíquica, como o fluido luminoso é o da vista ordinária.(37)

(37) O problema da fotografia do pensamento está novamente na ordem do dia das investigações científicas. Experiências recentes realizadas nos Estados Unidos, na Inglaterra e na Rússia mostram que Kardec tinha razão ao tratar deste assunto, sobre o qual, como vemos pelo título deste trabalho, pretendia realizar estudos mais profundos. As pesquisas atuais do Prof. Eisenbud com o médium Ted Serios, nos Estados Unidos, demonstraram cientificamente a possibilidade de fotografar-se o pensamento, e mais do que isso, obter-se, por esse meio, informações de locais ou de acontecimentos que ocorrem à distância. A fotografia do pensamento está assim ligada a outros tipos de fenômenos paranormais, incluindo a telegrafia do pensamento, de que trata Kardec neste livro e no O Livro dos Médiuns, além de suas referências a respeito no O Livro dos Espíritos. As pesquisas de Eisenbud foram objeto de curiosa reportagem publicada pela Revista Internacional de Espiritismo (Matão, 1970) e de conferências e exposição em programas de televisão do Canal 11, em São Paulo (1970) pelo Prof. Flávio Pereira. Há um curioso livro do Prof. Imoda, italiano, intitulado Fotografias de Fantasmas, em colaboração com Richet e Fontenay, sobre experiências de ideoplastias realizadas com a médium Linda Gazzera. As ideoplastias, formas plásticas de pensamentos, constituem elementos valiosos para o estudo científico do processo pelo qual o pensamento (que não é físico) torna-se acessível às impressões físicas e pode impressionar o filme fotográfico. (N. do Rev.)

O fluido cósmico, posto que emanado de uma fonte universal individualiza-se, por assim dizer, em cada ser, e adquire propriedades características, que permitem distingui-lo entre todos. A própria morte não apaga aqueles caracteres de individualização, que persistem por longos anos, depois da cessação da vida, do que temos tido as provas.

Cada ser tem o fluido próprio, que o envolve e acompanha em todos os seus movimentos, como a atmosfera envolve e acompanha cada planeta. A irradiação dessas atmosferas individuais é variável, quanto à extensão; no estado de repouso completo do Espírito, pode ser de alguns passos; mas, agindo à vontade, pode estender-se indefinidamente. A vontade parece dilatar aquele fluido, como o calor dilata os gases.

As diferentes atmosferas individuais encontram-se, cruzam-se, misturam-se, sem contudo se confundir; absolutamente como as ondas sonoras, que são distintas, apesar da multidão de sons que abalam simultaneamente o ar. Pode-se dizer que cada indivíduo é o centro de uma onda fluídica, cuja irradiação está na razão direta da força volitiva, como cada ponto vibrante é o centro de uma onda sonora, cuja extensão é proporcional à força vibratória. A vontade é a força propulsora do fluido, como o choque é a causa vibratória do ar e propulsora das ondas sonoras.

Das qualidades particulares de cada fluido resulta, entre eles, uma espécie de harmonia ou de desacordo, uma tendência a unirem-se ou a evitarem-se, uma atração ou repulsão, em uma palavra, as simpatias ou antipatias, que se sentem, sem causas conhecidas.

Entrando-se na esfera da atividade de um indivíduo, sente-se uma impressão agradável ou desagradável, segundo os seus fluidos se casam ou se repelem. Se nos achamos no meio de pessoas, de cujos sentimentos não compartilhamos e cujos fluidos não se harmonizam com o nosso, sentimos uma reação penosa e ali representamos a nota dissonante em um concerto. Se, pelo contrário, muitos indivíduos reunidos participam das mesmas vistas e intenções, os sentimentos de cada um exaltam-se, na proporção das volições e dos pensamentos dominantes.

Quem não conhece a força de atração, que nasce das aglomerações, onde há homogeneidade de idéias e de vontades? Mal podemos calcular a quantas influências somos de tal modo submetidos, malgrado nosso. Essas influências ocultas não poderiam ser a causa provocadora de determinados pensamentos, de pensamentos que nos são comuns, instantaneamente, com os de certas pessoas, desses vagos pressentimentos, que nos levam a dizer que alguma coisa há no ar, pressagiando tal ou qual acontecimento? Enfim, não serão efeitos da reação do meio fluídico, em que nos achamos, dos eflúvios simpáticos ou antipáticos que recebemos, que nos envolvem, como as sensações indefiníveis de bem ou mal-estar, de alegria ou de tristeza?

Nada podemos dizer de modo absoluto sobre essas questões; mas é forçoso confessar que a teoria do fluido cósmico, individualizado em cada ser, com o nome do fluido perispiritual, abre um campo completamente novo à solução de uma multidão de problemas fora dela inexplicáveis. Cada um de nós, em seu movimento de translação, arrasta consigo a atmosfera fluídica, como o caramujo arrasta a concha; mas aquele fluido deixa vestígios da sua passagem, deixa como um rastro luminoso, inacessível aos nossos sentidos, no estado de vigília, permitindo entretanto, aos sonâmbulos, aos videntes e aos Espíritos desencarnados, reconstituir os acontecimentos e analisar-lhes as causas.

Toda ação, física, ou moral, patente ou oculta, de um ser sobre si mesmo ou sobre terceiro, supõe, de um lado, uma força ativa, de outro uma sensibilidade passiva. Sempre que colidem duas forças iguais, neutralizam-se; mas quando são desiguais, a mais fraca cede à mais forte. Ora, não sendo todos os homens dotados da mesma energia fluídica, ou por outra, não tendo o fluido perispiritual a mesma força ativa em todos os homens, resulta daí que uns têm poder quase irresistível, enquanto outros lhes são refratários. Estas superioridades e inferioridades relativas dependem evidentemente da organização: mas seria erro acreditar que estão na razão da força ou da fraqueza física.

A experiência prova que homens robustíssimos sofrem algumas vezes a influência fluídica mais facilmente que outros de constituição delicada, e que muitas vezes se encontra nestes uma força, que ninguém poderia supor-lhes. Essa diversidade de ação pode ser explicada de muitas maneiras. A força fluídica, aplicada à ação recíproca dos homens uns sobre os outros, isto é, ao magnetismo, pode depender: 1.° — da soma do fluido que cada um possui; 2.° — da natureza intrínseca do fluido de cada um, com exceção feita da quantidade; 3.° — do grau de energia da força impulsora e talvez destas três causas reunidas.

Na 1ª hipótese, o que tem mais fluido cede ao que tem menos — mais do que ele recebe. Haverá neste caso analogia perfeita com a troca do calórico entre dois corpos para chegarem ao equilibrio da temperatura.

Qualquer que seja a causa desta diferença, podemos apreciar-lhe os efeitos, supondo três pessoas, cuja força fluídica representaremos pelos três números, 10, 5 e 1. O número dez atuará no 5 e no 1, porém mais energicamente neste do que naquele. O número 5 atuará no 1, porém será impotente no 10. Enfim, o número 1 não atuará nem no 5, nem no 10. Tal é a razão por que certos indivíduos são sensíveis à ação de um magnetizador e insensíveis à de outros.

Até certo ponto, pode ainda explicar-se o fenômeno pelas precedentes considerações. Dissemos, com efeito, que os fluidos individuais são simpáticos ou antipáticos entre si. Ora, não poderá dar-se que a ação recíproca de dois indivíduos esteja em razão da simpatia dos fluidos, isto é, da sua tendência a confundirem-se por uma espécie de harmonia, como as ondas sonoras produzidas pelos corpos vibrantes? É indubitável que esta harmonia ou simpatia dos fluidos é uma condição, se não absolutamente indispensável, pelo menos muito preponderante, e que, quando se dá desacordo ou antipatia, a ação não pode ser senão fraca ou nula.

Este sistema explica-nos satisfatoriamente as condições predisponentes da ação; mas não explica de que lado está a força e, admitindo-se ele, somos forçados a recorrer à nossa primeira suposição. Em todo caso, não invalida a conseqüência o resultar o fenômeno de uma ou de outra causa. O fato existe; eis o essencial. Os fenômenos luminosos explicam-se igualmente pela teoria da emissão e pela das ondulações: os da eletricidade pelos fluidos positivos e negativos, vítreos e resinosos.

Em ulterior estudo, apoiando-nos nas precedentes considerações, procuraremos estabelecer o que entendemos por fotografia e telegrafia do pensamento.