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Livro Obras Póstumas

ALLAN KARDEC
3 DE OUTUBRO DE 1804 • 31 DE MARÇO DE 1869
FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA
Tradução de Guillon Ribeiro

 

Livro Obras Póstumas – OP

PRIMEIRA PARTE

INFLUÊNCIA PERNICIOSA DAS IDÉIAS MATERIALISTA

Sobre as artes em geral; a regeneração delas por meio do Espiritismo

Lê-se no Courrier de Paris du Monde Illustré de 19 de dezembro de 1868:

“Carmouche escreveu mais de duzentas comédias e xácaras, e poucos nos dias de hoje lhe conhecem o nome. É que nada é tão fugaz como a glória dramática, que excita tantas ambições.

“Quem não produz obras-primas está condenado a ver o nome cair no esquecimento, tão depressa deixe o campo de batalha. Mesmo durante a luta, a maior parte não o conhece. O público, quando lê o anúncio, só o preocupa o título da peça, pouco lhe importando saber quem a escreveu. Bem poucas vezes vos lembrareis do nome do autor de uma obra interessante de que guardais memória. E quanto mais entrardes pela vida, mais vos acontecerá isto: são as preocupações materiais sobrepondo-se cada vez mais aos interesses artísticos.

“Carmouche contava a este respeito uma anedota típica. — O meu livreiro — dizia ele — com quem eu conversava sobre o seu comércio, exprimia-se assim: o negócio não vai mal, mas está muito mudado; não são mais os mesmos artigos o que tem saída. Outrora, quando eu via entrar um rapaz de dezoito anos, já sabia que, nove vezes em dez, vinha procurar um dicionário de rimas; hoje, já sei que vem procurar um manual de operações da Bolsa”.

As preocupações materiais substituem o interesse pela arte… Por que não há de ser assim, se o pensamento e a atividade só se dirigem para a matéria, para as necessidades da carne, eliminando-se então não só as aspirações, como até a esperança pela vida de além-túmulo?

Esta consequência é lógica e inevitável para aquele que nada vê fora do pequeno círculo da vida presente. Quando nada se vê atrás de si, nem adiante de si, nem acima, a que aplicar o pensamento, senão ao ponto em que se acha?

O sublime da arte é a poesia do ideal, que nos transporta para fora da esfera estreita da nossa atividade; o ideal, porém, existe positivamente nessa região extramaterial, onde se não penetra senão pelo pensamento, e que a imaginação concebe, embora não a divisem os olhos do corpo. Que inspiração pode trazer ao espírito a idéia do nada?

O pintor, que não tiver visto senão o céu brumoso, as estepes áridas e monótonas da Sibéria, e que acreditar ser aquilo todo o universo, poderá conceber e descrever a brilho e a riqueza dos tons da natureza tropical? Como quereis que os vossos artistas e poetas vos transportem a regiões, que não vêem com os olhos da alma, que não compreendem e nas quais não acreditam?

O Espírito não pode identificar-se senão com o que sabe e crê que é verdade, e esta verdade, ainda que moral, torna-se para ele realidade, que exprime tanto melhor, quanto a sente; e então, se a inteligência da coisa ajunta a flexibilidade do talento, comunica as impressões à alma dos outros. Que impressões, porém, pode transmitir quem não as tem?

Para o materialista, a realidade é a Terra, o seu corpo todo, pois que fora dele nada existe, e o pensamento extingue-se com a desorganização da matéria, como o fogo com o combustível. Não pode traduzir pela linguagem da arte senão aquilo que vê e sente. Ora se não vê e não sente senão a matéria tangível, nada mais pode transmitir.

Onde só vê o vácuo, impossível lhe é colher alguma coisa. Se se aventura por este mundo, que lhe é desconhecido, vai como um cego, e por mais esforços que empregue para elevar-se ao idealismo, não pode desprender-se da terra, como a ave de asas cortadas.

A decadência das artes, no século atual, é o resultado natural da concentração das idéias sobre as coisas materiais, e esta concentração, por sua vez, é o resultado da ausência de toda a fé e de toda a crença na espiritualidade do ser. O século colhe só o que semeou e quem semeia pedras não pode colher frutos.

As artes só sairão do seu torpor por uma reação no sentido das idéias espiritualistas. E como poderão ligar o nome a obras duráveis, o pintor, o poeta, o literato, o músico, quando, na maior parte, eles mesmos não confiam no futuro dos seus trabalhos, quando não percebem que a lei do progresso, essa invencível potência, que arrasta o universo pelas sendas do infinito, lhes pede mais do que pálidas cópias das produções magistrais dos artistas do tempo passado?

Não são esquecidos os Fídia, os Apele, os Rafael, os Michelangelo, faróis luminosos, que brilham na obscuridade dos séculos idos, como fulgurantes estrelas em meio de profundas trevas; mas quem prestará atenção à claridade de uma lâmpada que luta contra a luz brilhante do sol num belo dia de estio?

O mundo tem caminhado a passos de gigante desde os tempos históricos e a filosofia dos povos primitivos tem-se gradualmente transformado. As artes, que se apóiam na filosofia, que é a sua consagração idealizada, devem ter também sofrido modificações e transformações.

É matematicamente exato dizer que, sem crença, as artes não têm vitalidade possível, e que toda transformação filosófica arrasta, necessariamente, uma transformação artística correspondente.

Em todas as épocas de transformação, periclitam as artes, porque a crença em que se apóiam não é suficiente às crescentes aspirações da humanidade e porque os princípios novos, ainda não adotados definitivamente pela maioria dos homens, não animam os artistas a explicar, senão de modo vacilante, a mina desconhecida, que se lhes abre.(47)

Durante as épocas primitivas, em que os homens não conheciam senão a vida material e em que a filosofia divinizava a natureza, a arte procurou, antes de tudo, a perfeição da forma. A beleza corporal era então a primeira das qualidades; a arte aplicou-se a reproduzi-la, a idealizá-la. Mais tarde a filosofia entrou em nova senda; os homens, progredindo, reconheceram acima da matéria um poder criador e organizador, recompensando os bons, punindo os maus, fazendo uma lei da caridade; um mundo novo, o mundo moral, levantou-se sobre as ruínas do velho mundo.

Dessa transformação nasceu uma arte nova, que fez palpitar a alma sob a forma e aliou à perfeição plástica a expressão de sentimentos desconhecidos dos antigos. O pensamento, a princípio sujeito à matéria, revestiu as formas severas da filosofia, em que a arte se inspirava. Às tragédias de Ésquilo, aos mármores de Milo, sucederam as descrições e pinturas das torturas físicas e morais dos condenados. A arte elevou-se, revestiu um caráter grandioso e sublime, ainda que sombrio.(48)

Ainda hoje, não há como contestá-lo, o mundo se acha num período de transição, entre os hábitos vetustos, as crenças insuficientes do passado e as verdades novas, que lhe são progressivamente reveladas.

Assim como a arte cristã sucedeu à pagã, transformando-a, assim a arte espírita será o complemento e a transformação da arte cristã.

O Espiritismo, com efeito, oferece-nos a perspectiva do futuro, sob uma face nova e mais ao nosso alcance; por ele, a felicidade está mais perto de nós, ao nosso lado, nos Espíritos que nos cercam e que não cessam de entreter relações conosco.

A habitação dos eleitos e a dos condenados não são mais separadas: antes há constante solidariedade entre o céu e a terra, entre todos os mundos do universo. A felicidade consiste no amor recíproco de todas as criaturas elevadas à perfeição e numa constante atividade, cujo fim é instruir e guiar para aquela perfeição os que ainda estão atrasados. O inferno está no próprio coração do culpado, que encontra o castigo em seus remorsos; não é, porém, eterno, e o mau, entrando nas vias do arrependimento, sente na alma a esperança, a sublime consolação dos desgraçados.

Que inesgotáveis fontes de inspiração para a arte! Obras-primas de todo o gênero poderão produzir as novas idéias, pela reprodução das múltiplas e tão variadas cenas da vida espírita. Em lugar de representar frias e inanimadas relíquias, ver-se-á a mãe, tendo ao lado o filho adorado em sua forma radiante e etérea, ver-se-á a vítima per doando ao seu algoz, o criminoso procurando em vão fugir ao quadro, sem cessar presente aos olhos, de ações culpadas, o isolamento egoísta e do orgulhoso em meio da multidão, a perturbação que sente o Espírito quando volta à vida espiritual, etc., etc.

E, se o artista quiser elevar-se acima da esfera terrestre, aos mundos superiores, verdadeiros Édens, onde os Espíritos adiantados gozam da felicidade, que conquistaram, ou reproduzir algumas cenas dos mundos inferiores, verdadeiros infernos, onde as paixões campeiam soberanas, que cenas comoventes, que quadros palpitantes de interesse poderá reproduzir!(49)

Sim. O Espiritismo abre à arte um campo novo, imenso, e ainda inexplorado; e quando o artista reproduzir o mundo espírita com perfeita convicção, encontrará nessa fonte as mais sublimes inspirações e o seu nome viverá nos séculos futuros, porque, às preocupações materiais e efêmeras da vida presente, anteporá o estudo da vida futura e eterna da alma.

(47) Kardec assinala com precisão as características das fases de transição no campo das artes. A substituíção de princípios filosóficos e conceitos estéticos é tanto mais lenta quanto mais longa for a fase. Muda-se a concepção do mundo e consequentemente mudam-se as formas de expressão. De meados do século passado aos nossos dias esse processo vem crescendo. Veja-se a confusão reinante nos meios artísticos dos nossos dias. Dessa confusão, entretanto, vai nascendo uma nova Arte, em sentido geral, que se equilibrará no futuro. (N. do Rev.)

(48) Veja-se o famoso Prefácio de Cromwell, de Victor Hugo, considerado como o manifesto do Romantismo. O caráter grandioso e sublime da arte medieval foi determinado pela concepção cristã. O Renascimento determinou uma volta ao Paganismo, mas numa assimilação renovada dos valores antigos sob a influência cristã. O mundo moderno não ofereceu elementos para uma renovação profunda das artes porque não trazia ainda uma cosmovisão nova. As artes modernas são o prelúdio de uma nova fase que só o Espiritismo, a concepção espírita do mundo irá definir. É o que Kardec viu com clareza neste trabalho. (N. do Rev.)

(49) A Arte Espírita já é uma realidade nascente. A Pintura Espírita começou no tempo de Kardec e ainda há pouco surgiu em São Paulo o Grupo Nova Visão, liderado pelo pintor Nelson Alquezare e orientado pelo espírito de Portinari. (Veja-se Anuário Espírita de 1969). A Poesia Espírita é uma realidade que já mereceu antologia (Antologia de Poetas Espíritas, Clovis Ramos, Pongetti Editores, Rio, 1959). A ficção literária espírita impõe-se no mundo e a influência espírita no Cinema, na Música, no Rádio, na Televisão, no Teatro é visivelmente crescente. (N. do Rev.)