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Livro Obras Póstumas

ALLAN KARDEC
3 DE OUTUBRO DE 1804 • 31 DE MARÇO DE 1869
FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA
Tradução de Guillon Ribeiro

 

Livro Obras Póstumas – OP

PRIMEIRA PARTE

ESTUDO SOBRE A NATUREZA DE JEUS CRISTO

IX. Filho de Deus e Filho do Homem

O título de Filho de Deus, longe de implicar a igualdade, é antes indicativo de submissão; ora ninguém pode ser submetido a si mesmo. Para que Jesus fosse absolutamente igual a Deus, seria preciso que fosse como Ele de toda a eternidade, isto é, que fosse incriado; ora o dogma diz que Deus o gerou de toda a eternidade, e quem diz gerado diz criado; quer seja ou não de toda a eternidade, nem por isto é menos criatura, e, como criatura, subordinada ao seu criador; esta é a idéia implicitamente contida na palavra Filho.

Jesus teve nascimento no tempo? Por ventura houve tempo na eternidade em que ele não existia? Ou é co-eterno com o Pai? Estas são as sutilezas acerca das quais se tem disputado por séculos.

Em que se apóia a doutrina da co-eternidade, elevada à categoria de dogma? Na opinião dos homens que a estabeleceram. Mas esses homens, em que autoridade fundaram a sua opinião? Não foi na de Jesus, pois que este se declara subordinado, nem na dos Profetas, que o anunciaram como enviado e servo de Deus.

Em que documentos desconhecidos, mais autênticos do que os Evangelhos, descobriram essa doutrina? Parece que na consciência e na superioridade das suas próprias luzes.

Deixemos pois estas inúteis discussões, intermináveis, as quais, se ainda tivessem uma solução, não tornariam os homens melhores. Digamos que Jesus é Filho de Deus, como todas as criaturas; ele o chama seu Pai, como nos ensinou a chamá-lo nosso Pai. Ele é o Filho muito amado de Deus, porque, tendo chegado à perfeição próxima de Deus, possui toda a sua confiança e toda a sua afeição; ele diz-se Filho unigênito, não porque seja o único chegado àquele grau, mas porque só ele era predestinado para esta missão na Terra.

Se a qualificação de Filho de Deus parece apoiar a doutrina da divindade, o contrário deve supor-se da qualificação de Filho do homem, que Jesus se deu em sua missão e que foi objeto de muitos comentários.

Para compreender-lhe o verdadeiro sentido, faz-se preciso remontar à bíblia, onde ele é dado pelo próprio Deus a Ezequiel.

“Esta foi a visão da semelhança da glória do Senhor; e vi, e caí com o meu rosto em terra, e ouvi uma voz de quem falava; e me disse: Filho do homem, põe-te sobre os teus pés, e eu falarei contigo.

E entrou em mim o espírito depois que me falou, e me firmou sobre os meus pés; e ouvi ao que me falava.

E dizia: Filho do homem, eu te envio aos filhos de Israel, às gentes apóstatas que se apartaram de mim; eles e seus pais têm prevaricado, violando o meu pacto até o dia de hoje”. EZEQUIEL, II, 1, 2 e 3).

“E tu, filho do homem, sabe que eles têm deitado sobre ti cadeias, e te ligarão com elas, e tu não sairás do meio delas”. (Idem, III, 25).

“E foi-me dirigida a palavra do Senhor, a qual dizia: E tu, filho do homem, dize: Isto diz o Senhor Deus à terra de Israel; o fim vem, vem o fim sobre as quatro plagas da terra”. (Idem, VII, 1 e 2).

“E no ano nono, no décimo mês, a dez dias do mês, foi-me dirigida a palavra do Senhor, a qual dizia: Filho do homem, escreve com pontualidade este dia, em que o rei da Babilônia se postou contra Jerusalém, hoje mesmo”. (Idem, XXIV, 1 e 2).

“E foi-me dirigida a palavra do Senhor, a qual dizia:

Filho do homem, eis aqui estou eu que te tiro de um golpe o objeto mais agradável de teus olhos; mas tu não te lamentarás, nem chorarás, nem te correrão as lágrimas pelo rosto.

Geme lá para ti; não tomarás luto, como se faz pelos mortos; fique-te atada na cabeça a tua coroa, e tu terás metidos nos pés os teus sapatos; não cobrirás com véu o teu rosto, nem comerás manjares que se dão aos que estão de nojo.

Eu, pois, falei de manhã ao povo, e à tarde morreu minha mulher, e ao outro dia pela manhã fiz o que o Senhor me tinha ordenado”. (Idem, XXIV, 15 a 18).

“E foi-me dirigida a palavra do Senhor, a qual dizia:

Filho do homem, profetiza sobre os pastores de Israel; profetiza, e dirás aos tais pastores: Isto diz o Senhor Deus: Ai dos pastores de Israel que se apascentavam a si mesmo; não são os rebanhos os que são apascentados pelos pastores”? (Idem, XXXIV, 1 e 2).

“Então o ouvi falando-me dentro da casa, e o homem que estava ao pé de mim.

Disse-me: Filho do homem, este é o lugar do meu trono, e o lugar das plantas dos meus pés, onde eu habito para sempre no meio dos filhos de Israel; e os da casa de Israel não profanarão mais para o futuro o meu santo nome, nem eles, nem os seus reis, pelas suas devassidões e pelos supulcros dos seus reis, e pelos seus atos”. (Idem, XLIII, 6 e 7).

“Porque Deus não ameaça como os homens, nem ele se inflama em ira como os filhos dos homens”. (JUDITE, VIII, 15).

É evidente que a qualificação de Filho do homem quer dizer aqui: nascido do homem, por oposição ao que está fora da humanidade. A última citação, tirada do livro de Judite, não deixa dúvida acerca da significação daquela expressão, empregada em sentido estritamente literal.

Deus não designa Ezequiel senão com aquela expressão, certamente para lembrar-lhe que, apesar do dom da profecia, que lhe foi concedido, não pertencia menos à humanidade, a fim de que se não julgasse de natureza excepcional. Jesus dava-se aquela qualificação com singular persistência porque só em raríssimas circunstâncias se disse Filho de Deus. Em sua boca não pode ela ter outra significação que não seja lembrar que também ele pertence à humanidade, assemelhando-se assim aos profetas, que o precederam, aos quais se comparou, aludindo à sua morte, quando disse: Jerusalém que mata os profetas!

A insistência, com que se designa filho do homem, parece um protesto antecipado contra a qualificação que, previra, se lhe daria mais tarde, a fim de que ficasse bem provado que da sua boca não saíra.

É para notar que, durante esta interminável polêmica, que apaixonou os homens por muitos séculos, e até hoje dura, — que acendeu fogueiras e derramou sangue em catadupas, versasse a controvérsia sobre uma abstração: a natureza de Jesus, de que se fez a pedra angular do edifício, apesar de nada haver dito a semelhante respeito — e se tenha esquecido aquilo que o Cristo ensinou ser toda a lei e os profetas: o amor de Deus e do próximo e a caridade, de que fêz a condição de salvamento.

Aplicaram-se, fervorosamente, à questão da afinidade de Jesus com Deus e deixaram em olvido as virtudes, que ele recomendou e de que deu o exemplo.

O próprio Deus ficou na penumbra perante a exaltação da personalidade de Cristo. No concílio de Nicéia foi dito simplesmente: Cremos em um só Deus, etc.; mas como é esse Deus? nenhuma palavra sobre os atributos essenciais dele: a soberana bondade e a soberana justiça. Tais palavras serão condenação dos dogmas, que consagram a sua parcialidade por determinadas criaturas, a sua inexorabilidade, o crime, a cólera, o espírito vingativo de que se servem para justificar crueldades, praticadas em nome dele.

Se o concílio de Nicéia, que se constituiu em fundamento da fé católica, fosse conforme ao espírito de Cristo, para quê o anátema final? Não é isto a prova de que ele é a obra das paixões dos homens? A que foi devida a sua adoção? À pressão do imperador Constantino, que fez dele uma questão mais política que religiosa. Sem ordem sua não se teria realizado o concílio de Nicéia e sem a sua intimidação seria mais que provável o triunfo do arianismo.

Dependeu pois da autoridade soberana de um homem, que não pertencia à Igreja, que reconheceu mais tarde a falsa política seguida, e que em vão procurou emendá-la, conciliando os partidos, não sermos hoje arianos, em lugar de católicos, e não ser hoje o arianismo a ortodoxia e o catolicismo a heresia.

Depois de dezoito séculos de lutas e discussões sem proveito, durante as quais se deixou de parte o essencial do ensino de Cristo, único meio de assegurar a paz da humanidade, veio o cansaço dessas discussões estéreis, que só produziram perturbações, geraram a incredulidade e cujo objeto já não satisfazia à razão.

Há hoje uma tendência manifesta da opinião geral para voltar às idéias fundamentais da primitiva Igreja e à parte moral do ensino de Cristo, por ser esta a única que pode tornar os homens melhores, visto ser clara, positiva, e não dar ensejo a controvérsias.

Se a Igreja tivesse seguido, desde o princípio, aquela via, seria hoje onipotente, em vez de ter sido despedaçada pelas facções.

Quando os homens caminharem com esta bandeira, se darão fraternalmente as mãos, em vez de se lançarem anátema e maldição, por questões que a maior parte das vezes não compreendem. Essa tendência da opinião é o sinal de que chegou o momento de pôr a questão no seu legítimo terreno.(46)


(46) Estas palavras finais de Kardec não são apenas uma advertência, pois foram também proféticas. Basta vermos as transformações atuais da Igreja, empenhada em superar uma crise determinada pela evolução cultural do mundo, para compreendermos o sinal dos tempos a que ele se refere. A tendência para voltar aos princípios verdadeiros do Cristianismo e aos seus fundamentos morais acentua-se rapidamente nestes últimos anos. A tese do esvaziamento da Igreja, sustentada por alguns teólogos, corresponde aos anseios da Reforma e às diretrizes do Espiritismo. Esvaziar a Igreja é tirar-lhe os elementos acessórios com que a enfeitaram indevidamente. Os excessos litúrgicos que devem desaparecer abrangem também o mistério grego da Paixão em forma de mito, com a morte de um Deus e não de um homem. A divindade de Jesus está implícita na frase que ele mesmo citou: Vós sois deuses, referindo-se a todas as criaturas humanas. É a divindade do espírito evoluído, que superou a condição humana em espírito e não em forma ou condição corporal. — Para uma informação geral sobre a revolução teológica de hoje leia-se O Movimento da Morte de Deus, de Charles Bent, Moraes Editores, Lisboa, 1968, e A Morte de Deus, de Thomas Altizer e William Hamilton, Editora Paz e Terra, S. Paulo, 1967. (N. do Rev.)