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A Gênese é uma das cinco obras básicas da Codificação do Espiritismo. É um livro que, conhecido e estudado, proporciona uma oportunidade excepcional de imersão em grandes temas de interesse universal, abordados de forma lógica, racional e reveladora. Divide-se em três partes: na primeira parte, analisa a origem do planeta Terra, de forma coerente, fugindo às interpretações misteriosas e mágicas sobre a criação do mundo; na segunda, aborda a questão dos milagres, explicando a natureza dos fluidos e os fatos extraordinários contidos no Evangelho; na terceira enfoca as predições do Evangelho, os sinais dos tempos e a geração nova, que marcará um novo tempo no mundo com a prática da justiça, da paz e da fraternidade. Os assuntos apresentados nos dezoito capítulos desta obra têm como base a imutabilidade das grandiosas leis divinas.

CAPÍTULO XIV – OS FLUIDOS

NATUREZA E PROPRIEDADE DOS FLUIDOS

1. – A Ciência deu a chave dos milagres que competem mais particularmente ao elemento material, quer explicando-os, quer demonstrando-lhe a impossibilidade, pelas leis que regem a matéria; mas os fenômenos nos quais o elemento espiritual tenha uma parte preponderante não podendo ser explicado somente pelas leis da matéria, escapam às investigações da Ciência: é porque eles têm, mais do que os outros, os caracteres aparentes do maravilhoso. É, pois, nas leis que regem a vida espiritual que se pode encontrar a chave dos milagres desta
categoria.

2. – O fluido cósmico universal é, tal como ficou demonstrado, a matéria elementar primitiva (b) da qual as transformações constituem a inumerável variedade de corpos da natureza. No que respeita ao princípio elementar universal, ela apresenta dois estados distintos: o de eletrização ou de imponderabilidade que se pode considerar como o estado primitivo, e o de materialização ou de ponderabilidade que vem a ser, de alguma forma, sua consequência. O ponto intermediário é o de transformação do fluido em matéria tangível; mas ainda aí, não existe transição brusca, pois, pode-se considerar como o estado primitivo, e o de materialização ou de imponderabilidade, que vem a ser de alguma forma, sua consequência. O ponto intermediário é o de transformação do fluido em matéria tangível; mas, ainda aí, não existe transição brusca, pois, pode-se considerar nossos fluidos imponderáveis como um termo intermediário entre os dois estados (Cap. IV, n° 10 e seguintes).

Cada um destes dois estados dá necessariamente a lugar a fenômenos especiais: ao segundo cabem os do mundo visível e ao primeiro os do mundo invisível. Alguns chamados fenômenos materiais estão na alçada da Ciência propriamente dita; estes outros qualificados de fenômenos espirituais ou psíquicos (c), porque se ligam mais especificamente à existência do Espírito, estão nas atribuições do Espiritismo: mas, como a vida espiritual e a vida corpórea estão em contato incessante, os fenômenos de ambas as ordens se apresentam simultaneamente. O homem, no estado encarnatório, só pode ter a percepção dos fenômenos físicos que se ligam à vida corpórea; os que são do domínio exclusivo da vida espiritualescapam aos sensórios materiais, e só podem ser percebidos no Estado de Espírito (1).

3. – Ao estado de eterização, o fluido cósmico não é uniforme, sem cessar de ser etéreo, assume modificações também variáveis em seu gênero, e mais numerosas, talvez, do que no estado de matéria tangível. Estas modificações constituem fluidos distintos que, bem que procedentes do mesmo princípio, são dotados de propriedades especiais e dão lugar aos fenômenos particulares do mundo invisível.

Tudo sendo relativo, estes fluidos têm para os Espíritos que são propriamente fluídicos, uma aparência também material como a dos objetos tangíveis para os encarnados e são para eles o que são para nós as substâncias do mundo terrestre, eles os elaboram, combinam-nos, para produzir efeitos determinados como fazem os homens com seus materiais, todavia, por processos distintos.

Contudo, como aqui em baixo, só é dado aos Espíritos os mais esclarecidos, compreender o papel dos elementos constitutivos de seu mundo. Os ignorantes do mundo invisível são também incapazes de explicar os fenômenos dos quais são testemunhos e aos quais concorrem com frequência maquinalmente, tal como os ignorantes da Terra não sabem explicar os efeitos da luz ou da eletricidade, de dizer como veem e entendem.

4. – Os elementos fluídicos do mundo espiritual escapam a nossos instrumentos de análise e à percepção de nossos sentidos feitos para a matéria tangível e não para a matéria etérea. É que eles pertencem a um meio totalmente distinto do nosso, que não o podemos julgar senão por comparações também imperfeitas como as que um nascido cego procure fazer uma ideia da teoria das cores.

Mas, entre estes fluidos, alguns deles estão intimamente ligados à vida corpórea e pertencem de alguma sorte, ao meio terrestre. Na ausência de percepção direta, pode-se observar os efeitos e conseguir sobre sua natureza, conhecimentos de uma certa precisão. Este estudo é essencial, porque é a chave de uma porção de fenômenos inexplicáveis somente pelas leis da matéria.

5. – O ponto de partida do fluido universal é o patamar de puridade absoluta, do qual nada nos pode dar uma ideia; a posição oposta é sua transformação em matéria tangível. Entre estes dois extremos existem inumeráveis transformações que se aproximam, mais ou menos, de uma e de outra. Os fluidos, os mais vizinhos da matéria, os menos puros, por consequência, compõem o que se pode chamar mais ou menos puros por consequência, compõem o que se pode chamar a atmosfera espiritual terrestre. É neste meio onde se encontra igualmente diferentes degraus de pureza, que os Espíritos encarnados e desencarnados da Terra tiram os elementos necessários à economia de sua existência. Estes fluidos, mais ou menos sutis, e impalpáveis que sejam para nós, não o são menos de uma natureza grosseira comparativamente aos fluidos etéreos das regiões superiores.

É o mesmo com a superfície de todos os mundos, salvo as diferenças de constituição e as condições de vitalidade próprias a cada um. Quanto menos a vida seja material, menos os fluidos espirituais têm afinidade com a matéria propriamente dita.

A qualificação de fluidos espirituais não é rigorosamente exata, já que, em definitivo, é sempre a matéria mais ou menos quintessenciada. Só há realmente de espiritual a alma ou princípio inteligente. Designa-se os assim por comparação, e em razão, sobretudo de sua afinidade com os Espíritos. Pode-se dizer que é a matéria do mundo espiritual, eis porque os chamamos de fluidos espirituais.

6. – Quem conhece alhures a constituição íntima da matéria tangível? (e) Ela talvez só seja compacta em relação a nossos sentidos e o que o provaria é a facilidade com a qual ela é atravessada pelos fluidos espirituais e os Espíritos aos quais ela não faz mais obstáculo senão como corpos transparentes não o sendo à luz.

A matéria tangível, tendo por elemento primitivo o fluido cósmico etéreo deve poder, em se desagregando, retornar ao estado de eterização, como o diamante, o mais duro dos corpos pode se volatilizar em gás impalpável. A solidificação da matéria é em realidade, apenas, um estado transitório do fluido universal, que pode retornar ao seu estado primitivo quando as condições de coesão deixam de existir.

Quem sabe, mesmo, se, ao estado de tangibilidade, a matéria não seja susceptível de adquirir uma sorte de eterização que lhe daria propriedades particulares? Certos fenômenos que parecem autênticos tenderiam a lhe fazer supor. Só possuímos ainda os primeiros passos do mundo invisível e o futuro nos reserva sem dúvida, o conhecimento de novas leis que nos permitirão compreender o que é ainda, para nós, um mistério.

7. – O perispírito, ou corpo fluídico do Espírito é um dos produtos do fluido cósmico; é uma condensação deste fluido em volta de um centro de inteligência ou alma. Viu-se que o corpo carnal tem igualmente seu princípio neste mesmo fluido transformado e condensado em matéria tangível; no perispírito a transformação molecular se opera diferentemente, porque o fluido conserva sua imponderabilidade (f) e suas qualidades etéreas. O corpo perispiritual e o corpo somático têm, pois, suas fontes no mesmo elemento primitivo: um e outro são da matéria, contudo, sob dois estados distintos.

8. – Os Espíritos tiram seu perispírito do meio onde se encontram, isto é, que este envoltório é formado dos fluidos ambientais; disso resulta que os elementos constituintes do perispírito devam variar conforme os mundos. Júpiter, sendo dado como um mundo muito avançado comparativamente à Terra, onde a vida corporal não tem a materialidade da nossa, os envoltórios perispirituais devem ser aí de uma natureza infinitamente mais quintessenciada do que sobre a Terra.

Ora, da mesma forma que não podemos existir neste mundo com nosso corpo carnal, nossos Espíritos não poderiam nele penetrar com seu perispírito terrestre. Abandonando a Terra, o Espírito aí deixa seu envoltório fluídico e veste um outro apropriado ao mundo para onde deva ir.

9. – A natureza do envoltório fluídico é sempre correlata com o adiantamento moral do Espírito. Os Espíritos inferiores não podem trocá-lo a seu capricho e, por conseqüência, não podem, à vontade, transportar-se de um mundo para outro. Eis, pois, o envoltório fluídico, embora etéreo e imponderável em relação à matéria tangível, é ainda deveras pesado, salvo se possa exprimir assim em relação ao mundo espiritual, por lhe permitir em sair de seu meio. É preciso enfileirar nesta categoria aqueles que, pois, o perispírito seja assaz grosseiro para que eles o circundem com seu corpo carnal e que, por este motivo, creiam-se sempre vivos. Estes Espíritos, e é grande o seu número, ficam na superfície da Terra como os encarnados, crendo sempre vagar com suas ocupações; outros, um pouco mais desmaterializados, não o são todavia, capazes de se elevar acima das regiões terrestres. (2)

Os Espíritos superiores, ao contrário, podem vir aos mundos inferiores e até neles encarnaremse. Eles haurem nos elementos constituintes do mundo onde penetram os materiais de envoltório fluídico ou carnal apropriado ao meio onde se encontram. Fazem como o grande senhor que deixa suas roupas douradas para se vestirem momentaneamente de veste grosseira, sem deixar de ser o grande senhor.

É assim que os Espíritos de ordem mais elevada podem se manifestar aos habitantes da Terra, ou encarnar-se em missões entre nós. Estes Espíritos trazem com eles não o envoltório, mas a lembrança por intuição das regiões de onde vieram e que veem pelo pensamento. São videntes entre os cegos.

10. – A camada dos fluidos espirituais que envolvem a Terra pode ser comparada com as camadas inferiores da atmosfera, mais pesadas, mais compactas, menos puras que as camadas superiores. Estes fluidos não são homogêneos; é uma mistura de moléculas de diversas qualidades, entre as quais se encontram necessariamente as moléculas elementares que formam a base mais ou menos alterada. Os efeitos produzidos por estes fluidos estarão na razão da soma das partes puras que encerram. Tal é, por comparação, o álcool retificado ou misturado, em diferentes proporções com água ou outras substâncias: seu peso específico aumenta em decorrência desta mistura ao mesmo tempo que sua potência e sua inflamabilidade diminuem, bem embora, no todo, exista álcool puro.

Os Espíritos chamados a viver neste meio, nele haurem seu perispírito, mas conforme o Espírito seja, ele mesmo, mais ou menos puro, seu perispírito forma-se das partes as mais puras ou mais grosseiras respectivas deste meio. O Espírito aí produz, sempre por comparação e não por assimilação, o efeito de uma reação química que lançaram sobre si as moléculas assimiláveis à sua natureza.

Disto resulta este fato capital, que a constituição íntima do perispírito não é idêntica entre todos os Espíritos encarnados e desencarnados que povoam a Terra o espaço envolvente. Não o é a mesma coisa com o corpo carnal, que, como conforme foi demonstrado, é formado dos mesmos elementos, qualquer que seja a superioridade ou a inferioridade do Espírito. Também, entre todos os efeitos produzidos pelos corpos, são os mesmos, as necessidades parelhas ao passo que diferem por tudo isto que seja inerente ao perispírito.

Disso resulta, ainda que o envoltório perispiritual do mesmo Espírito se modifique com o progresso moral dele a cada encarnação, desde que se encarnando no mesmo meio; que os Espíritos superiores encarnando-se excepcionalmente em missão num mundo inferior têm um perispírito menos grosseiro do que os indígenas deste mundo.

11. – O meio é sempre relativo à natureza dos seres que aí devam viver; os peixes estão na água, os seres terrestres estão no ar; os seres espirituais estão no fluido espiritual ou etéreo mesmo sobre a Terra. O fluido etéreo está para as necessidades do Espírito tal como a atmosfera para a necessidade dos encarnados. Ora, tal como os peixes não podem viver no ar, eu os animais terrestres não podem viver numa atmosfera bastante rarefeita para seus pulmões, os Espíritos inferiores não podem suportar a claridade e a impressão dos fluidos os mais etéreos. Não morreriam aí porque o Espírito não morre, mas uma força instintiva os manteria afastados, como se afastasse de um fogo muito ardente ou de uma luz deveras ofuscante. Eis porque eles não podem sair do meio apropriado à sua natureza, para mudar isso, é preciso que troquem primeiramente sua natureza; que se despojem dos instintos materiais que os retenham nos ambientes materiais; em uma palavra, que se purifiquem e se transformem moralmente, então, gradualmente, eles se identificarão com um meio mais puro, que tornam para eles uma necessidade necessária, como os olhos de quem por longo tempo viveu nas trevas para se habituarem insensivelmente à luz do dia e ao clarão do Sol.

12. – Assim, tudo se liga, tudo se encadeia no Universo; tudo é submisso à grande e harmoniosa lei de unidade, desde a materialidade, a mais compacta, até a espiritualidade, a mais pura. A Terra é como uma vasilha de onde se escapa uma fumaça espessa que se rarefaz à medida que se eleva e donde as parcelas rarefeitas se perdem no espaço infinito.

O poder divino explode em todas as partes deste conjunto grandioso, e quer-se-ia que, para melhor atestar seu poder, Deus, não contente disso que fez, viesse turbar esta harmonia! Que se abaixasse ao papel de mágico por efeitos pueris dignos de um prestidigitador! E ousa-se por acréscimo, dar-lhe por rival em habilidade o próprio Satã! Jamais, em verdade, não se rebaixou por tanto tempo a majestade divina e, pasmem-se do progresso da incredulidade!

Tendes razão de dizer: “A fé se foi!” Mas é a fé em tudo o que choca o bom senso e a razão que se foi; a fé semelhante à que fazia dizer outrora: “Os deuses se vão!” Mas a fé nas coisas sérias, a fé em Deus e na imortalidade está sempre viva no coração do homem e se ela foi sufocada sob as pueris histórias com as quais a sobrecarregaram ela se ergue mais forte desde que seja resgatada, como a planta comprimida soergue-se desde que torne a ver o Sol! Sim, tudo é milagre na natureza, porque tudo é admirável e testemunho da sabedoria divina! Estes milagres são para todo mundo; para todos os que tenham olhos para ver e ouvidos para escutar, e não ao proveito de alguns. Não! Nunca há milagres no sentido que se toma desta palavra, porque tudo evidencia leis eternas da criação.

13. – Os fluidos espirituais que constituem um dos estados do fluido cósmico universal (g), são, pois, a atmosfera dos seres espirituais; é o elemento onde eles haurem os materiais sobre os quais operam; o meio onde se passam os fenômenos especiais, perceptíveis à vista e ao ouvido do Espírito e que escapam aos sensórios carnais impressionados apenas pela matéria tangível; é, enfim, o veículo do pensamento, como o ar é o veículo do som.

14. – Os Espíritos agem sobre os fluidos espirituais, não os manipulando como os homens manipulam o gás, mas com a ajuda do pensamento e da vontade. O pensamento e a vontade estão para o Espírito como a mão está para o homem. Pelo pensamento, eles imprimem neste fluido tal ou qual direção; eles os aglomeram, combinam-nos ou dispersam-nos; eles formando conjunto tendo uma aparência, uma forma, um cor determinada; trocando as propriedades como um químico troca as de um gás ou de outros corpos combinando-os segundo certas leis. É a grande oficina ou laboratório da vida espiritual.

Por vezes, estas transformações são o resultado de uma intenção; frequentemente são o produto de um pensamento inconsciente; é suficiente o Espírito pensar numa coisa para que esta coisa se reproduza.

É assim, por exemplo, que um Espírito se apresenta à vista de um encarnado, dotado da vista espiritual, sob as aparências que tinha em sua existência à época em que o tenha conhecido embora tenha tido várias encarnações após. Ele se apresenta com as vestes, os sinais externos, enfermidades, cicatrizes, membros amputados, etc., que tinha então; um decapitado apresentar-se-á sem a cabeça. Não é para dizer que tenha conservado tais aparências; não, certamente, porque, como Espírito, ele não é nem coxo, nem maneta, nem caolho, nem decapitado; mas seu pensamento se reportando à época em que era assim, seu perispírito toma instantaneamente as aparências que o deixa como tal, instantaneamente. Se, pois, ele tenha sido uma vez negro e outra vez branco, ele se apresentará como negro ou como branco, de acordo com a qual, das duas encarnações sob a que seja evocado e onde se reportará seu pensamento.

Por um efeito análogo, o pensamento do Espírito cria fluidicamente os objetos dos quais tenha o hábito de se servir; um avaro manejará ouro, um militar terá suas armas e seu uniforme, um fumante seu pito, um trabalhador sua charrua e seus bois, uma velha mulher sua roca.

Estes objetos fluídicos são também reais para o Espírito e que estariam no estado material para o homem encarnado; mas, pela mesma razão a qual são criados pelo pensamento, sua existência é também fugidia como o pensamento. (3)

15. – A ação dos Espíritos sobre os fluidos espirituais tem têm consequências de uma importância direta e capital para os encarnados. Desde o instante que estes fluidos são o veículo do pensamento, que o pensamento possa modificar as propriedades, é evidente que elas devam estar impregnadas das qualidades boas ou más dos pensamentos que os ponham em vibração, modificados pela pureza ou impureza dos sentimentos. Os maus pensamentos corrompem os fluidos espirituais, como os miasmas deletérios corrompem o ar respirável. Os fluidos que envolvem ou que emitem os maus Espíritos são, pois, viciados, ao passo que aqueles que recebem a influência dos bons Espíritos são também puros que comportam o grau da perfeição moral deles.

Seria impossível fazer nem uma enumeração nem uma classificação dos bons e dos maus fluidos, nem de especificar suas qualidades respectivas, atentando que sua diversidade é tão grande quanto a dos pensamentos.

16. – Se os fluidos ambientais são modificados pela projeção do pensamento do Espírito, seu envoltório perispiritual que é parte constituinte de seu ser, que recebe diretamente e de uma maneira permanente a impressão de seus pensamentos, deve mais ainda conduzir a impressão de suas qualidades boas ou más. Os fluidos viciados pelos eflúvios dos maus Espíritos podem se purificar pelo seu afastamento, mas seu perispírito será sempre o que é, tanto que o Espírito não se modificará por si mesmo.

17. – Os homens, sendo os Espíritos encarnados, têm, em parte, as atribuições da vida espiritual, porque vivem desta vida igualmente como da vida corpórea, a princípio, conforme o sono, e de acordo com o estado de vigília. O Espírito em se encarnado, conserva seu perispírito com as qualidades que lhe sejam próprias e que, como se sabe, não é circunscrita pelo corpo, mas irradiada toda em volta e envolta como uma atmosfera fluídica. Pela sua união íntima com o corpo, o perispírito goza de um papel preponderante no organismo; pela sua expansão, põe o Espírito encarnado em relação mais direta com os Espíritos livres.

O pensamento do Espírito encarnado atua sobre os fluidos espirituais como aquela dos Espíritos desencarnados; transmite-se de Espírito a Espírito pela mesma via e, conforme seja boa ou má, saneia ou vicia os fluidos envolventes.

18. – O perispírito dos encarnados, sendo de uma natureza idêntica à dos fluidos espirituais,
assimila-se a ele com facilidade, como uma esponja embebe-se de um líquido. Estes fluidos
têm sobre o perispírito uma ação tanto mais direta quanto pela sua expansão e sua radiação, confunde-se com ele.

Estes fluidos, atuando sobre o perispírito, cada qual a seu turno, reagem sobre o organismo material com o qual esteja em contato molecular. Se os eflúvios forem de boa natureza, o corpo ressente-se de uma impressão salutar; se são maus, a impressão é penosa; se as malignas forem permanentes e enérgicas, podem determinar desordens físicas. Certas doenças não têm outra causa.

Os meios onde abundam os maus Espíritos estão, pois, impregnados de maus fluidos que se o absorve por todos os poros perispirituais, como se absorve pelos poros do corpo os miasmas pestilentos.

19. – E isto ocorre igualmente nas reuniões dos encarnados. Uma assembleia é um ambiente onde irradiam pensamentos diversos. O pensamento atuando sobre os fluidos como o som atua sobre o ar, estes fluidos nos trazem os pensamentos como o ar nos traz o som. Pode-se, pois, dizer com toda verdade que existe nestes fluidos ondas e emissões de pensamento que se cruzam sem se confundir, como os há no ar ondas e radiações sonoras.

Uma assembleia é como uma orquestra, um coro de pensamentos onde cada qual produz sua nota. Disso resulta uma multiplicidade de correntes e de eflúvios fluídicos onde cada qual recebe a impressão pelo sentido espiritual como em um coro de música cada qual recebe a impressão dos sons pelo sensório auditivo.

Mas, tal como há emissões sonoras harmônicas ou dissonantes, há também pensamentos harmônicos ou discordantes. Se o conjunto for harmônico, a impressão será agradável; se for dissonantes, a impressão é penosa. Ora, por isso, não é necessário que o pensamento seja formado em palavras: as irradiações fluídicas; as radiações fluídicas não o fazem por menos, quer sejam expressas ou não, mas se ela se mistura a algum pensamento mau, produzirá efeitos de uma corrente de ar gelado em um meio tépido.

Tal é a causa do sentimento de satisfação que se experimenta em uma reunião simpática, animada de bons e benevolentes pensamentos; reina aí, como uma atmosfera moral salubre onde se respira comodamente; sai-se daí reconfortado, porque se está impregnado de eflúvios fluídicos salutares. Assim explicam-se também a ansiedade, a inquietação indefinível que se sente em um meio antipático, onde pensamentos maledicentes provocam como se fossem correntes de ar nauseabundas.

20. – O pensamento produz, pois, por uma forma de efeito físico que reage sobre o moral; é este que só o Espiritismo poderia fazer compreender. O homem o sente instintivamente, já que procura as reuniões homogêneas e simpáticas onde ele sabe que pode haurir novas forças morais; poder-se-ia dizer que aí ele recupera as perdas fluídicas que sofre cada dia pelas radiações do pensamento, como recupera pelos alimentos as perdas do corpo material. É que, com efeito, o pensamento é uma emissão que ocasiona uma perda real nos fluidos espirituais e, por conseguinte, nos fluidos materiais, de tal sorte que o homem tem necessidade de se reconfortar pelos eflúvios que recebe de fora.

Quando se diz que um médico cura seu enfermo com boas palavras, está-se dentro da verdade absoluta, porque o pensamento cordial traz consigo fluidos reparadores que atuam sobre o físico tanto quanto sobre o moral.

21. – É, sem dúvida possível, dir-se-á, evitar os homens que se saiba mal intencionados, mas como se subtrair da influência dos maus Espíritos que pululam em nossa volta e se deslizam em toda parte sem serem vistos?
O meio é seguramente simples, já que depende da vontade do próprio homem que traz consigo o preservativo necessário. Os fluidos unem-se em razão da similitude de sua natureza; os fluidos antagônicos se repelem; existe uma incompatibilidade entre os bons e os maus fluidos, como entre o óleo e a água.

Que se faz então quando o ar é viciado? Saneia-se, purifica-o, destruindo o centro dos miasmas combatendo os eflúvios insalubres por correntes de ar salutares mais fortes. À invasão dos maus fluidos é preciso, pois opor-lhes bons fluidos; e como cada qual tem em seu próprio perispírito uma fonte fluídica permanente traz-se o remédio consigo mesmo; basta depurar esta fonte e dar-lhe qualidades tais que sejam para as más influências uma resistência, em lugar de ser uma força atrativa. O perispírito é, assim, uma couraça à qual é preciso dar a melhor têmpera possível; ora, como as qualidades do perispírito são, em razão, qualidades da alma, torna-se necessário trabalhar em sua própria melhoria, porque são as imperfeições da alam que atraem os maus Espíritos.

As moscas vão onde os focos de corrupção as atraiam; destruindo estes focos e as moscas se dispersarão. Do mesmo modo, os maus Espíritos vão aonde o mal os atraia; destruí-vos o mal e eles se afastarão. Os Espíritos realmente bons, encarnados ou desencarnados, nada têm que temer à influência dos maus Espíritos.


NOTAS

(1) A denominação de fenômeno psíquico representa mais exatamente o que se pensa do fenômeno espiritual, atentando ao fato de que estes fenômenos representam sobre as propriedades e os atributos da alma, ou melhor, dos fluidos perispirituais que são inseparáveis da alma. Esta qualificação os liga mais intimamente à ordem dos fatos naturais regidos por suas leis, pode-se, pois, admiti-los como efeitos psíquicos, sem os admitir, a título de milagre.

(2) Exemplo de Espíritos que se creem ainda deste mundo: Revista Espírita dez. 1859, p. 310; – nov. 1854, p. 339; – abr. 1865, p. 117

(3) Revista Espirita, jul. 1859, p. 184. Livro dos Médiuns cap. VIII 163

 

NOTAS DO TRADUTOR

(a) Antes de lermos o item que se segue, temos que ter em conta que, na época de Kardec, a energia era tida
como uma forma fluida e que foi Sir Isaac Newton que denominou de FCU (fluido cósmico universal) a energia fundamental do Universo e só em 1905 é que Einstein provou que desta energia – chamada de matéria elementar primitiva por Kardec – se derivavam todos os demais fenômenos da natureza, inclusive a própria matéria, expressão pela famosa fórmula E = mc². Kardec se antecipou a ele.

(b) Nunca é demais repetir que o FCU (definido por Newton) nada mais é do que a energia fundamental do
Universo e, como tal, o primeiro estado físico de tudo o que possa existir dentro dele. Por isso, quando Kardec se antecipa à época, definindo-o como ”matéria elementar primitiva” ele já se antecipava a seu tempo neste conceito. Ainda não se sabia que a própria matéria, ou terceiro estado físico da energia, era exatamente, esta mesma energia (conhecida como FCU) condensada.

(c) Atualmente, a Parapsicologia denomina de psíquicos aos fenômenos anímicos e de parapsíquicos aos
mediúnicos, ditos espirituais (ou espiríticos por Akzacof) e que dependem da presença do desencarnado.

(d) Naquela época não se tinha a menor noção da existência desta energia fundamental descrita por Kardec e que só meio século após veio a ser conhecida, confirmando as presentes assertivas.

(e) Na época de Kardec ainda não se sabia que a molécula era constituída de átomos e estes de partículas,
quanto mais que ela seria a condensação da energia fundamental ou “fluido cósmico” como diziam.

(f) Hoje, o assunto se prende ao peso sem massa da atual “teoria do Nada”

(g) Há muita correlação entre o que Kardec descreve e o que os Astrofísicos acabam de descobrir sobre a energia estranha que corresponde a 73% da energia sideral.