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Livro Obras Póstumas

ALLAN KARDEC
3 DE OUTUBRO DE 1804 • 31 DE MARÇO DE 1869
FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA
Tradução de Guillon Ribeiro

 

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Livro Obras Póstumas – OP

PRIMEIRA PARTE

ESTUDO SOBRE A NATUREZA DE JEUS CRISTO

II. A Divindade de Cristo fica Provada pelos Milagres?

Segundo a Igreja, a divindade de Cristo é principalmente firmada nos milagres, testemunho do seu poder sobrenatural. Semelhante consideração pode ter tido voga em épocas em que o maravilhoso era aceito sem exame: hoje porém, que a ciência levou as suas investigações até às leis da natureza, os milagres já não têm grande aceitação, havendo concorrido muito para o seu descrédito as imitações fraudulentas e as exploracões que deles se têm feito.

A fé nos milagres gastou-se pelo uso, resultando daí que os do Evangelho já são por muitos considerados puramente lendários. A Igreja, ademais, é a primeira a tirar-lhes o valor, como prova da divindade de Cristo, declarando que o demônio pode fazer os mesmos prodígios. Se o demônio tem o poder de fazer milagres, fica evidente que estes não têm caráter exclusivamente divino. Se pode fazer coisas pasmosas, de modo a seduzir os próprios eleitos como poderão os simples mortais distinguir os milagres bons dos maus, e não é para recear que, vendo fatos similares, confundam Deus com Satanás? Dar a Jesus aquele rival é lastimável, mas numa época, em que os fiéis não podiam pensar por si próprios e menos discutir qualquer artigo de fé, que lhes era imposta, não se fazia mister evitar contradições e inconseqüências. Não se contava com o progresso, não se pensava que acabaria, um dia, o reino da fé cega e simplória, reino cômodo como o dos prazeres.

O papel preponderante, que a Igreja se obstina em dar ao demônio, produziu conseqüências desastrosas para a fé, quando os homens foram conhecendo que podiam ver com os próprios olhos. O demônio, que se explorou com sucesso por algum tempo, se tornou o caruncho do velho edifício das crenças e uma das principais causas da incredulidade.

Pode-se dizer que a Igreja, fazendo-o seu auxiliar indispensável, aqueceu em seu seio o inimigo, que devia voltar-se contra ela para minar-lhe os fundamentos.

Outra consideração não menos grave é que não são um privilégio da religião cristã os fatos miraculosos. Não há religião, idólatra ou pagã, que não tenha os seus milagres, tão maravilhosos e tão autênticos para os seus adeptos, como os do Cristianismo. A Igreja não pode ter o direito de contestá-los, uma vez que atribui às potências infernais o poder de produzi-los.

O caráter essencial do milagre, no sentido teológico, é ser uma exceção às leis da natureza e, por conseguinte, inexplicável por estas leis. Desde que um fato possa ser explicado e decorra de uma causa conhecida, deixa de ser milagre. É assim que os descobrimentos da ciência têm feito entrar no domínio do natural certos efeitos considerados milagres, porque eram ignoradas as suas causas.

Mais tarde, o conhecimento do princípio espiritual, da ação dos fluidos sobre a economia do mundo invisível no meio do qual vivemos, das faculdades da alma, da existência e das propriedades do perispírito, trouxe a chave dos fenômenos de ordem psíquica e provou que eles não são derrogações das leis da natureza, mas o seu resultado direto.

Todos os efeitos do magnetismo, do sonambulismo, do êxtase, da dupla vista, do hipnotismo, da catalepsia, da letargia, da transmissão do pensamento, da presciência, das curas instantâneas, das possessões, das obsessões, das aparições e transfigurações, etc., que constituem a quase totalidade dos milagres do Evangelho, pertencem a esta categoria de fenômenos. Sabe-se que estes efeitos são resultantes de aptidões e disposições fisiológicas especiais, que esses efeitos se têm produzido em todos os tempos, em todos os povos, e têm tido o cunho de milagres tanto como os que procediam de causas impenetráveis. Isto dá a razão porque todas as religiões têm os seus milagres, que não passam de fatos naturais, ampliados até ao absurdo pela credulidade, a ignorância e a superstição, estando hoje reduzidos ao seu justo valor pelo progresso dos conhecimentos humanos.

A possibilidade da maior parte dos fatos, que o Evangelho cita como praticados por Jesus, está completamente demonstrada, pelo magnetismo e pelo Espiritismo, que são puros fenômenos naturais. Pois que eles se produzem aos nossos olhos, espontaneamente ou provocados, porque não podia Jesus possuir faculdades idênticas às dos nossos magnetizadores, curadores, sonâmbulos, videntes, médiuns, etc.?

Desde que essas faculdades se manifestam, em graus diferentes, numa multidão de indivíduos, que nada têm de divinos, pois se manifestam até em hereges e idólatras —é claro que não reclamam uma natureza sobre-humana. Se Jesus qualificava os seus atos de milagres, é porque nisto, como em muitas outras relações, devia apropriar a linguagem aos conhecimentos dos seus contemporâneos. Como poderiam eles apanhar a acepção de uma palavra, que ainda hoje nem todos compreendem? Para o vulgo, as coisas extraordinárias, que ele fazia, e que pareciam sobrenaturais naquele tempo e até muito depois, eram milagres e não podia dar-lhes outro nome. Um fato digno de nota é que ele se serviu desses milagres para afirmar a missão que recebera de Deus, mas nunca para se atribuir o poder divino.(*) É preciso, pois, riscar os milagres da lista das provas da divindade de Cristo. Vejamos se as encontramos em suas palavras.(41)


(*) Para o desenvolvimento completo da questão dos milagres, vide A Gênese _ Os Milagres e as Previsões segundo o Espiritismo, capítulo XIII e seguintes, onde são explicados todos os milagres do Evangelho, de acordo com as leis naturais. (N. de Kardec)

(41) A colocação deste problema está perfeitamente atualizada. Até mesmo a lista de milagres referidos por Kardec corresponde aos fenômenos atualmente comprovados pela pesquisa parapsicológica. Os milagres do Evangelho, como os de todas as escrituras religiosas do mundo, não são invalidados pelo Espiritismo, que apenas lhes tira o caráter de ocorrências sobrenaturais, enquadrando-os na concepção natural do Universo e do homem que as ciências vêm elaborando. Se, de um lado, a prova da divindade do Cristo pelos milagres é negada, de outro lado a prova da sua humanidade é confirmada. O Filho de Deus toma o seu lugar de Filho do Homem, por ele mesmo afirmado, integrando-se na Humanidade. Mas nem assim desaparece a sua divindade, como veremos adiante, pois ela se reafirma num sentido mais amplo, sem o particularismo exclusivista que lhe quiseram dar. Este pequeno estudo de Kardec é de uma profundidade ainda não percebida pela maioria dos próprios espíritas. (N. do Rev.)

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