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Livro Obras Póstumas

ALLAN KARDEC
3 DE OUTUBRO DE 1804 • 31 DE MARÇO DE 1869
FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA
Tradução de Guillon Ribeiro

 

Livro Obras Póstumas – OP

PRIMEIRA PARTE

ESTUDO SOBRE A NATUREZA DE JEUS CRISTO

I. Origem das Provas da Natureza de Cristo

A questão de saber qual a natureza de Cristo tem sido debatida desde os primeiros séculos do Cristianismo e ainda não foi resolvida, pois que ainda hoje é motivo de discussão. A divergência de opiniões sobre esse ponto foi que originou a maior parte das seitas, que têm dividido a Igreja, há dezoito séculos, e é para notar que os chefes dessas seitas foram bispos ou clérigos. Eram, portanto, homens esclarecidos, na maior parte escritores talentosos, conhecedores da ciência teológica, que não julgava concludentes as razões em favor do dogma da divindade de Cristo.

Entretanto, então como hoje, as opiniões têm-se formado mais sobre abstração do que sobre fatos. Procurou-se, principalmente, o que o dogma pode oferecer de plausível ou de irracional, desprezando-se o estudo dos fatos que dariam decisiva luz. E onde encontrar esses fatos senão nos atos e nas palavras de Jesus?

Jesus nada escreveu, e os seus únicos historiadores, os apóstolos, nada escreveram em vida; nenhum historiador profano, seu contemporâneo, falou dele, não existindo sobre a sua vida e a sua doutrina nenhum documento além dos Evangelhos. Os Evangelhos são, portanto, o único elemento para a solução do problema.

Todos os escritos posteriores, sem excetuar os de São Paulo, não podem passar de comentários ou apreciações, reflexos de opiniões pessoais, muitas vezes contraditórias, que não têm, em caso algum, a autoridade das narrações dos que receberam do Mestre instruções diretas.

Sobre essa questão, como sobre a dos dogmas em geral, o acordo dos padres da Igreja e dos escritores sagrados não pode ser invocado, como argumento preponderante, nem como irrecusável em favor da sua opinião, porquanto nenhum deles citou um fato, relativo a Jesus, fora dos Evangelhos; nenhum deles descobriu documentos novos, desconhecidos dos seus predecessores.

Os autores sagrados têm todos girado dentro do mesmo círculo, fazendo apreciações pessoais, tirando conseqüências a seu modo e bel-prazer, comentando, sob novas formas e com mais ou menos desenvolvimento, as opiniões contraditórias. Todos os do mesmo partido têm escrito no mesmo sentido, senão nos mesmos termos, sob pena de incorrerem na pecha dos herejes, como aconteceu a Orígenes e a tantos outros.

Naturalmente a Igreja não inclui no número dos seus padres senão os escritores ortodoxos ou sejam os que participam do seu modo de encarar a questão. Exaltou, santificou e pôs sob a sua guarda os que lhe tomaram a defesa. Rejeitou e, tanto quanto lhe foi possível, até destruiu os escritos dos que lhe foram contrários. O acordo portanto dos padres da Igreja não é concludente, porque representa uma unanimidade forçada pela exclusão de todo o elemento contrário.

Se se pusesse na balança tudo quanto tem sido escrito pró e contra, quem sabe para que lado penderia ela? Isto não afeta os méritos pessoais dos sustentadores da ortodoxia, nem o seu valor, como escritores e homens conscienciosos; são advogados de uma mesma causa, que defendem com grande talento e que forçosamente devem levar às mesmas conseqüências. Não queremos, pois, feri-los, mesmo de leve, mas simplesmente demonstrar que a sua concordância não prova a verdade das suas opiniões.(39)

No exame, que vamos fazer da questão da divindade de Cristo, pondo à margem as sutilezas da escolástica, que não tem servido senão para obscurecer, em lugar de esclarecer, apoiar-nos-emos exclusivamente em fatos tirados dos textos do Evangelho, os quais, examinados fria e conscientemente e sem preconceitos, fornecem amplamente os meios de convicção, que se podem desejar. Ora, entre aqueles fatos, nenhum mais preponderante, nem mais concludente, do que as palavras de Cristo, que não podem ser recusadas sem lesão da verdade apostólica.

Pode interpretar-se por diversos modos uma parábola, uma alegoria; nunca porém afirmações positivas, sem ambigüidade, cem vezes repetidas, poderiam apresentar-nos sentidos ambíguos. Ninguém pode ter a pretensão de saber melhor do que Jesus o que ele quis dizer, como ninguém pode pretender conhecer, melhor que ele, a sua própria natureza.

Quando comenta as próprias palavras e as explica, a fim de evitar qualquer engano, é forçoso pensar pelo que ele diz, a não se lhe querer negar a superioridade que se lhe atribui substituindo-se à sua inteligência. Se é obscuro a determinados respeitos, quando usa de uma linguagem figurada, tratando da sua pessoa não dá lugar a equívocos possíveis.

Antes de lhe examinarmos as palavras, vejamos as suas obras.(40)


(39) O critério histórico de Kardec nesta tomada de posição é legítimo, verdadeiro e constitui mais uma prova da sua objetividade no exame dos problemas espíritas, seja no campo científico, filosófico ou religioso. O acordo dos Santos Padres em matéria dogmática era necessária e inevitavelmente forçado. O caso de Orígenes, muito bem lembrado, que poderíamos acrescer com o de Tertuliano, é prova inegável disso. Quem discordava dos dogmas aceitos pela maioria era considerado herege. A própria Igreja reconhece hoje os seus erros nesse sentido e inicia, como todos sabem, uma fase nova de sua história, renovando profundamente sua posição e suas atitudes para ajustar-se à atualidade. (N. do Rev.)

(40) As palavras do Cristo poderiam ser postas em dúvida pelos que consideram os Evangelhos como documentos duvidosos. Entretanto, as investigações realizadas sobre as fontes evangélicas por pesquisadores altamente qualificados, no campo cultural, sem ligações eclesiásticas, chegaram a conclusões incontestáveis a respeito da sua validade. As afirmações de Renan, de que os Evangelhos nasceram no próprio círculo dos familiares de Jesus, é hoje confirmada por Charles Guignebert, professor de História do Cristianismo na Sorbonne, como podemos ver em seus monumentais estudos Jésus e Le Christ editados por Albin Michel, Paris, 1947 e 1948, respectivamente. Assim, a confiança de Kardec nos textos se confirma pelos estudos e as pesquisas não comprometidas com setores religiosos. A descoberta dos chamados Manuscritos do Mar Morto, a partir de 1947, embora representando importante contribuição para o esclarecimento histórico dos inícios do Cristianismo, não chegou a afetar a situação do problema específico dos textos evangélicos. Por tudo isso, a posição de Kardec é válida. (N. do Rev.)