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Livro Obras Póstumas

ALLAN KARDEC
3 DE OUTUBRO DE 1804 • 31 DE MARÇO DE 1869
FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA
Tradução de Guillon Ribeiro

 

Livro Obras Póstumas – OP

PRIMEIRA PARTE

ESTUDO SOBRE A NATUREZA DE JEUS CRISTO

VI. Opinião dos Apóstolos

Até aqui nos temos apoiado exclusivamente nas próprias palavras de Cristo, como elemento essencial de convicção, porque fora daí só pode haver opiniões subjetivas; de todas essas opiniões, as de mais valor são, inquestionavelmente, as dos Apóstolos, por terem sido seus companheiros de missão e poderem deixar escapar qualquer indício de revelação secreta, que sobre a sua natureza Jesus lhes houvesse feito. Tendo vivido em sua intimidade, melhor que ninguém deviam tê-lo conhecido.

Vejamos pois como eles o consideram:

“Varões israelitas, ouvi estas palavras: A Jesus Nazareno, varão aprovado por Deus entre vós com virtudes, e prodígios, e sinais, que Deus obrou por ele no meio de vós, como também vós o sabeis;

A este, depois de vos ser entregue pelo decretado conselho e presciências de Deus, crucificando-o por mãos iníquas, lhe tirastes a mesma vida;

Ao qual Deus ressuscitou, soltas as dores do inferno, por quanto era impossível que por este fosse retido;

Porque Davi diz dele: Eu via sempre o Senhor diante de mim; porque ele está à minha direita, para que eu não seja comovido.

Por amor disto se alegrou o meu coração, e se regozijou a minha língua, além de que a minha carne repousará em esperança.

Porque não deixarás a minha alma no inferno, nem permitirás que o teu santo experimente corrupção.

Tu me fizeste conhecer os caminhos da vida, e me encherás de alegria, mostrando-me a tua face”. (ATOS DOS APÓSTOLOS, II, 22 a 28. — Pregação de S. Pedro).

Assim que, exaltado pela dextra de Deus, e havendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou sobre nós a este, a quem vós vêdes e ouvis;

Porque Davi não subiu ao céu; mas ele mesmo disse: O Senhor disse ao meu Senhor: — Assenta-te à minha mão direita.

Até que eu ponha a teus inimigos por escabelo de teus pés.

Saiba logo toda a casa de Israel com a maior certeza que Deus o fez não só Senhor, mas também Cristo, a este Jesus a quem

vós crucificastes”. (ATOS DOS APÓSTOLOS, II, 33 a 86). — Pregação de S. Pedro).

Moisés, sem dúvida, disse: Porquanto o Senhor vosso Deus vos suscitará um profeta dentre vossos irmãos semelhante a mim; a este ouvireis em tudo que ele vos disser.

E isto acontecerá: toda a alma que não ouvir aquele profeta será exterminada do meio do povo…

Deus, ressuscitando a seu Filho, vô-lo enviou primeiramente a vós, para que vos abençoasse, a fim de que cada um se aparte da sua maldade”. (ATOS DOS APÓSTOLOS, II, 23, 23 e 26 — Pregação de S. Pedro).

“Seja notório a todos vós, e a todo o povo de Israel que em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo Nazareno, a quem Deus ressuscitou dos mortos; no tal nome que digo é que este se acha em pé diante de vós, já são”. (ATOS DOS APÓSTOLOS, IV, 10. —Pregação de S. Pedro).

Levantaram-se os reis da terra, e os príncipes se ajuntaram em conselho contra o Senhor e contra o seu Cristo.

Porque verdadeiramente se ligaram nesta cidade contra o teu santo Filho Jesus, ao qual ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos, com os gentios e com os povos de Israel.

Para executarem o que o teu poder e o teu conselho determinaram que se fizesse”. (ATOS DOS APÓSTOLOS, IV, 26, 27, 28. — Súplica dos Apóstolos).

“Mas dando Pedro a sua resposta, os Apóstolos disseram: importa obedecer mais a Deus do que aos homens.

O Deus de nossos pais ressuscitou a Jesus, a quem deste a morte, pendurando-o num madeiro.

A este elevou Deus com a sua destra, como príncipe e salvador, para dar o arrependimento a Israel e a remissão dos pecados”. (ATOS DOS APÓSTOLOS, V, 29, 30, 31. — Resposta dos Apóstolos ao Sumo Sacerdote).

“Este é aquele Moisés que disse aos filhos de Israel: Deus vos suscitará dentre vossos irmãos um profeta como eu; a ele ouvireis…

Porém o Excelso não habita em leituras de mãos, como diz o profeta:

O céu é o meu trono, e a terra o estrado de meus pés. Que casa me edificareis vós, diz o Senhor? Ou qual é o lugar do meu repouso? (ATOS DOS APÓSTOLOS, VII, 37, 48, 49. — Discurso de Estevão).

“Mas como ele estava cheio do Espírito Santo, olhando para o céu, viu a glória de Deus, e a Jesus que estava em pé à destra de

Deus; e disse: Eis estou vendo os céus abertos, e o Filho do homem que está de pé à direita de Deus.

Então eles, levantando uma grande gritaria, tamparam os seus ouvidos, e todos juntos arremeteram a ele com fúria.

E tendo-o lançado para fora da cidade, o apedrejavam; e as testemunhas depuseram os seus vestidos aos pés de um moço que se chamava Saulo.

E apedrejavam a Estevão, que invocava a Jesus, e dizia: Senhor Jesus, recebei o meu espírito”. (ATOS DOS APÓSTOLOS, VII, 55 a 58 — Martírio de Estevão).

Estas citações testemunham claramente qual o caráter que os Apóstolos atribuíram a Jesus. A idéia essencial, que delas ressalta, é a da sua subordinação a Deus, da constante supremacia de Deus, sem que coisa alguma revele pensamento de semelhança entre os dois, quanto à natureza e poder. Para eles, Jesus era um homem profeta, escolhido e abençoado por Deus.

Não foi entre os Apóstolos que nasceu a crença na divindade de Jesus.(45) São Paulo, que não o tinha conhecido, mas que, de ardente perseguidor, se tornou o mais zeloso e eloqüente defensor da nova lei, cujos escritos prepararam os primeiros formulários da religião cristã, não é menos explícito a este respeito; exprime sempre o pensamento de dois seres distintos e a supremacia do Pai sobre o Filho.

(45) Esta afirmação de Kardec: Não foi entre os Apóstolos que nasceu a crença na divindade de Jesus é hoje confirmada pela pesquisa histórica. Em seu livro inacabado, Le Christ, com o espírito minucioso que o caracteriza, Charles Guignebert demonstra como os judeus-helenizados transformaram o messias judeu no Cristo grego, distanciando-se pouco a pouco da figura humana de Jesus e da Igreja de Jerusalém. O processo grego do sincretismo transforma o homem Jesus no mito do Cristo. Escreve Guignebert: A pequena semente judia lançada em solo grego encontrou nele, para se enraizar, uma substância rica e fecunda. E outra passagem: evidentemente, essa dupla eliminação, a do Jesus histórico e da autêntica fé apostólica, era necessária para que o Cristianismo pudesse constituir-se em religião independente. (N. do Rev.)

“Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado Apóstolo, escolhido para o Evangelho de Deus.

E este Evangelho tinha ele antes prometido pelos seus profetas nas Escrituras.

Sobre seu Filho, Jesus Cristo, Senhor nosso, que lhe foi feito na linhagem de Davi, segundo a carne;

Que foi predestinado Filho de Deus com poder, segundo o espírito de santificação, pela ressurreição dentre os mortos;

Pelo qual havemos recebido a graça e o apostolado, para que se obedeça à fé em todas as gentes, pelo seu nome;

Entre os quais vós sois chamados de Jesus Cristo; a todos que estão em Roma, queridos de Deus, chamados santos; graças vos seja dada e paz da parte de Deus, nosso Pai, e da de Jesus Cristo, nosso Senhor”. (EPÍSTOLA AOS ROMANOS, I, 1 a 7).

“Justificados, pois, pela fé, tenhamos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo…

A que fim, pois, quando nós ainda estávamos enfermos, morreu Cristo a seu tempo por uns ímpios…

Morreu Cristo por nós; pois muito mais agora que somos justificados pelo sangue, seremos salvos da ira por ele mesmo…

E não só fomos reconciliados, mas também nos glorificamos em Deus por nosso Senhor Jesus Cristo, por quem agora temos recebido a reconciliação…

Mas não é assim o dom como o pecado; porque se pelo pecado de um morreram muitos, muito mais a graça de Deus e o dom pela graça de um só homem que é Jesus Cristo, abundou sobre muitos”. (EPÍSTOLA AOS ROMANOS, V, 1, 6, 9, 11 e 15).

E se somos filhos, também herdeiros; herdeiros verdadeiramente de Deus, co-herdeiros de Cristo, se é que todavia nós padecemos com ele, para que sejamos também com ele glorificados”. (EPÍSTOLA AOS ROMANOS, VIII, 17).

“Porque se confessares com a tua boca ao Senhor Jesus, creres em teu coração que Deus ressuscitou dentre os mortos, serás salvo”. (EPÍSTOLA AOS ROMANOS, X, 9).

Depois será o fim, quando tiver entregado o reino a Deus e ao Pai, quando houver destruído todo o principado, e poder, e virtude.

Porque é necessário que ele reine até que ponha todos os seus inimigos debaixo de seus pés.

Ora, o último inimigo destruído será a morte! Porque todas as coisas sujeitou debaixo dos pés dele. E quando diz: tudo está sujeito a ele, excetua-se, sem dúvida, aquele que lhe sujeitou a ele todas as coisas.

E quando tudo lhe estiver sujeito, então ainda o mesmo Filho estará sujeito àqueles que sujeitou a ele todas as coisas, para que Deus seja tudo em todos”. (I —EPÍSTOLA AOS CORÍNTIOS, XV, 24 a 28).

“Mas aquele Jesus, que por um pouco foi feito menor que os anjos, nós o vemos pela paixão da morte coroado de glória e de honra, para que pela graça de Deus provasse a morte por todos.

Porque convinha que aquele, para quem são todas as coisas, e por quem todas existem, havendo de levar muitos filhos à glória, consumasse pela paixão ao autor da salvação deles.

Porque o que santifica e os que são santificados, todos vêm dum mesmo princípio. Por esta causa não tem rubor de lhes chamar irmãos, dizendo:

Anunciarei o teu nome a meus irmãos; louvar-te-ei no meio da Igreja.

E outra vez: Eu confiarei nele. E noutro lugar: Eis aqui estou eu, e os meus filhos que Deus me deu…

Por onde foi conveniente que ele se fizesse em tudo semelhante a seus irmãos, para vir a ser diante de Deus um pontífice compassivo e fiel no seu ministério, a fim de expiar os pecados do povo.

Porque à vista de tudo quanto ele padeceu, e em que foi tentado, é poderoso para ajudar também aqueles que são tentados”. (EPÍSTOLA AOS HEBREUS, II, 9 a 13, 17 e 18).

Pelo que, santos irmãos, que sois participantes da vocação celestial, considerai ao apóstolo e ao pontífice da nossa confissão, Jesus.

O qual é fiel ao que o constituiu, assim como também Moisés o era em toda a sua casa.

Porque este é tido por digno de tanto maior glória que Moisés, quando o que edificou a casa tem maior honra que a mesma casa.

Porque toda a casa é edificada por alguém; mas o que criou todas as coisas é Deus”. (EPÍSTOLA AOS HEBREUS, III, 1 a 4).