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Livro Obras Póstumas

ALLAN KARDEC
3 DE OUTUBRO DE 1804 • 31 DE MARÇO DE 1869
FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA
Tradução de Guillon Ribeiro

 

Livro Obras Póstumas – OP

SEGUNDA PARTE

A TIARA ESPIRITUAL
6 de maio de 1857 349

(Em casa da senhora de Cardone.)

Tive ocasião de ver, nas sessões do Sr. Roustan, a Senhora de Cardone. Alguém me disse, creio que foi o Sr. Carlotti, que ela possuía um talento notável para ler na mão. Jamais acreditei no significado das linhas da mão, mas sempre pensei que isso poderia ser, para certas pessoas dotadas de uma espécie de segunda vista, um meio de estabelecer uma relação que lhe permitisse, como aos sonâmbu los, às vezes, dizer coisas verdadeiras. Os sinais da mão não são senão um pretexto, um meio de fixar a atenção, desenvolver a lucidez, como o são as cartas, a marca de café, os espelhos ditos mágicos, para os indivíduos que gozam dessa faculdade. A experiência, mais de uma vez, me confirmou a verdade dessa opinião. Seja como for, essa senhora, tendo me convidado para ir vê -la, cedi ao seu convite, e eis um resumo do que ela me disse:

“Sois nascido com uma grande abundância de recursos e de meios intelectu ais… força extraordinária de julgamento… Vosso gosto está formado; governado pela cabeça, moderais a inspiração pelo julgamento; sujeitais o instinto, a paixão, a intuição ao método, à teoria. Tivestes sempre o gosto das ciências morais… Amor ao verd adeiro absoluto… Amor da arte definida.

“Vosso estilo tem do número, da medida, da cadência; mas, às vezes, trocais um pouco da vossa precisão pela da poesia.

“Como filósofo idealista, vos sujeitastes às opiniões alheias; como filósofo crente, sentis agora a necessidade de fazer seita.

“Benevolência judiciosa; necessidade imperiosa de aliviar, de socorrer, de consolar; necessidade de independência.

“Corrigi-vos muito lentamente da prontidão de vosso temperamento.

“Sois singularmente apropriado para a missão que vos está confiada, porque estais mais feito para vos tornar o centro de desenvolvimentos imensos, do que capaz de trabalhos isolados… os vossos olhos têm o olhar do pensamento.

“Vejo aqui o sinal da tiara espiritual… está muito pronunciad o, olhai…” (Olhei e nada vi de particular.)

AK – Que entendeis, disse eu, por tiara espiritual? Quereis dizer que serei papa? Se isso devesse ser, certamente não seria nesta existência.
Resposta. – “Notai que disse tiara espiritual, o que quer dizer aut oridade moral e religiosa, e não poder supremo efetivo”.

Relatei pura e simplesmente as palavras dessa senhora, que ela mesma me transcreveu; não me cabe julgar se são, em todos os pontos, exatas; deles reconheço alguns por verdadeiros, porque estão em relação com o meu caráter e as disposições do meu espírito; mas há uma passagem evidentemente errada, aquela onde disse, a propósito do estilo, que eu trocaria, às vezes, um pouco da minha precisão pela poesia. Não tenho nenhum instinto poético; o que procuro, acima de tudo, o que me agrada, o que estimo, nos outros, é a clareza, a limpidez, a precisão, e longe de sacrificar esta à poesia, poder -se-ia antes me censurar por sacrificar o sentimento poético à secura da forma positiva. Tenho preferido o que fala à inteligência, ao que não fala senão à imaginação.

Quanto à tiara espiritual, O Livro dos Espíritos acabava de aparecer: a Doutrina estava em seu início, e não se poderia, ainda, julgar os seus resultados ulteriores; não ligava senão pouca importância a essa revelação, e limitei -me a tomar-lhe nota a título de informação.

Essa senhora deixou Paris no ano seguinte, e não a revi senão oito anos mais tarde, em 1866; as coisas tinham caminhado muito nesse intervalo. Ela me disse:

Sra. – Lembrai-vos de minha predição da tiara espiritual? Ei -la realizada.
AK – Como realizada? Não estou, que o saiba, sobre o trono de São Pedro.

Sra. – Não, também não foi isso o que vos anunciei. Mas, não sois, de fato, o chefe da Doutrina, reconhecido pelos espíritas do mundo inteiro? Não são os vossos escritos que fazem lei? Vossos adeptos não se contam aos milhões? Há um homem cujo nome tenha mais autoridade do que o vosso pelo que respeita ao Espiritismo? Os títulos de sumo -sacerdote, de pontífice, de papa mesmo não vo s são espontaneamente dados? Sobretudo pelos vossos adversários e por ironia, eu o sei, mas não deixam de ser o indício do gênero de influência que vos reconhecem: pressentem o vosso papel e esses títulos vos ficarão. Em suma, conquistastes, sem procurá -la, uma posição moral que ninguém pode vos retirar, porque, quaisquer trabalhos que se possam fazer depois de vós, ou concorrentemente convosco, não sereis menos o fundador reconhecido da Doutrina. Desde esse momento, possuis, pois, em realidade, a tiara esp iritual, quer dizer, a supremacia moral. Vede, pois, que eu disse a verdade. Credes agora um pouco mais nos sinais da mão?
AK – Menos do que nunca, e estou convencido de que, se vistes alguma coisa, não foi na mão, mas em vosso próprio espírito, e vou prov á-lo.

Admito na mão, como no pé, nos braços e nas outras partes do corpo, certos sinais fisiognomônicos; mas cada órgão apresenta sinais especiais segundo o uso que lhe está destinado e sobre as suas relações com o pensamento; os sinais da mão não podem s er os mesmos que os dos pés, dos braços, da boca, dos olhos, etc.

Quanto às dobras interiores da mão, sua maior ou menor acentuação prende -se à natureza da pele e a mais ou menos abundância do tecido celular, e como essas partes não têm nenhuma correlação fisiológica com os órgãos das faculdades intelectuais e morais, nã o lhes podem ser a expressão. Admitindo mesmo essa correlação, poderiam fornecer indícios sobre o estado presente do indivíduo, mas não poderiam ser sinais de presságios de coisas futuras, nem de acontecimentos passados, independentes de sua vontade. Na pr imeira hipótese, compreendia rigorosamente que, com a ajuda desses traços, podia -se dizer que uma pessoa possui tal ou tal aptidão, tal ou tal tendência, mas o mais vulgar bom senso repele a ideia de que se possa ali ver se ela é casada ou não, quantas vez es, e quantos filhos teve, se é viúva ou não, e outras coisas semelhantes, como o pretende a maioria dos quiromantes.

Entre as pregas da mão, há uma bem conhecida de todo o mundo, e que parece, bastante bem, um M; se está fortemente marcado, é, diz -se, o presságio de uma vida infeliz; mas a palavra “malheur” é francesa, e se esquece que o termo equivalente não começa, em todas as línguas, pela mesma letra: de onde se segue que essa prega deveria tomar uma forma diferente segundo a língua dos povos.

Quanto à tiara espiritual, evidentemente é uma coisa especial, excepcional, e de alguma sorte individual, e estou convencido de que não encontrastes essa palavra num tratado de quiromancia. Como vos veio, pois, ao pensamento? Por intuição, por inspiração, ou por essa espécie de presciência inerente à dupla vista que muitas pessoas possuem sem disso desconfiar. A vossa intuição estava concentrada sobre os lineamentos da mão, aplicastes a

ideia a um sinal no qual uma outra pessoa teria visto coisa diferente, ou ao qual teríeis atribuído um significado diferente num outro indivíduo.