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A Gênese é uma das cinco obras básicas da Codificação do Espiritismo. É um livro que, conhecido e estudado, proporciona uma oportunidade excepcional de imersão em grandes temas de interesse universal, abordados de forma lógica, racional e reveladora. Divide-se em três partes: na primeira parte, analisa a origem do planeta Terra, de forma coerente, fugindo às interpretações misteriosas e mágicas sobre a criação do mundo; na segunda, aborda a questão dos milagres, explicando a natureza dos fluidos e os fatos extraordinários contidos no Evangelho; na terceira enfoca as predições do Evangelho, os sinais dos tempos e a geração nova, que marcará um novo tempo no mundo com a prática da justiça, da paz e da fraternidade. Os assuntos apresentados nos dezoito capítulos desta obra têm como base a imutabilidade das grandiosas leis divinas.
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CAPÍTULO XII – GÊNESE MOSAICA

OS SEIS DIAS

1. – CAPÍTULO I

–  1. No começo, Deus criou o céu e a Terra.

– 2. A Terra era uniforme e toda nua. As trevas cobriam a face do abismo, e o Espírito de Deus estava colocado sobre as águas.

– 3. Ora, Deus disse: Que a luz seja feita e a luz foi feita.

– 4. Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas.

– 5. Deu à luz o nome de dia e às trevas o nome de noite; e da tarde e da manhã se fez o primeiro dia.

– 6. Deus disse também: Que o firmamento seja feito no meio das águas, e que ele separe as águas com as águas.

– 7. E Deus fez o firmamento; e ele separou as águas que estavam sob o firmamento daquelas acima do firmamento. E tal se fez assim.

– 8. E Deus deu ao firmamento o nome de céu; e de tarde e de manhã se fez o segundo dia.

– 9. Deus disse ainda: que as água que estão sob o céu se reunissem em um só lugar, e que o elemento árido aparecesse. E isso se fez assim.

– 10. Deus deu ao elemento árido o nome de terra, e chamou de mares todas as águas reunidas. E viu que isto era bom.

– 11. Deus disse ainda: Que a terra produza a erva verde, que porte grão e árvores frutíferas que portem fruta cada qual conforme sua espécie e encerrem suas sementes nelas mesmas para se reproduzirem sobre a terra. E isso se fez assim.

– 12. A terra produziu erva verde que continha o grão conforme sua espécie e árvores frutíferas que encerrava suas sementes nelas mesmas, cada qual conforme sua espécie. E Deus viu que isso era bom.

– 13. E da tarde e da manhã se fez o terceiro dia.

– 14. Deus disse também: Que corpos de luz sejam feitos no firmamento do céu a fim de que separem os dias das noites e que sirvam de símbolo para marcarem o tempo e as estações, os dias e os anos.

– 15. Que eles luzam no firmamento do céu e que clareiem a Terra. E isso se fez assim.

– 16. Deus fez, pois, dois grandes corpos luminosos, um, maior, para presidir o dia, e o outro menor para presidir a noite; fez também as estrelas;

– 17. E as colocou no firmamento do céu para luzir sobre a Terra.

– 18. Para presidir o dia e a noite e para separar a luz das trevas. E Deus viu que isso era bom.

– 19. E da tarde e da manhã se fez o quarto dia.

– 20. Deus disse ainda: que as águas produzam animais vivos que nadem na água, e pássaros que voem sobre a terra e sob o firmamento do céu.

– 21. Deus criou, pois, os grandes peixes e todos os animais que possuam a vida e o movimento; que as águas produziram cada um conforme sua espécie e criou também os pássaros conforme sua espécie. Ele viu que isso era bom.

– 22. E os abençoou dizendo: Crescei e multiplicai, e enchei as águas do mar; e que os pássaros se multipliquem sobre a Terra.

– 23. E da tarde e da manhã se fez o quinto dia.

– 24. Deus disse também: Que a Terra produz animais vivos cada um conforme sua espécie, os animais domésticos, os répteis e as bestas selvagens da Terra conforme suas diferentes espécies. E isso se fez assim.

– 25. Deus fez pois, as bestas selvagens da Terra conforme suas espécies, os animais domésticos e todos os répteis cada um conforme sua espécie. E Deus viu que isto era bom.

– 26. Ele disse em seguida: Façamos o homem à nossa imagem e à nossa semelhança e que ele comande os peixes do mar, os pássaros do céu, as bestas, a toda a Terra e a todos os répteis que se movam sobre a Terra.

– 27. Deus criou, pois, o homem à sua imagem e o criou à imagem de Deus e os criou macho e fêmea.

– 28. Deus os abençoou e lhes disse: Crescei e multiplicai-vos, encheis a Terra e vos sujeitai-a, e dominai os peixes do mar, os pássaros do céu e todos os animas que se movam sobre a Terra.

– 29. Deus disse ainda: E vos dei todas as ervas que portam seus grãos sobre a terra e todas as árvores que encerram nelas mesmas sua semente, cada uma conforme sua espécie, a fim de que vos sirvam de nutrição;

– 30. E a todos os animais da Terra, a todos os pássaros do céu, a todos os que se movem sobre a Terra e que estão vivos e animados, a fim de que tenham com que se nutrir. E isso se fez assim.

– 31. Deus viu todas as coisas que havia feito; e elas eram muito boas.

– 32. E da tarde e da manhã se fez o sexto dia.

 

2. – CAPÍTULO II.

– 1. O Céu e a Terra foram, pois assim acabados com todos os seus ornamentos.

– 2. Deus terminou ao sétimo dia toda a obra que havia feito e repousou ao sétimo dia, após ter concluído todas as suas obras.

– 3. Ele abençoou o sétimo dia e o santificou porque havia cessado nesse dia a produção de todas as obras que havia criado.

– 4. Tal é a origem do céu e da Terra e é assim que foram criados no dia em que o Senhor Deus fez um e outro

– 5. E que criou todas as plantas dos campos antes que fossem saídas da terra, e todas as ervas da campanha antes que elas fossem impulsionadas. Porque o Senhor Deus não havia ainda feito chover sobre a Terra, e não possuía nenhum homem para laborá-la;

– 6. Mas se elevara da Terra uma fonte que regaria toda a superfície.

– 7. O Senhor Deus formou, pois, o homem do limo da terra e derramou sobre sua face um sopro de vida e o homem se tornou vivente e animado.

2. Após as revelações contidas nos capítulos precedentes sobre a origem e a constituição do Universo conforme os dados fornecidos pela Ciência, pela parte material, e conforme o Espiritismo pela parte espiritual, seria útil colocar em paralelo o próprio texto da Gênese de Moisés a fim de que cada um possa estabelecer uma comparação e julgar com conhecimento de causa; algumas explicações suplementares bastarão para fazer compreender as partes que tenham necessidade de esclarecimentos especiais.

3. Sobre alguns pontos, há certamente uma concordância notável entre a Gênese de Moisés e a doutrina científica (b); mas seria um erro crer-se que seja suficiente substituir os seis dias de vinte e quatro horas da Criação, seis períodos indeterminados para encontrar uma analogia completa: o que seria um erro não menor do que crer que, salvo o senso alegórico de algumas palavras, a Gênese e a Ciência seguem passo a passo e o são apenas a paráfrase, uma da outra.

4. Distingamos, a princípio, assim que aquilo foi dito (cap. VII, n° 14) que o número dos seis períodos geológicos é arbitrário, posto que, conta-se mais de vinte e cinco formações bem características. Este número só marca as grandes fases gerais; apenas adotou a princípio, para encontrar, o mais possível, no texto bíblico, em uma época, pouco distante do resto, onde se acreditava que se devia controlara a Ciência pela Bíblia.

Por outro lado, a geologia, tomando seu ponto de partida desde a formação dos terrenos graníticos, não compreende no número de seus períodos do estado primitivo da Terra. Lua não se ocupa nem mais do Sol, da Lua e das estrelas, nem do conjunto do Universo que cabem à Astronomia. Para entrar na moldura da Gênese, convém, pois, juntar um primeiro período abrangendo esta ordem de fenômenos e que poderia se chamar de período astronômico. (c)

Por outro lado, o período diluviano não é considerado por todos os geólogos como formando um período distinto, mas como um feito transitório e passageiro que não trocou notavelmente o estado climático do globo, nem marcou uma nova fase nas espécies vegetais e animais, já que por pouco próxima exceção, as mesmas espécies encontram-se antes e depois do dilúvio. Pode-se, pois, fazer abstração sem descartar a verdade.

5. – O quadro comparativo seguinte no qual resumem-se os fenômenos que caracterizam cada um dos eis períodos, permite abranger juntamente e de julgar as descrições e as diferenças que existem entre elas e a Gênese bíblica.

PELA CIÊNCIA – I. PERÍODO ASTRONÔMICO. – Aglomeração da matéria cósmica universal sobre um ponto do espaço em uma nebulosa que deu origem, pela condensação da matéria, sobre diversos pontos, às estrelas, ao Sol, à Terra, à Lua e a todos os planetas.

Estado primitivo fluídico e incandescente da Terra. – Atmosfera imensa carregada com toda a água em vapor e, de todas as matérias volatilizáveis.

PELA GÊNESE – 1° DIA

– o céu e a Terra – a Lua.

PELA CIÊNCIA – II. PERÍODO PRIMÁRIO. – Endurecimento da superfície da Terra pelo resfriamento; formação das camadas graníticas. – Atmosfera espessa e ardente, impenetrável aos raios do Sol. – Precipitação gradual da água e das matérias sólidas volatilizadas no ar. – Ausência de qualquer vida orgânica.

PELA GÊNESE – 2° DIA

– O firmamento – Separações das águas que estão sobre o firmamento das que estejam abaixo.

PELA CIÊNCIA – III. PERÍODO DE TRANSIÇÃO. – As águas cobrem toda a superfície do globo. – Primeiros depósitos de sedimento formados pelas águas. – Calor úmido. – O Sol começa a penetrar na atmosfera mais depurada. – Primeiros seres organizados da constituição, a mais rudimentar. – Líquenes, musgos, fetos, licopódios, plantas herbáceas. – Vegetação colossal. – Primeiros animais marinhos: zoófitos, pólipos, crustáceos. – Depósitos mineiros.

PELA GÊNESE – 3° DIA

– As águas que estão sob o firmamento se reúnem; o elemento árido aparece. – A Terra e os mares. – As plantas.

PELA CIÊNCIA – IV. PERÍODO SECUNDÁRIO. – Superfície da Terra pouco acidentada; águas pouco profundas e pantanosas. – Temperatura menos ardente; atmosfera mais depurada. Depósitos consideráveis de calcários pelas águas. – Vegetação menos colossal; novas espécies; plantas lenhosas; primeiras árvores. – Peixes, cetáceos; animais com conchas; grandes répteis aquáticos e anfíbios.

PELA GÊNESE – 4° DIA

– O Sol, a Lua e as estrelas.

PELA CIÊNCIA – V. PERÍODO TERCIÁRIO. – Grandes levantamentos da crosta sólida; formação dos continentes. Retraimento das águas nos lugares baixios; formação dos mares. – Atmosfera depurada; temperatura atual pelo calor solar. – Animais terrestres gigantescos. – Vegetais e animais atuais. Pássaros.

PELA GÊNESE – 5° DIA

– Os peixes e os pássaros.

 

DILÚVIO UNIVERSAL

CIÊNCIA – VI. PERÍODO QUATERNÁTIO OU PÓS DILUVIANO. – Terrenos de aluvião. – Vegetais e animais da atualidade. – O homem.

PELA GÊNESE –  6° DIA  – Os animais terrestres. O homem.

 

6. – Um primeiro fato que ressalta do quadro comparativo acima é que a obra de cada um dos seis dias não correspondem, de uma maneira rigorosa, como muitos o creem, a cada um dos seus períodos geológicos. A concordância mais remarcável é a da sucessão de seres orgânicos, que está a pouca coisa próxima dele, e na aparição do homem por último; ora, é um fato importante.

Há igualmente coincidência, não com a ordem numérica dos períodos, mas, pelo fato, na passagem onde disse que o terceiro dia: “As águas que estão sob o céu se reuniram em um só lugar e que o elemento árido surgiu”. É a expressão de que ele teve lugar no período terciário, quando os soerguimentos da crosta sólida mostraram-se a descoberto os continentes e comprimiram as águas que formaram os mares. É então, somente que apareceram os animais terrestres, conforme a Geologia e conforme Moisés.

7. – Quando Moisés disse que a criação fora feita em seis dias, teria querido falar em dias de 24 horas, ou, na verdade, compreendeu este termo no sentido de: período, duração, espaço de tempo indeterminado, o termo hebreu traduzido por dia tendo esta dupla acepção? A primeira hipótese é a mais provável, caso se o refira ao próprio texto. A especificação de tarde e de manhã que limitam cada um dos seis dias dá lugar em se supor que ele quis falar de dias ordinários. Não se pode, mesmo, conceber nenhuma dúvida a esta consideração desde o que ele diz no versículo 5: “ele deu à luz o nome de dia e às trevas o nome de noite, e, de tarde e de manhã fizera-se o primeiro dia”. Isto não pode se aplicar senão ao dia de 24 horas, dividido pela luz e as trevas. O sentido é ainda mais preciso quando ele diz, versículo 17, falando do Sol, da Lua e das estrelas: “Ele os colocou no firmamento para luzir sobre a Terra; para presidir o dia e a noite e para separar a luz das trevas. E da tarde e da manhã se fez o quarto dia”.

Além disso, tudo na Criação era miraculoso e desde quando se entra na via dos milagres, pode-se perfeitamente crer que a Terra fora feita em seis vezes vinte e quatro horas, sobretudo quando se ignora as primeiras leis naturais. Esta crença tem sido bem partilhada por todos os povos civilizados até o momento em que a Geologia veio, peças na mão, demonstrar-lhe a impossibilidade.

8. – Um dos pontos que tem sido dos mais criticados na Gênese, é a criação do Sol depois da luz. Tem-se procurado explicar, após os próprios dados fornecidos pela Geologia em dizendo que nos primeiros tempos de sua formação a atmosfera terrestre, estando carregada de vapores densos e opacos, não permitia ver o Sol que desde então não existia para a Terra. Esta razão seria talvez admissível se, a esta época houvesse habitantes a presença ou ausência do Sol; ora, conforme Moisés mesmo, nem plantas ainda havia que, todavia não poderiam crescer e se multiplicar sem a ação do calor solar.

Há, pois, evidentemente, um anacronismo na ordem em que Moisés assinala a criação do Sol, mas, involuntariamente ou não cometeu erro ao dizer que a luz tinha precedido o Sol.

O Sol não é absolutamente o princípio da luz universal, mas uma concentração de elementos luminosos em um local, de outro modo, dito, do fluido que, pelas circunstâncias dadas adquiriam as propriedades luminosas. Este fluido (e) que é a causa, devia necessariamente existir antes do Sol, que é, apenas, um efeito. O Sol é causa para a luz que ele resplandece mas é efeito àquela que tenha adquirido.

Numa câmara escura, uma vela acesa é um pequeno sol. O que se fez para acender a vela? Desenvolveu-se a propriedade clareadora do fluido luminoso e se concentrou este fluido sobre um ponto; a vela é a causa da luz resplandecente no cômodo, mas se o princípio luminoso não existisse anteriormente à vela, ela não poderia estar acesa.

É o mesmo com o Sol. O erro advém da ideia falsa que se tem tido durante longo tempo que o Universo todo inteiro tenha começado com a Terra e não se compreendia que o Sol pudesse ser criado após a luz. Sabe-se agora que antes do nosso Sol e nossa Terra, milhões de sóis e de terras existiam que desfrutavam por consequência, da luz. A assertiva de Moisés é pois perfeitamente exata em princípio; ela é falsa no que faz crer a Terra antes do Sol; a Terra, estando sujeita ao Sol pelo seu movimento de translação, deveu ser forma após ele; é o que Moisés não podia saber, já que ignorava a lei de gravitação.

O mesmo pensamento encontra-se na Gênese persa dos anciões, no primeiro capítulo do Zend-Medas Ormuzd referindo-se à origem do mundo disse: “criei a luz que foi clarear o Sol, a Lua e as estrelas”. (Dicionário de Mitologia Universal). A forma é certamente aqui mais clara e mais científica que em Moisés e dispensa comentários.

9. – Moisés partilhava evidentemente as crenças, as mais primitivas, sobre a cosmogonia. Como os homens de seu tempo, acreditava na solidez da abóbada celeste, e em reservatórios superiores para as águas. Este pensamento está expresso sem alegorias nem ambiguidades nesta passagem (versículo6 e seguintes): “Deus disse; Que o firmamento seja feito no meio das águas e que ele separe as águas com as águas. Deus fez o firmamento e separou as águas que estava sobre o firmamento das que estavam abaixo do firmamento”. (Ver cap. V Sistema dos mundos antigos e modernos n° 3,4,5).

Uma antiga crença fazia considerar a água como o princípio, o elemento gerador primitivo; também Moisés não fala da criação das águas que parece já existirem. “As trevas cobriam o abismo”, ou seja, as profundezas do espaço que a imaginação concebia vagamente ocupada pelas águas e nas trevas antes da criação da luz, eis porque Moisés disse que: “o Espírito de Deus conduzia-se sobre as águas”. A Terra estando supostamente formada no meio das águas, era preciso isolá-la; supôs-se, pois, que Deus tinha feito o firmamento, abóbada sólida, que separava as águas do alto das que estavam restantes sobre a Terra.

Para compreender certas partes da Gênese, é preciso necessariamente se situar do ponto de vista das ideais cosmogônicas do tempo em que seja o reflexo.

10. – Ante o progresso da Física e da Astronomia, uma semelhante doutrina não é sustentável (1). Contudo, Moisés atribui estas palavras ao próprio Deus; ora, posto que elas exprimem um fato notoriamente falho, das duas uma: ou Deus se enganou no relato que faz de sua obra, ou este relato não é uma revelação divina. A primeira suposição não sendo admissível, é necessário concluir que Moisés exprimiu suas próprias ideias (Cap. I, n° 3).

11. – Moisés está mais na verdade quando diz que Deus formou o homem com o aluvião da Terra (2). A Ciência nos mostra, com efeito, (cap. X) que o corpo de homem é composto de elementos retirados da matéria inorgânica, senão dito um limo da terra.

A mulher formada de uma costela de Adão é uma alegoria pueril na aparência, se a tomarmos ao pé da letra, mas profunda pelo sentido. Tem por alvo mostrar que a mulher é da mesma natureza do homem, seu igual, por consequência, ante Deus e não uma criatura à parte feita para ser sujeita e tratada como pessoa abjeta, saída de sua própria carne, a imagem da igualdade é bem mais comovente do que se ela tivesse sido formada separadamente do mesmo barro; é para dizer ao homem que ela é sua igual e não a sua escrava. Que ele deve amá-la como uma parte de si próprio.

12. – Para Espíritos incultos, sem nenhuma ideia das leis gerais, incapazes de abranger o conjunto e conceber o infinito, esta criação miraculosa e instantânea tinha algo de fantástico que impressionava a imaginação. O quadro do Universo tirado do nada em poucos dias, por um só ato da vontade criadora, era para eles a marca a mais magnífica do poder de Deus. Qual pintura, de fato, mais sublime e mais poética deste poder que estas palavras: “Deus disse: que a luz se faça e a luz se fez!” Deus criando o Universo por realização lenta e gradual das leis da natureza, ter-se-ia parecido menor e menos poderoso; era-lhe preciso algo de maravilhoso que saísse das vias ordinárias, senão teriam dito que Deus não era mais hábil que os homens. Uma teoria científica e racional da Criação tê-los-ia deixado frios e indiferentes.

Os homens primitivos são como as crianças às quais é preciso dar apenas o alimento intelectual que comporte sua inteligência. Atualmente, que estamos esclarecidos pelas luzes da Ciência, relevamos os erros materiais do relato de Moisés, mas não o censuramos por ter falado a linguagem do seu tempo sem o que não seria nem compreendido nem aceito.

Respeitemos estes quadros que nos parecem pueris atualmente, como respeitamos os apólogos que clarearam nossa primeira infância e abriram nossa inteligência, ensinando-nos a pensar. É com estes quadros que Moisés inculcou nos corações dos homens primitivos a fé em Deus e em seu poder, fé ingênua que devia se purificar mais tarde ao brilho da Ciência. Porque saibamos ler corretamente, não desprezemos o livro onde aprendemos a soletrar.

Não rejeitemos, pois, a Gênese bíblica; estudemo-la, pelo contrário, como se estuda a História da infância dos povos. É uma epopeia rica em alegorias onde se torna necessário procurar o sentido oculto; que é preciso comentar e explicar com a ajuda das luzes da razão e da Ciência. Todo se fazendo ressair as belezas poéticas e as instruções veladas sob a forma de metáforas, é preciso demonstrar decididamente os erros, no próprio interesse da religião. Respeitar-se-á melhor quando estes erros não forem mais impostos pela fé, como verdades, e Deus não pareça maior e mais poderoso, logo que seu nome não seja misturado a fatos controversos.


NOTAS

(1) Por mais grosseiro que seja o erro de uma tal crença, ainda se a engambela menos em nossos dias as crianças como sendo uma verdade sacra. Não é que esteja cheio de medo que os instrutores ousam arriscar uma tímida interpretação. Como querem que isto não faça incrédulos mais tarde?

(2) O termo hebreu haadam, homem do qual deu Adão e o termo haadama, terra, têm o mesmo radical.

 

NOTAS DO TRADUTOR

(a) Traduzimos fielmente a versão francesa que Kardec nos apresenta embora não seja a configuração literal do texto da Vulgata latina, mas, uma de suas formas de dizer, e Kardec só pode ter colocado este trecho aqui porque está no contexto do tema do livro e precisa ser discutido, já que o que aqui se encerra não tem o menor cabimento da Razão. Nem com a hermenêutica dos seus intérpretes.

Cabe ainda lembrar que foi baseado nesta concepção que Ptolomeu engendrou a sua dita teoria geocentrista a respeito da existência do Universo, para não contrariar as leis religiosas do seu povo, o que, por si só, mostra a incoerência mosaica.

(b) Naquela época, os estudos científicos permitiam que se fizesse um comparativo entre os absurdos de Moisés e os ciclos ou períodos de formação da Terra, todavia, pelos novos conhecimentos, sabe-se, com exatidão, que, nem simbolicamente, pode-se tirar qualquer ilação a respeito da formação Universal, já que Moisés encerra seu trabalho como se a obra da Criação se limitasse à Terra, porque jamais poderia imaginar que o Universo fosse tão complexo e existisse algo relativo à vida fora da Terra. Cientificamente, a Gênese de Moises não merece qualquer consideração.

(c) Kardec, aqui se refere ao período anterior à existência da formação da Terra, onde vários outros astros foram formados.

(d) Acresce ainda dizer que Moisés não tinha o mínimo conhecimento de astronomia nem sabia que o dia era provocado pelo movimento de rotação do nosso planeta.

(e) Energia, atualmente.

(f) Provavelmente Kardec tenha inserido tal trecho no seu estudo pela sua importância à época predominantemente cristã porque não é de se admitir que hum homem que raciocinava pudesse levar a sério tal lenda.

(g) Pior ainda, é saber por que os outros animais, que nada tinham com este pecado, também ficaram biologicamente sujeitos às mesmas leis do parto.

(h) Pior ainda é imaginar que eles já tenham sido criados adultos sem passarem pela infância, no entanto, os seus descendentes teriam que arcar com tal processo.

(i) Considerando que só agora, no final do século XX e início do XXI é que os cientistas puderam comprovar a existência cíclica do Universo, é de se supor que, se Kardec tivesse conhecimento disso, pudesse admitir que tal banimento de mundo superior da falange de Espíritos representada por Adão tivesse ocorrido justamente nesta última mudança cíclica da nova fase do nosso Universo.

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