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Livro Obras Póstumas

ALLAN KARDEC
3 DE OUTUBRO DE 1804 • 31 DE MARÇO DE 1869
FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA
Tradução de Guillon Ribeiro

 

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Livro Obras Póstumas – OP

PRIMEIRA PARTE

ESTUDO SOBRE A NATUREZA DE JEUS CRISTO

III. A Divindade de Jesus é Provada pelas Suas Palavras?

Dirigindo-se aos discípulos, que disputavam por saber qual deles era o maior, disse-lhes Jesus, chamando a si uma criança:

“E todo o que receber a mim, recebe aquele que me enviou; porque quem dentre vós todos é o menor, esse é o maior. (S. LUCAS, IX, 48).

“Todo o que receber um destes meninos em meu nome a mim me recebe, e todo o que me receber não me recebe a mim, mas recebe aquele que me enviou” (S. MARCOS, IX, 46).

Jesus lhes disse ainda:

“Se Deus fosse vosso pai, vós certamente me amaríeis, porque eu saí de Deus, e vim; porque não vim de mim mesmo, mas foi ele quem me enviou”. (S. JOÃO, VIII, 42).

Jesus lhes disse mais:

“Ainda por um pouco de tempo estou convosco; e depois vou para aquele que me enviou”. (S. JOÃO. V. 33).

“O que a vós ouve, a mim ouve; e o que a vós despreza, a mim despreza; e quem a mim despreza, despreza aquele que me enviou”. (S. LUCAS X, 16).

O dogma da divindade de Jesus funda-se na absoluta igualdade da sua pessoa com Deus, sendo ele mesmo Deus; é isto artigo de fé. Ora, estas palavras tantas vezes repetidas por Jesus — Aquele que me enviou, — revelam não somente a dualidade de Jesus e de Deus, mas ainda, como temos dito, excluem a igualdade absoluta entre eles, porque o que é enviado, necessariamente é subordinado ao que envia: obedecendo, pratica um ato de submissão.

Um embaixador, falando do seu soberano, dirá: meu senhor, o que me envia; mas, se é o soberano que vem em pessoa, falará em seu próprio nome e não dirá: aquele que me enviou, porque não se pode enviar a si mesmo.

Jesus o disse em termos categóricos: eu não vim de modo próprio, mas foi Ele que me enviou. Estas palavras: Aquele que me despreza, despreza o que me enviou, não implicam igualdade e muito menos identidade. Desde todos os tempos, o insulto feito a um embaixador foi considerado como feito ao próprio soberano. Os apóstolos tinham a palavra de Jesus, como Jesus tinha a de Deus; quando lhes disse: Aquele que vos escuta, me escuta, não queria certamente dar a entender que os seus apóstolos e ele não eram senão uma só e a mesma pessoa, iguais em tudo.(42)

A dualidade das pessoas, assim como o estado secundário e subordinado de Jesus, relativamente a Deus, ressaltam, sem equívoco, das seguintes palavras:

“Mas vós outros sois os que haveis permanecido comigo nas minhas tentações.

E por isso eu preparo o reino para vós outros, como meu Pai o tem preparado para mim, para que comais e bebais à minha mesa, e vos senteis sobre tronos para julgar as doze tribos de Israel”. (S. LUCAS, XII, 28, 29 e 30).

“Eu não falo senão do que vi em meu Pai, e vós fazeis o que vistes em vosso pai”. (S. JOÃO, VIII, 38).

“E formou-se uma nuvem, que lhe fez sombra, e saiu uma voz da nuvem, que dizia: Este é meu Filho diletíssimo: ouvi-o”. (Transfiguração — S. MARCOS, IX, 6).

“Mas quando vier o Filho do homem na sua majestade e todos os anjos com ele, então se assentará sobre o trono da sua majestade;

E serão todas as gentes congregadas diante dele; e separará uns dos outros, como o pastor aparta dos cabritos as ovelhas;

E assim porá as ovelhas à direita e os cabritos à esquerda.

Então dirá o rei aos que hão de estar à sua direita: vinde, benditos de meu Pai; possuí o reino que vos está preparado desde o princípio do mundo”. (S. MATEUS, XXV, 31 a 34).

“Todo aquele, pois que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus;

E o que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai, que está nos céus”. (S. MATEUS, X, 32 e 33).

“Ora, eu vos declaro que todo o que me confessar diante dos homens, também o Filho do homem o confessará ante os anjos de Deus;

O que, porém, me negar diante dos homens também será negado na presença dos anjos de Deus”. (S. LUCAS, XII, 8 e 9).

“Porque se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o Filho do homem se envergonhará dele, quando vier na sua majestade, e na de seu Pai e santos anjos”. (S. LUCAS, IX, 26).

Nestas duas últimas passagens, Jesus parece até colocar os santos anjos acima de si, compondo o tribunal celeste, perante o qual ele será o advogado dos bons e o acusador dos maus.

…”mas pelo que toca a terdes assento à minha mão direita ou à esquerda, não me pertence a mim o dar-vo-lo; mas isso é para aqueles para quem está preparado por meu Pai”. (S. MATEUS, XX, 23).

“E estando juntos os fariseus, lhes fez esta pergunta:

Que vos parece a vós do Cristo? De quem é ele filho? Responderam-lhe: De Davi. Jesus lhes replicou: Pois como lhe chama Davi em espírito seu Senhor, dizendo:

Disse o Senhor ao meu Senhor: Senta-te à minha mão direita, até que eu reduza os teus inimigos a servirem de escabelo de teus pés? Se, pois, Davi o chama Senhor, como é ele seu filho? (S. MATEUS, XII, 41 a 45).

“E falando Jesus, dizia, ensinando no templo: Como dizem os escribas que o Cristo é filho de Davi?

Porque o mesmo Davi por boca do Espírito Santo diz: Disse o Senhor ao meu Senhor: Senta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por estrado de teus pés.

Pois se o mesmo Davi Ihe chama Senhor, como é ele logo seu filho?…” (S. MARCOS, 35 a 37. Vide S. LUCAS, XX, 41 a 44).

Jesus consagra por estas palavras o princípio da diferença hierárquica que existe entre o Pai e o Filho. Podia ele ser filho de Davi por filiação corporal, como descendente da sua raça, e é por isso que pergunta: como o chama ele, em espírito, seu senhor? Se há uma diferença hierárquica entre o Pai e o Filho, Jesus, como filho de Deus, não pode ser igual a Deus. Ele confirma esta interpretação e reconhece a sua inferioridade relativamente a Deus, em termos que não admitem a menor contestação:

“Já tendes ouvido que eu vos disse: Eu vou, e venho a vós. Se vós me amais, certamente haveis de folgar que eu vá para o Pai, porque o Pai é maior do que eu”. (S. JOÃO, XVI, 28).

“Eis que chegando-se a ele, um lhe disse: Bom mestre, que obras boas devo eu fazer para alcançar a vida eterna?

Jesus lhe respondeu: Porque me perguntas tu o que é bom? Bom só Deus o é. Porém, se tu queres entrar na vida, guarda os mandamentos”. (S. MATEUS, XII, 16 e 17. Vide S. MARCOS, X, 17 e 18; S. LUCAS, XVIII, 18 e 19).

Não somente Jesus nunca se deu por igual a Deus: mas até afirma aqui o contrário muito positivamente, declarando-se inferior a ele em bondade. Ora, declarar que Deus é superior a ele em poder e em qualidades morais, é confessar que não é Deus.

As seguintes passagens, tão explícitas como aquelas, vêm corroborá-las:

“Porque eu não falo de mim mesmo; mas o Pai que me enviou é o mesmo que me prescreveu pelo seu mandamento o que eu devo dizer e o que devo falar;

E eu sei que o seu mandamento é a vida eterna. Assim que, o que eu digo, digo-o segundo me disse o Pai”. (S. JOÃO, XII, 49 e 50).

“Respondeu-lhe Jesus, e disse: A minha doutrina não é minha, mas é d’Aquele que me enviou.

Se alguém quiser fazer a vontade de Deus, reconhecerá se a minha doutrina vem dele, ou se eu falo de mim mesmo.

O que fala de si mesmo busca a própria glória; mas aquele que busca a glória de quem o enviou, esse é verdadeiro, e não há nele a injustiça”. (S. JOÃO, VII, 16, 17 e 18).

“O que não me ama não guarda as minhas palavras. E a palavra que vós tendes ouvido não é minha, mas sim do Pai que me enviou”. (S. JOÃO, XIV, 24).

“Não credes que eu estou no Pai e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, não as digo de mim mesmo; mas o Pai, que está em mim, este é que faz as obras”. (S. JOÃO, XIV, 10)

“Passará o céu e a terra, mas não passarão as minhas palavras.”

A respeito, porém, deste dia ou desta hora, ninguém sabe quando há de ser, nem os anjos do céu, nem o Filho, mas só o Pai”. (S. MARCOS, XIII, 31 e 32. Vide S. MATEUS, XXV, 35 e 36).

“Disse-lhes, pois, Jesus: Quando vós tiverdes levantado o Filho do homem, conhecereis quem eu sou, e que nada faço de mim mesmo, mas que como o Pai me ensinou, assim falo;

E o que me enviou está comigo e não me deixou só, porque eu sempre faço o que é do seu agrado”. (S. JOÃO, VIII, 28 e 29).

“Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade d’Aquele que me enviou”. (S. João, VI, 38).

“Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma. Assim como ouço, julgo; e o meu juízo é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade d’Aquele que me enviou”. (S. JOÃO, V, 30).

“Mas eu tenho maior testemunho que o de João; porque as obras que meu Pai me deu que cumprisse, as mesmas obras que eu faço dão por mim testemunho de que meu Pai é quem me enviou”. (S. JOÃO, V, 36).

“Mas vós atualmente procurais tirar-me a vida, a mim que sou um homem, que vos falei a verdade que ouvi de Deus; isto é o que Abraão nunca fez”. (S. JOÃO, VIII, 40).

Desde que ele nada diz de si, que a doutrina por ele ensinada, não é dele, mas de Deus, que lhe ordenou viesse torná-la conhecida; que não fez senão o que Deus lhe deu o poder de fazer, que a verdade que ensinou lhe foi revelada por Deus, a cuja vontade se curvou; é claro que ele não é Deus, mas o seu enviado, o seu messias, o seu subordinado.

É impossível recusar mais positivamente toda a assimilação à pessoa de Deus e determinar-lhe o principal papel em termos mais precisos. Não são pensamentos ocultos sob o véu da alegoria, que só a força de interpretações se possam descobrir; é o sentido próprio expresso sem ambigüidades.

Podem objetar que Deus não quis descobrir a sua individualidade em Jesus; mas perguntamos: em que se funda semelhante opinião e quem tem autoridade para sondar os pensamentos divinos e para dar às palavras do Senhor sentido diverso do que elas naturalmente encerram?

Além de que, ninguém, considerando Jesus um Deus durante a sua vida, mas um messias, não precisava ele, se queria ocultar a sua divindade, senão calar-se; entretanto, espontaneamente afirmou que não era Deus, falsidade desnecessária a seu incógnito.

E é notável que seja S. João, o evangelista, sobre cuja autoridade principalmente se apóiam os que sustentam a divindade de Cristo, quem ofereça, em oposição a semelhante dogma, argumentos mais numerosos e mais positivos. Provam-nos as seguintes passagens, que não inovam, mas reforçam as provas já expostas, patenteando a dualidade e desigualdade das pessoas de Deus e do Cristo.

“Por esta causa perseguiam os judeus a Jesus, por ele fazer estas coisas em dia de sábado.

Mas Jesus lhes respondeu: Meu Pai até agora não cessa de obrar, e eu obro também incessantemente”. (S. JOÃO, V, 16 e 17).

“Porque o Pai a ninguém julga, mas todo o juízo deu ao Filho.

A fim de que todos honrem ao Filho, bem como honram ao Pai: o que não honra ao Filho não honra ao Pai, que o enviou.

Em verdade, em verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê em Aquele que me enviou, tem a vida eterna, e não incorre na condenação; mas passou da morte para a vida.

Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que a ouvirem viverão;

Porque assim como o Pai tem a vida em si mesmo, assim como também deu ele ao Filho ter vida em si mesmo;

E lhe deu o poder de exercitar o juízo, porque é Filho do homem”. (S. JOÃO, V, 22 a 27).

“E meu Pai, que me enviou, a si mesmo deu testemunho de mim, Vós nunca ouvistes a sua voz, nem vistes quem o representasse.

E não tendes em vós permanente a sua palavra, porque não credes no que ele enviou”. (S. JOÃO, V. 37 e 38).

“E se eu julgo alguém, o meu juízo é verdadeiro, porque eu não sou só, mas eu e o Pai que me enviou”. (S. JOÃO, VIII, 16).

“Assim falou Jesus, e, levantando os olhos ao céu, disse: Pai, é chegada a hora; glorifica a teu Filho, para que teu Filho te glorifiqe a ti.

Assim como tu lhe deste o poder sobre todos os homens, a fim de que ele dê a vida eterna a todos aqueles que tu lhe deste.

A vida eterna, porém, consiste em que eles conheçam por um só verdadeiro Deus, a ti, e a Jesus Cristo, que tu enviaste.

Eu glorifiquei-te sobre a terra: eu acabei a obra que tu me encarregaste que fizesse.

Tu, pois, agora Pai, glorifica-me a mim mesmo, com aquela glória que eu tive em ti antes que houvessse mundo…

E eu não estou mais no mundo, mas eles estão no mundo, e eu vou para ti. Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me deste, para que eles sejam um, assim como também nós…

Eu dei-lhes a tua palavra, e o mundo os aborreceu, porque eles não são do mundo, como também eu não sou do mundo…

Santifica-os na verdade. A tua palavra é a verdade.

Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo.

E eu me santifico a mim mesmo por eles, para que eles sejam santificados na verdade.

E eu não rogo somente por eles, mas rogo também por aqueles que hão de crer em mim por meio da sua palavra.

Para que eles sejam todos um, e como tu, Pai, o és em mim, e eu em ti; para que também eles sejam um em nós, e creia o mundo que tu me enviaste…

Pai, a minha vontade é que onde eu estou estejam também comigo aqueles que tu me deste, para verem a minha glória, que tu me deste, porque me amaste antes da criação do mundo.

Pai justo, o mundo não te conheceu; mas eu conheci-te, e estes conheceram que tu me enviaste.

E eu lhes fiz conhecer o teu nome, lhe farei ainda conhecer, a fim de que o mesmo amor, com que tu me amaste, esteja neles, e eu neles”. (S. JOÃO, XVII, 1 a 5, 11 a 14, 17 a 21, 24 a 26 — Prece de Jesus).

“Por isso meu Pai me ama, porque eu ponho a minha vida, para outra vez a assumir.

Ninguém a tira de mim; mas eu de mim mesmo a ponho, e tenho o poder de a pôr, e tenho o poder de a reassumir. Este mandamento recebi de meu Pai”. (S. JOÃO, X, 17 e 18).

Tiraram, pois a pedra, e Jesus, levantando os olhos ao céu, disse: Pai, eu te dou graças porque me tens ouvido.

Eu, pois, bem sabia que tu sempre me ouves; mas falei por atender a este povo que está à roda de mim, para que eles creiam que tu me enviaste”. (S. JOÃO, XI, 41 e 42 — Morte de Lázaro)

“Já não falarei muito convosco; porque vem o príncipe deste mundo, e ele não tem em mim coisa alguma.

Mas para que conheça que amo o Pai, e que faço como ele me ordenou…”. (S. JOÃO, XIV, 30 e 31).

“Se guardardes os meus preceitos, permanecereis no meu amor, assim como também eu guardarei os preceitos de meu Pai, e permaneço no seu amor”. (S. JOÃO, XV, 10).

“E Jesus, dando um grande brado, disse: Pai, em tuas mãos encomendo o meu espírito. E dizendo estas palavras, expirou”. (S. LUCAS, XXIII, 46).

Se Jesus, ao expirar, deixa sua alma nas mãos de Deus, é que a tinha distinta de Deus, sujeita a Deus; logo não era Deus.

As seguintes palavras dão testemunho de uma tal ou qual fraqueza humana, de um certo receio da morte e dos sofrimentos, o que contrasta com a natureza divina que se atribui a Jesus. Elas igualmente testemunham essa submissão do inferior para o superior.

“Então foi Jesus com eles a uma granja chamada Getsêmani, e disse a seus discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto eu vou acolá e faço oração”.

E tendo tomado consigo a Pedro e aos dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e angustiar-se.

Disse-lhes então: A minha alma está numa tristeza mortal: demorai-vos aqui e vigiai comigo.

E adiantando-se uns poucos passos, se prostrou com o rosto em terra, fazendo oração e dizendo: Pai meu, se é possível, passe de mim este cálice; todavia não se faça nisto a minha vontade, mas, sim, a tua.

Depois veio ter com seus discípulos e os achou dormindo, e disse a Pedro: Visto isso, não pudestes uma hora vigiar comigo?

Vigiai e orai, para que não entreis em tentação.

O espírito na verdade está pronto, mas a carne é fraca.

De novo se retirou segunda vez e orou, dizendo: Pai meu, se este cálice não pode passar sem que o beba, faça-se a tua vontade”. (S. MATEUS, XXVI, 36 a 42).

“Então lhes disse: A minha alma se acha numa tristeza mortal: detende-vos aqui e vigiai.

E tendo-se adiantado alguns passos, prostrou-se em terra; e orava que, se era possível, passasse dele aquela hora.

E disse: Abba Pai, todas as coisas te são possíveis: transpassa de mim este cálice; porém não se faça o que eu quero, senão o que tu queres”. (S. MARCOS, XIV, 34 a 36).

“E quando chegou àquele lugar, lhes disse: Orai para que não entreis em tentação.

E Jesus se arrancou deles obra de um tiro de pedra e, posto de joelhos, orava.

Dizendo: Pai, se é do teu agrado, transfere de mim este cálice: não se faça, contudo, a minha vontade, senão a tua.

Então lhe apareceu um anjo do céu, que o confortava. E posto em agonia, ora Jesus, com maior instância.

E veio-lhe um suor, como gotas de sangue, que corria sobre a terra”. (S. LUCAS, XXII, 40 a 44).

E perto da hora nona deu Jesus um grande brado dizendo: Eli, Eli, lamma sabacthani? Isto é, Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?” (S. MATEUS, XXVII, 46).

“E à hora nona deu Jesus um grande brado, dizendo: Eli, Eli, lamma sabacthani? Que quer dizer: Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?” (S. MARCOS, XX, 34).

As passagens que se seguem podem deixar dúvidas e dar lugar a crer numa identidade de Deus com a pessoa de Jesus; mas além de que não prevalecem sobre as precedentes, cujos termos são tão precisos, trazem em si mesmas a precisa retificação.

“Perguntaram-lhe, pois, eles: Quem és tu? Respondeu-lhes Jesus: Eu sou o princípe, o mesmo que vos falo.

Muitas coisas são as que tenho de vos dizer e de que vos condenar; mas o que me enviou é verdadeiro; e eu o que digo no mundo é o que dele aprendi”. (S. JOÃO, VII, 25 e 26).

O que meu Pai me deu é maior do que todas as coisas e ninguém as pode arrebatar da mão de meu Pai.

Eu e o Pai somos uma mesma coisa”. (S. JOÃO, X, 29 e 30).

Isto quer dizer, que seu Pai e ele não são senão um pensamento, visto como ele exprime o pensamento de Deus, porque possui a palavra de Deus.

Então pegaram os judeus em pedras para lhe atirarem.

Disse-lhes Jesus: Eu tenho-vos mostrado, muitas obras boas, que fiz em virtude de meu Pai; por qual destas obras me quereis vós apedrejar?

Responderam-lhe os Judeus: Não é por causa de alguma boa obra que nós te apedrejamos, mas, sim, porque dizes blasfêmias e porque, sendo tudo homem, te fazes Deus a ti mesmo.

Replicou-lhes Jesus: Não é assim que está escrito na vossa lei: Eu disse: Vós sois deuses?

Se ela chama deuses àqueles a quem a palavra de Deus fôr dirigida, a Escritura não pode falhar.

A mim, a quem o Pai santificou e enviou ao mundo, por que dizeis vós: Tu blasfemas, por eu ter dito que sou filho de Deus?

Se eu não faço as obras de meu Pai, não me creais.

Porém, se as faço, e quando não queirais crer em mim, crede nas minhas obras, para que conheçais e creais que o Pai está em mim, e eu no Pai”. (S. JOÃO, X, 29 a 38).

Noutro capítulo, dirigindo-se aos discípulos, ele lhes diz:

“Naquele dia conhecereis vós que eu estou em meu Pai, e vós em mim, e eu em vós”. (S. JOÃO, XIV, 20).

Destas palavras não se vá concluir que Deus e Jesus não fazem senão um, pois neste caso também se deveria inferir delas que os apóstolos não fazem senão um com Deus.


(42) Esta comparação da posição de Jesus em relação a Deus e da posição dos Apóstolos em relação a Jesus é um verdadeiro achado de Kardec. Com base nas próprias palavras evangélicas o dogma absurdo da unidade pessoal desaparece. É essa forma de divindade que o Espiritismo não reconhece nem pode reconhecer em Jesus. Fazer do enviado o próprio Deus é hoje, mais do que nunca, inaceitável. Nossa concepção atual de uma inteligência suprema, Deus, criadora e mantenedora do Universo, não pode aprovar a confusão que pretende fazer de Jesus uma encarnação de Deus, uma manifestação integral do infinito no finito. A divindade de Jesus está em sua superioridade espiritual em relação aos homens, na condição sobre-humana do seu espírito e não do seu corpo, da sua encarnação. (N. do Rev.)

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