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A Gênese é uma das cinco obras básicas da Codificação do Espiritismo. É um livro que, conhecido e estudado, proporciona uma oportunidade excepcional de imersão em grandes temas de interesse universal, abordados de forma lógica, racional e reveladora. Divide-se em três partes: na primeira parte, analisa a origem do planeta Terra, de forma coerente, fugindo às interpretações misteriosas e mágicas sobre a criação do mundo; na segunda, aborda a questão dos milagres, explicando a natureza dos fluidos e os fatos extraordinários contidos no Evangelho; na terceira enfoca as predições do Evangelho, os sinais dos tempos e a geração nova, que marcará um novo tempo no mundo com a prática da justiça, da paz e da fraternidade. Os assuntos apresentados nos dezoito capítulos desta obra têm como base a imutabilidade das grandiosas leis divinas.

Capítulo III – O Bem e o Mal

CAPÍTULO III – O BEM E O MAL

FONTE DO BEM E DO MAL

1. – Deus sendo o princípio de todas as coisas e, este princípio sendo toda sabedoria, toda bondade, toda justiça, tudo que procedendo do que deva participar destes atributos, já que é infinitamente sábio, justo e bom, jamais poderia produzir algo insensato, de maldade ou de injustiça. O mal que observamos não deve, pois, ter sua fonte n’Ele.

2. – Se o mal estiver nas atribuições de um ser especial que se denomine Ariman ou Satã, das duas, uma, ou este Ente seria igual a Deus e, por consequência, também poderoso e eterno como Ele, ou lhe seria inferior.

No primeiro caso, admitir-se-iam dois poderes rivais, lutando sem cessar, cada qual a destruir o que o outro faça e se contrapondo mutuamente. Esta hipótese é inconciliável com a unidade de vida que se revela na disposição do Universo.

No segundo caso, se este ente for inferior a Deus, estar-lhe-á subordinado; não podendo, assim, se tornar eterno como Ele, sem que Lhe seja igual, será, pois, um princípio; se ele foi criado, não poderia ter sido por Deus; Deus teria, assim, criado o Espírito do mal, o que seria a negação de sua infinita bondade. (a)

3. – Conforme certa doutrina, (b) o Espírito do mal, criado bom, seria transformado em mal e Deus, para lhe punir ter-lhe-ia condenado a se tornar eternamente malvado, e lhe teria dado por missão seduzir os homens a fim de lhes induzir o mal; opulência uma só queda podendo merecer-lhe os mais cruéis castigos eternos, sem esperança de perdão, haveria aí mais que uma falta de bondade, porém, uma crueldade premeditada, pois por encontrar a sedução mais fácil e melhor ocultar a armadilha, Satã estaria autorizado a se transformar em anjo de luz e a simular as mesmas obras divinas até mesmo se equivocar. Seria de séria inquietude e imprevidência da parte de Deus, pois toda liberdade confiada a Satã de sair do império das trevas e de se entregar aos prazeres mundanos para arrastar os homens, o provocador do mal teria menor punição que as vítimas de suas astúcias que sucumbe por fraqueza, uma vez que, no abismo, de lá não mais poderiam sair. Deus lhe recusa um vidro de água por mitigar-lhe a sede e, durante toda a eternidade decide, ele e seus anjos, seus queixumes sem se deixar comover, ao passo que permite a Satã todo o gozo que desejar.

Dentre todas as doutrinas sobre a teoria do mal, esta, sem dúvida, seria a mais irracional e a mais injuriosa para a divindade. (Ver Céu e Inferno – Cap. X – Os demônios)

4. – Entretanto, o mal existe e possui uma causa.

O mal é de todas as sortes. Há, em princípio, o mal físico, o mal moral, além disso, os males que o homem pode evitar e os que são independentes de sua vontade. Entre estes, é preciso colocar os flagelos naturais.

Em suas faculdades, o homem é limitado, não pode penetrar nem se abranger conjuntamente à visão do Criador; julga as coisas ao ponto de vista de sua personalidade, dos interesses de facções e de convenções que cria e que não estão absolutamente na ordem natural; é por isso que ele encontra frequentemente maldades e injustiça que considera justa e admirável, se visse a causa, a meta e o resultado definitivo. Procurando a razão de ser e a utilidade de cada coisa. Ele reconhecerá que tudo leva a marca da sabedoria infinita e se curvará ante tal sabedoria, mesmo pelas coisas que não compreenda.

5. – O homem recebeu como quinhão uma inteligência com o auxílio da qual pode conjurar, ou, pelo menos, atenuar grandemente os efeitos de todos os flagelos naturais; mais ele adquire em saber e avança em civilização, menos estes flagelos se tornam desastrosos; com uma organização social sabiamente previdente, ele poderá, até, neutralizar tais consequências, já que nem poderão ser evitados inteiramente. Assim, pelos seus próprios flagelos que possuam suas próprias utilidades na ordem geral da natureza e pelo futuro, porém, que ferem no presente, Deus tendo dado ao homem, por suas faculdades das quais deu seu Espírito, os meios de assim paralisar os efeitos.

É assim que se saneiam os sítios insalubres, que se neutralizam os miasmas empestados, que se fertilizam as terras incultas e engenha a preservação de inundações; que se constroem habitações mais saídas, mais sólidas para resistir aos ventos tão necessários à depuração da atmosfera, que se põe ao abrigo das intempéries; é assim, finalmente, que, pouco a pouco, a necessidade faz criar as ciências para auxílio dos quais aperfeiçoa as condições de habitabilidade do globo e amplia a soma de seu conforto.

O homem devendo progredir, os males aos quais está exposto, são um estímulo para o exercício de sua inteligência, de todas as suas faculdades físicas e morais, convidando-o à pesquisa dos meios de se preservar. Se nada houvesse que recear, nenhuma necessidade o levaria à pesquisa do que seja melhor; ele se entorpeceria na iniciativa de seu espírito; nada inventaria e nada descobriria. A dor é o aguilhão que impulsiona o homem adiante na estrada do progresso.

6. – Todavia, os males mais numerosos são aqueles que o homem a si criou pelos seus próprios vícios, os provenientes de seu orgulho, de seu egoísmo, de sua ambição, da cupidez, de seus excessos em tudo: eis, pois, a causa das guerras e das calamidades que arrastam, dissensões, injustiças, opressão do fraco pelo forte, enfim, da maioria das doenças.

Deus estabeleceu leis plenas de sabedoria que não têm senão por alvo o bem; o homem encontra em si mesmo tudo o que se torna necessário para a sequência; sua rota é traçada por sua consciência; a lei divina fica gravada em seu coração; além do mais, Deus os faz chamar sem interrupção, por seus messias e seus profetas, pelos Espíritos encarnados que receberam missão de clarear, de moralizá-lo, de aperfeiçoá-lo, e nestes últimos tempos, pela multidão de Espíritos desencarnados que se manifestam em todas as partes. Se os homens se conformassem rigorosamente às leis divinas, não seria incerto que ele evitaria os males mais pungentes e que, como tal, viveria venturoso sobre a terra. Se não o faz, é em virtude (decorre) do seu livre arbítrio e, em súbito, as consequências. (c)

7. – Contudo, Deus, pleno de bondade, colocou o remédio ao lado do mal, a dizer que do próprio mal faz nascer o bem. Chega um momento em que o excesso do mal moral se torna intolerável e faz sentir ao homem a necessidade de trocar de vida; instruído pela experiência, ele é compelido a procurar um remédio no bem, sempre por um efeito do seu livre arbítrio; logo que entra em um caminho melhor, é feito por sua vontade e porque reconheceu as inconveniências do outro caminho. A necessidade o obriga, pois, a se aperfeiçoar moralmente em via de ser mais feliz como esta mesma necessidade o tenha forçado a aperfeiçoar s condições materiais de sua existência.

Pode-se dizer que o mal é a ausência do bem, como o frio é a abstinência do quente. O mal não é mais um atributo distinto assim como o frio não é um fluido especial; um vem a ser a negação do outro. No lugar em que o bem não existe, haverá forçosamente o mal; não fazer o mal já é o começo do bem. Deus só quer o bem. Do homem, somente, é que provém o mal. Se houvesse na Criação um ser preposto ao mal, o homem não o poderia evitar; contudo, sendo o homem a causa do mal em si próprio e possuindo, ao mesmo tempo, seu livre arbítrio e por guia as leis divinas, ele o evitará quando bem entender.

Tomemos um fato vulgar para comparação. Um proprietário sabe que a extremidade do seu campo é um sítio perigoso onde poderá perecer ou se ferir quem por lá se aventurar. Que faz ele para se prevenir dos acidentes? Coloca próximo do lugar um aviso portando proibição para se ir mais além por causa do perigo. Eis a lei; ela é sábia e previdente. Se, apesar disso, um imprudente não tiver dado conta e ultrapasse o local, dando-se mal, a quem poderá ele responsabilizar senão a si próprio?

Assim o é com todo mal. O homem o evitaria se observasse as leis divinas. Deus, por exemplo, colocou um limite à satisfação das necessidades; o homem fica advertido pela saciedade; se ultrapassar esse limite fá-lo-á voluntariamente. As doenças, as fraquezas do corpo, a morte que pode advir delas, são, pois, seu feito e não oriundo de Deus.

8. – O mal, sendo o resultado das imperfeições do homem e sendo o homem criado por Deus, este Deus dir-se-á, pelo menos, se não criou o mal, pelo menos, terá criado a causa dele; se fizesse o homem perfeito, o mal não existiria.

Tivesse sido o homem criado perfeito ele seria fatalmente portador do bem; ora, em virtude de seu livre arbítrio, ele não é obrigatoriamente portador nem do bem nem do mal. Deus quis que ele fosse submetido à lei do progresso e que tal progresso fosse fruto do seu próprio trabalho, a fim de que o mérito fosse seu, mesmo portando a responsabilidade do mal que é feito por sua vontade. A questão, pois, é de saber qual é, no homem, a fonte da propensão ao mal (1).

9. – Se estudarmos todas as paixões, e mesmo, todos os vícios, veremos que eles têm seus princípios no instinto de conservação. Este instinto encontra-se, com toda sua força nos animais e entre os seres primitivos que mais se aproximam da animalidade; aí, domina sozinho, porque, entre eles ainda não existe o contrapeso do senso moral; o ser ainda não nasceu para a vida intelectual. O instinto se debilita, ao contrário, à medida que a inteligência se desenvolve, porque assim domina a matéria; com a inteligência racional, nasce o livre arbítrio o qual o homem usa a seu capricho; então, exclusivamente cabe a ele a responsabilidade dos seus atos.

10. – O destino do Espírito é a vida espiritual; mas, na primeira fase de suas existência corpórea, ele só possui necessidades materiais para satisfazer, e, para tal, o exercício das paixões e uma necessidade de conservação da espécie e dos indivíduos, materialmente falando. Porém, saindo deste período, possui outras necessidades, necessidades a princípio semi-morais e semi-materiais, e depois, exclusivamente morais. É, então, que o Espírito domina a matéria; ele se sacode em cativeiro, avança pela vida providencial e se aproxima de seu destino final. Se, ao contrário, ele se deixa dominar pela matéria, ele se retarda na assimilação da estupidez. Nesta situação, o que era outrora um bem, porque representava uma necessidade da sua natureza, torna-se em mal, não apenas porque seja uma necessidade, mas porque se torna nocivo à espiritualização do ser. O mal é assim relativo, e a responsabilidade proporcional ao grau de adiantamento.

Todas as paixões têm, dessa forma, sua utilidade providencial, sem o que Deus teria feito algo inútil e desnecessário; é o abuso que constitui o mal, e o homem abusa decorrente do seu livre arbítrio. Mais tarde, esclarecido pelo seu próprio interesse, ele escolhe livremente entre o bem e o mal.


NOTA

(1) O erro consiste em pretender que a alma sairia perfeita das mãos do Criador, então que este, ao contrário, tenha querida que a perfeição fosse o resultado da depuração gradual do Espírito e sua obra própria. Deus quis que a alma, em virtude de seu livre arbítrio, pudesse optar entre o bem e o mal, e que ela chegará a seus objetivos finais por uma vida militante e resistindo ao mal. Se Ele fizesse a alma perfeita como ele próprio, em saindo das suas mãos, tendo associado à sua beatitude eterna, lê teria feito não à sua imagem mas semelhante a ele mesmo, tal como já dissemos. Conhecendo todas as coisas em virtude da sua essência e sem ter nada aprontado, mudado por um sentimento de orgulho, nascido da consciência de seus atributos divinos. Ela teria sido arrastada a negar sua origem, a desconhecer o autor de sua existência, e estaria constituída em estado de rebelião, de revolta para com seu Criador. (Bonnamy, juiz de instrução: A razão do Espiritismo, cap. VI)

NOTAS DO TRADUTOR

(a) Atualmente, alguns pesquisadores, ante descoberta de certos documentos da era em que Jesus viveu na Galileia, admitem que os gnósticos, heterodoxos mais próximos seguidores do mestre e ditos cristãos do primeiro momento, como Simão, o Mago, admitiam a existência de dois deuses distintos, um do bem, que enviara Jesus à Terra e outro do mal, que tentava desvirtuar os homens, tese esta que hipoteticamente seria pregada por Pedro, em Roma mas que, por não ser compatível com a doutrina de Constantino que seguia e aceitava a lenda egípcia do Deus Sol, monoteísta, exigiu que a nova doutrina dita cristã também se tornasse monoteísta, daí, terem os sábios da época se servido do apóstolo Paulo, em vez de usar os ensinamentos de Pedro para instituírem a Igreja Romana.

(b) Leia-se: roustaingismo, motivo pelo qual este item foi supresso de certas traduções facciosas.

(c) Vê-se, aqui, Kardec tentando contemporizar a ideia de Deus justo e perfeito, com a existência do mal sem ferir os preceitos cristãos estabelecidos, todavia, por falta total de conhecimentos – e que perduram até a presente data – ele não teve condições de melhor explicar a existência do mal senão pela hipótese de que seria algo necessário para a evolução espiritual. Filósofos há que o bem só pode existir havendo o mal porque um caracteriza a existência do outro, tal como o claro e o escuro, o alto e o baixo e assim por diante, como será visto adiante.